6.18.2019

Temer passou segredos de estado a governo americano, revela Glenn Greenwald


Em entrevista concedida ao site Brasil de Fato, o jornalista americano Glenn Grenwald revela que o presidente interino do Brasil, Michel Temer, durante muito tempo foi informante do governo dos Estados Unidos. Segundo ele, à época jornais brasileiros chegaram a abordar o tema. Entretanto, como Temer era um político irrelevante, ninguém deu muita importância. Agora, estando no foco do universo político, o assunto vem a tona novamente. Leia aqui.


Por Fania Rodrigues e André Vieira, do Brasil de Fato
Glenn Greenwald é o jornalista responsável por um conjunto de matérias que revelou ao mundo as espionagem do governo dos Estados Unidos por meio da Agência Nacional de Inteligência (NSA, sigla em inglês). Entre as espionadas estava a presidente Dilma Rousseff.

Nascido nos EUA, Glenn atualmente é correspondente do jornal The Intercept no Rio de Janeiro e foi o primeiro jornalista a entrevistar Dilma após a votação do processo de impeachment na Câmara dos Deputados, em 17 de abril deste ano.

Confira a entrevista completa:

Brasil de Fato - O site Wikileaks chegou a denunciar que o presidente interino Michel Temer seria informante dos Estados Unidos. O que você pensa dessa relação?

Glenn Greenwald - Quando o Wikileaks divulgou esses documentos pela primeira vez, quatro anos atrás, foram feitas algumas matérias no jornal Folha de S. Paulo e em outros jornais. Na época, ninguém prestou muita atenção porque as pessoas não se importavam muito com Temer. Mas agora, claro, o foco está nele. O que o Wikileaks disse agora é que o Temer está espionando o Brasil, junto aos Estados Unidos. Esse documento mostrou um comportamento muito raro, muito estranho, muito suspeito. Para mim esse documento subiu o nível da espionagem ou traição. Eu acho que esses registros são muito interessantes porque mostram que Temer é muito próximo dos EUA. Tem muitas pessoas achando que esse impeachment é para afastar o Brasil dos Brics [grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul]. Querem o país longe da China e mais próximo dos EUA. E esse documento é uma evidência de que o presidente é uma pessoa que tem um relacionamento muito próximo com os EUA. Na realidade ele estava passando informação não pública a um governo estrangeiro. Acho que, pelo menos isso, deve ser investigado.



Como você vê a postura dos EUA nesse processo de impeachment no Brasil?

Essa questão sobre o envolvimento dos EUA com a política interna do Brasil é muito sensível porque todos os brasileiros, ou a maioria do povo, sabem que os EUA estiveram envolvidos no golpe de 1964 e que apoiou muito a ditadura.

Quando a presidente Dilma deu uma entrevista à RT [canal Russia Today] ela disse que não tinha evidências de que os EUA estariam envolvidos [no processo de impeachment]. O que eu posso falar, com certeza, é que o governo dos EUA tem uma preferência pelo governo Temer, se comparado ao governo do PT [Partido dos Trabalhadores].

O governo Temer oferece muito mais benefícios aos EUA, aos bancos estadunidenses e ao capital de Wall Street [mercado financeiro]. Então, acho que talvez eles não estejam apoiando o processo, mas aprovando, mostrando que eles não vão impedir. Um dia após a votação na Câmara dos Deputados, o líder da oposição, o senador Aloysio Nunes, foi para Washington e encontrou com políticos do alto escalão do governo dos EUA. Ele disse que estava indo dar informações, dizer que não é um golpe. Claro que quando um líder da oposição se encontra com membros do governo em Washington, nesse momento tão importante e sensível, levanta suspeita sobre o papel dos EUA nesse processo.

Como você avalia a cobertura da mídia brasileira no processo de impeachment?

Eu fiz reportagens em muitos países do mundo nos últimos oito anos e eu nunca vi uma mídia se comportando assim como a brasileira. Três famílias ricas são donas de quase todos os grandes meios de comunicação. Quase o total deles unidos contra o PT, contra o governo de Dilma, apoiando o impeachment. Os jornalistas que trabalham nessas organizações estão, quase que em sua unanimidade, apoiando o impeachment. Não estão fazendo jornalismo, não estão priorizando a pluralidade de opiniões. Estão fazendo propaganda para os donos dessas organizações para derrubar o governo que os donos [dos meios de comunicação] não gostam. Estão trabalhando para colocar o governo que eles preferem. Isso pra mim é uma ameaça, não só à liberdade de imprensa, mas também à democracia. Essas organizações têm a responsabilidade de informar o público, mas fazem o contrário. Estão distribuindo propaganda. A parte boa é que, agora, com a internet, essas organizações não podem mais controlar toda a informação que os brasileiros estão recebendo. Também há muitos jornalistas estrangeiros no Brasil, que não são controlados por essas organizações, e que estão fazendo reportagens sobre as mentiras dos líderes do impeachment. As informações que os brasileiros recebem estão mais diversificadas. Acho que essas organizações brasileiras estão perdendo o controle que eles tiveram por muito tempo.

Como você avalia as movimentações recentes da direita na América Latina com a vitória de Macri, na Argentina; a derrota da esquerda no referendo da Bolívia; os golpes contra Fernando Lugo, no Paraguai e Manuel Zelaya, em Honduras?

