1.02.2020

Questions à Gandhi

Medicamento que evita o contágio com HIV é novo aliado no combate à AIDS


Medicamento que evita o contágio com HIV é novo aliado no combate à AIDS
Truvada começará a ser distribuído pelo SUS ainda neste ano
É possível que pessoas não infectadas, mas que possuem maior vulnerabilidade 
ao contágio, possam prevenir o contágio com o vírus do HIV utilizando 
diariamente uma pílula antirretroviral (ARV). Parece utópico, mas essa realidade
 já existe. A pílula, denominada PrEP, sigla de profilaxia pré-exposição ao HIV,
 é também conhecida por Truvada, seu nome comercial. Trata-se de um 
medicamento que combina dois tipos de retrovirais, o tenofovir e 
emtricitabitina, que bloqueia o ciclo da multiplicação do vírus, caso ocorra
 a infecção. Não é uma vacina, mas evidências científicas mostram que
 o medicamento possui eficácia superior a 90% com o uso contínuo.
No mundo, há cerca de 36,7 milhões de pessoas vivendo com o HIV,
 segundo dado da Organização Mundial da Saúde (OMS). A PrEP é um
 grande passo no combate à doença, já que seu diferencial é atingir um 
público que possui maior vulnerabilidade de se infectar e que, por 
algum motivo, não consegue se proteger em todas as relações sexuais. 
Fazem parte desse grupo a população transexual, casais soro discordantes 
(quando um tem vírus e o outro não), homens que fazem sexo com 
outros homens (HSHs) e profissionais do sexo.
De acordo com o boletim epidemiológico do Ministério da Saúde, 
o Brasil apresenta uma média de 40 mil novos casos de HIV/Aids 
por ano. Nas pessoas consideradas deste grupo de risco, a prevalência
 de HIV é de 5 a 10%, sendo que na população em geral o risco de 
infecção é de 0,4%.  Em alguns países no mundo, a taxa de 
prevalência do HIV em mulheres transgêneras chega a ser 80 vezes 
maior que a população adulta em geral (OMS). Profissionais do sexo 
possuem 13,5% mais chances de serem infectadas. Diversas 
questões como violência, barreiras legais, estigma e discriminação 
dificultam o acesso para essa população. 

 O começo

A ideia de prevenir o vírus do HIV ganhou maior visibilidade com 
Greg Owen, um irlandês homossexual que vivia em Londres, 
trabalhava como barmen e que ao ouvir falar do Truvada decidiu pesquisar
 a respeito e em como obtê-lo. Naquele momento, em 2015, 
a PrEP ainda não estava disponível e uma prescrição privada custava
 em torno de 500 euros por mês. Owen descobriu um estudo em 
andamento que testava a eficácia do remédio, se inscreveu e começou
 a publicar em seu blog atualizações sobre o programa do qual fazia parte.
Mas, em um dos testes de rotina, Owen descobriu que já havia contraído
 o vírus. Mesmo devastado com a notícia, ele decidiu fazer desta situação
 um meio para que outras pessoas não contraíssem a doença:
 Owen criou o site IWantPrEPNow e lá publicava informações, 
extensas pesquisas, atualizações e até formas viáveis de onde comprar 
o medicamento. Em pouco tempo, Owen se tornara um ativista em 
meio a uma agitada rotina de entrevistas e participações em programas
 da mídia para ajudar mais e mais pessoas a saberem sobre a PrEP. 
Em 2012 o Truvada foi aprovado pelo Food and Drug Administration
 (FDA) como medida preventiva – antes o remédio era usado apenas
 como tratamento - e desde então, seu uso vem aumentando.

 PrEP no Brasil

Sistema Único de Saúde (SUS). Seremos o primeiro país da América
 Latina a realizar essa medida, que terá investimento inicial de 
US$ 1,9 milhão para a compra do medicamento, que será destinado 
em um no primeiro momento a 7 mil pessoas que fazem parte das 
populações-chaves em 12 estados brasileiros. O Ministério da Saúde
 afirma que essa medida deverá aumentar conforme a demanda.
 “O Brasil, mais uma vez, sai como um dos pioneiros na prevenção 
e tratamento do HIV”, afirmou o ministro Ricardo Barros, durante entrevista
 coletiva. 
O estudo iPrEX já vinha sendo conduzido em quatro centros 
de pesquisas no país financiados pelo Ministério da Saúde: 
a Faculdade de Medicina da USP, pelo Centro de Referência e 
Treinamento em DST/Aids, pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) 
e pelo Hospital Partenon (Porto Alegre).

Uso do preservativo

Apesar de grande aliado ao combate à AIDS, a utilização da PrEP
 não é substituta do preservativo, já que o medicamento não possui
 100% de eficácia e ajuda na prevenção somente contra o HIV. O uso 
da camisinha continua sendo o mais indicado para a prevenção
 de outras doenças sexualmente transmissíveis, como a gonorreia 
e hepatites, além de evitar a gravidez indesejada.
A PrEP surge como mais uma alternativa para lidar com o vírus da AIDS,
 mas é importante que as pessoas continuem usando a camisinha como
 forma de evitar o contágio com o vírus HIV. Nos últimos anos, percebeu-se
 uma queda na compra de camisinhas e no uso do preservativo nas relações
 sexuais, o que não é nada recomendado pelos médicos.
Dados do Target Group Index da Kantar IBOPE Media mostram que 
nos últimos 5 anos, houve queda na compra (-21%) e no uso do 
preservativo (-9%) entre brasileiros maiores de 18 anos. 
Os números são ainda mais alarmantes entre o público jovem: 
na faixa etária entre 18 e 24 anos, a compra da camisinha diminuiu
 25% e o uso do preservativo em novos relacionamentos caiu 11%.
Talvez por não terem sido testemunhas de mortes em decorrência da 
AIDS, já que hoje um soropositivo tem uma expectativa e qualidade de
 vida muito melhor, os jovens podem estar negligenciando os cuidados 
com a própria saúde.
Até mesmo a PrEP, por exemplo, é uma nova alternativa direcionada às 
populações de risco – como casais soro discordantes – e não funciona 
como uma “vacina” contra o vírus HIV. “A AIDS continua sendo uma doença
 sem cura e que pode atingir a todas as pessoas”, alerta Eloisa Moreira,
 diretora de pesquisa clínica da Kantar Health.

Informação ainda é aliada

A desinformação é outro grande desafio quando se fala da doença: 
do total de brasileiros vivendo com AIDS, o Ministério da Saúde projeta
 que cerca de 20% não sabe que têm a doença. Esse dado mostra o 
quanto informação e prevenção são importantes para que mais 
pessoas não contraiam e transmitam a doença. “Em grande parte 
dos casos de HIV, não apenas a vida do indivíduo está em jogo, 
mas também as vidas de seus parceiros”, ressalta Moreira.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) liberou a 
comercialização de autotestes de HIV em farmácias no ano passado.
 “O autoteste pode auxiliar em boa parte dos casos em que a 
razão para a pessoa não realizar o exame é o medo do diagnóstico”,
 enfatiza Moreira. Além disso, o SUS também oferece o exame 
gratuitamente e sem a necessidade de identificação.
Mesmo com o número de casos diminuindo - a proporção de novos
 casos em relação ao total da população caiu 5,5% em 2015 no 
Brasil, segundo o Boletim Epidemiológico - os números da doença 
continuam alarmantes. Só no Brasil, o número de mortes relacionadas
 à AIDS foi estimado em 15.000 pela UNAIDS em 2015.

Vivendo com a doença

Além da nova medida de prevenção com a PrEP, o Brasil hoje tem
 uma das maiores coberturas de tratamento antirretroviral (TARV) entre
 os países de baixa e média renda, com mais da metade (64%) das 
pessoas vivendo com HIV recebendo TARV, de acordo com dados do 
Ministério da Saúde. O TARV evita que o HIV se multiplique no organismo.
 Se a reprodução do HIV para, então as células imunes do corpo são 
capazes de viver mais tempo e proteger o corpo contra infecções.
A AIDS não tem cura, mas com o avanço da medicina e tecnologias, 
pode ser tratada com medicamentos, aumentando assim 
consideravelmente o tempo e a qualidade de vida do paciente.
 “O tratamento tem como objetivo manter a carga viral (de modo simples,
 a quantidade de vírus no organismo do paciente) baixa. Os exames 
periódicos permitem verificar se a carga viral permanece baixa ou 
se aumentou; nesse último caso, os exames também podem identificar
 mutações no vírus e, como consequência, qual alteração no 
tratamento deve ser feita”, explica Moreira

Pessoas que vão e pessoas que vem.

1.01.2020

Intercept: Moro protegeu Flávio Bolsonaro para não perder cargo



Foto: Wilson Dias/Agência Brasil
Uma nova reportagem veiculada pelo site The Intercept Brasil neste domingo 21 mostra que, enquanto juiz da operação Lava Jato, Sérgio Moro fez vistas grossas ao esquema de corrupção que Flávio Bolsonaro mantinha em seu gabinete enquanto foi deputado estadual no Rio de Janeiro. O motivo? Ele temia desagradar ao pai, Jair Bolsonaro, que já tinha lhe cedido o cargo de Ministro da Justiça em seu governo.
Em chats secretos, o coordenador da operação Deltan Dallagnol já tinha concordado com a avaliação de procuradores sobre o esquema de Flávio, operado pelo assessor Fabrício Queiróz, mas mostrou preocupação sobre como Moro se colocaria diante do caso.
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“Até hoje, como presumia Dallagnol, não há indícios de que Moro, que na época das conversas já havia deixado a 13ª Vara Federal de Curitiba e aceitado o convite de Bolsonaro para assumir o Ministério da Justiça, tenha tomado qualquer medida para investigar o esquema de funcionários fantasmas que Flávio é acusado de manter e suas ligações com poderosas milícias do Rio de Janeiro”, traz a reportagem.

  Além disso, Moro também não parece se preocupar com as ramificações federais do caso –  como o suposto empréstimo de Queiroz para a primeira-dama, Michelle Bolsonaro. Questionado pelo caso, alegou que não havia nada conclusivo e que o governo não interferiria no trabalho dos promotores.
Na segunda-feira 15, no entanto, o caso voltou aos noticiários quando o presidente do STF, Dias Toffoli, atendeu ao pedido de Flávio Bolsonaro e suspendeu as investigações iniciadas sem aprovação judicial envolvendo o uso dos dados do Coaf, órgão do Ministério da Economia que monitora transações financeiras para prevenir crimes de lavagem de dinheiro.

Os chats

No dia 8 de dezembro de 2018, Dallagnol postou num grupo de chat no Telegram chamado Filhos do Januario 3, composto de procuradores da Lava Jato, o link para um reportagem no UOL sobre um depósito de R$ 24 mil feito por Queiroz numa conta em nome da primeira-dama, Michelle Bolsonaro.
Dallagnol pediu a opinião dos colegas, ao que a procuradora Jerusa Viecilli, crítica da aproximação de Moro com o governo Bolsonaro, respondeu: “Falo nada … Só observo ”.  Dallagnol escreveu: “É óbvio o q aconteceu… E agora, José?”, digitou o procurador. “Seja como for, presidente não vai afastar o filho. E se isso tudo acontecer antes de aparecer vaga no supremo?”, escreveu. Dallagnol completou, sobre o presidente: “Agora, o quanto ele vai bancar a pauta Moro Anticorrupcao se o filho dele vai sentir a pauta na pele?”
Em outro chat particular com o também procurador Roberson Pozzobon, Dallagnol conversam sobre o caso Queiroz e mostram preocupação com as entrevistas da imprensa que poderiam abordar a situação de Flávio Bolsonaro.
“Em entrevistas, certamente vão me perguntar sobre isso. Não vejo como desviar da pergunta, mas posso ir até diferentes graus de profundidade. 1) é algo que precisa ser investigado; 2) tem toda a cara de esquema de devolução de parte dos salários como o da Aline Correa que denunciamos ou, pior até, de fantasmas”, escreve Pozzobon. Dallagnol sugere algumas respostas ao procurador e ambos chegam à conclusão de que o silêncio é o melhor caminho.
Ainda no dia 21 de janeiro, após receber um convite do Fantástico para participar de uma reportagem sobre foro privilegiado, Dallagnol recusa a ida por temer ter que falar também das tentativas de Flávio Bolsonaro de usar o foro privilegiado para barrar as investigações, mesmo que o caso tenha ocorrido quando ainda era deputado estadual, antes de sua posse como senador. A situação também foi exposta no grupo Filhos do Januário 3.

“Pessoal, temos um pedido de entrevista do fantástico sobre foro privilegiado. O caso central é bom, envolvendo o Paulo Pimenta, se isso for verdade rs. O risco é eles decidirem no fim focar no Flávio Bolsonaro eusarem nossas falas nesse outro contexto. De um modo ou de outro, o que temos pra falar é a mesma coisa. Além disso, algumas informações que buscam não temos (são da PGR). A questão é se é conveniente darmos entrevista para essa reportagem ou não. Eu não vejo que tenhamos nada a ganhar porque a questão do foro já tá definida. Diferente de uma matéria sobre prisão em segunda instância…”, publicou Dallagnol.
Os procuradores comentam a mensagem. Um deles, Antonio Carlos Welter, escreve: Pelo Pimenta não vejo problema. O ruim é a bola dividida”, fazendo referência à situação de Flávio Bolsonaro.
Há registros ainda de outros chats compostos de procuradores do MPF comentando o caso envolvendo Flávio Bolsonaro e o assessor Queiróz. Em um grupo chamado Winter is Coming,  o procurador regional da República Danilo Dias escreve: “Não tenho dúvidas de que isso é mensalinho”, traz a reportagem do The Intercept Brasil.
A reportagem ainda traz conversas trocadas entre Dallagnol e seus assessores de imprensa, que avaliam pedido de jornalistas para que o coordenador da operação Lava Jato tivesse um posicionamento sobre o caso Flávio e Queiroz. Na ocasião, eles criticam a postura de Moro. “sem contar que a fala de Moro sobre Queiroz foi muito ‘neutra’. não teve firmeza, sabe? para muita gente, pareceu que Moro quis sair pela tangente. Ele ficou em cima do muro”, colocaram os assessores de Dallagnol.
O Intercept afirma que Moro já foi questionado diversas vezes sobre sua aparente apatia diante não somente da investigação sobre a corrupção de Flávio, mas também de outros escândalos envolvendo o governo Bolsonaro, como as denúncias de que o PSL teria utilizado um esquema de laranjas nas eleições de 2018. E que a justificativa dada pelo ministro de que “não tem controle sobre a Polícia Federal” deveria ser vista com “muito ceticismo”.
“Durante anos, ele também insistiu que não desempenhou nenhum papel nas operações da Lava Jato, algo que as reportagem do Intercept, da Folha e da Veja provaram ser claramente falso”, finaliza a publicação.