É preciso dividir as situações. A direita ganhou as eleições na Argentina de maneira mais ou menos limpa e justa. Também no Bolívia teve eleição para manter o limite do mandato do presidente Evo Morales. Se o povo quer votar por mudança, ele tem o direito de fazer. Já em países como Paraguai ou Honduras, assim como no Brasil, e também na Venezuela, existe esse movimento em que governos de esquerda, que foram eleitos, estão sendo tirados por políticos de direita que não foram eleitos.

Podemos observar esses dois movimentos de direita na América Latina. Um que é justo, pois acontece em eleições, e tem outra parte que é atacando à democracia. Precisamos considerar essas diferenças quando analisamos.

Qual sua opinião sobre o processo de impeachment contra Dilma Rousseff?

Acho que agora está muito mais claro que o impeachment não tem nada a ver com corrupção. O PT ganhou quatro eleições seguidas e os mais ricos, as pessoas mais poderosas, não conseguiram derrotar o PT dentro da democracia. Os problemas econômicos e a dignidade da Dilma em  não fazer acordo com um congresso corrupto  serviram como oportunidade para eles finalmente tirarem a presidenta e destruírem o PT utilizando as tais pedaladas fiscais feitas por todos os presidentes antes da Dilma. O impeachment é só isso: as frações mais ricas, mais poderosas, explorando a oportunidade de mudar o governo que eles não conseguiram tirar nas eleições democráticas.

Atropelo na troca de comando do BNDES mostra ansiedade do Governo por caixa

Joaquim Levy é substituído por Gustavo Montezano na chefia do banco. “Falar de 'caixa preta' é cortina de fumaça”, diz ex-presidente da instituição no Governo Temer

Novo presidente do BNDES, o economista Gustavo Henrique Moreira Montezano.
Novo presidente do BNDES, o economista Gustavo Henrique Moreira Montezano. DIVULGAÇÃO
O presidente Jair Bolsonaro correu para apaziguar o mal-estar que ele mesmo gerou no final de semana quando avisou espontaneamente à imprensa que o então presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Joaquim Levy, estava com a “cabeça a prêmio”. Levy entendeu o recado e pediu demissão no mesmo dia. Nesta segunda, Bolsonaro anunciou que trocava Levy, doutor em economia pela Universidade de Chicago que deixou o Banco Mundial para embarcar no Governo Bolsonaro, por Gustavo Montezano, mestre em economia pela Faculdade de Economia e Finanças do Rio de Janeiro, e ex-sócio do banco de investimentos BTG. Montezano assume sob a pressão de acelerar a venda de ativos do banco e devolver empréstimos feitos ao Governo.
O porta-voz do Governo, general Otávio Rêgo Barros, tratou com normalidade a mudança de cargo. “Uma das medidas que se deseja é a devolução dos recursos [emprestados ao] banco para o Tesouro Nacional. Além disso, deve aumentar investimentos em infraestrutura e saneamento e ajudar a reestruturar, ‘abrir a caixa-preta do passado’, apontando para onde foram investidos em Cuba e na Venezuela, por exemplo”, disse o porta-voz na noite desta segunda-feira.
A frequente alusão a que existam operações suspeitas do banco em gestões passadas é vista como “cortina de fumaça” usada pelo Governo para ocultar a urgente necessidade de fazer dinheiro, num momento de arrecadação baixa, desemprego alto e investimento tímido do Governo e das empresas. “Não existe caixa preta no BNDES, nem caixa cinza nem caixa de qualquer outra cor. Nada deixou de ser aberto ali. Providências, inspiradas nas próprias exigências do Tribunal de Contas da União, e que Dyogo de Oliveira [seu sucessor] complementou, fez do BNDES o banco de dados aberto mais escancarado de uma instituição financeira em nível mundial”, diz Paulo Rabelo de Castro, que assumiu a presidência do BNDES em junho de 2017, logo após a saída de Maria Silva Bastos, durante o Governo Temer.
“Quando cheguei lá, encontrei duas investigações mais aprofundadas, sobre créditos à JBS e à Odebrecht, feitas de forma rigorosa. É quase ofensivo tratar como se eu e Maria Silvia tivéssemos fechado os olhos”, completa Rabelo, que estudou na Universidade de Chicago como o ministro da Economia Paulo Guedes, a quem conhece desde a juventude. Para o ex-presidente do BNDES, o Governo está mirando em um alvo por não enxergar outro. “Ele simplesmente não acertou o alvo da política econômica de 2019. Ele descartou que haveria desaceleração este ano pelo radicalismo monotônico sobre a necessidade de aprovar a reforma da Previdência”, avalia.
O economista Sérgio Lazzarini, do Insper, que analisa dados do banco há mais de uma década, concorda. Lazzarini acredita que Bolsonaro precisa ser mais específico quando fala em uma caixa-preta no BNDES. "Dados de quem pega o empréstimo, para onde foi, a qual taxa de juros, etc., já estão abertos desde 2015. Se caixa preta for dados, isso já está transparente. Agora, se ele quiser saber quem exatamente autorizou o empréstimo, precisa ir ao conselho de administração e pegar atas de reunião", explica. Há tempos Bolsonaro reclamava que a direção do banco ainda não tinha aberto o que ele chama de "caixa-preta" do BNDES, onde estariam comprovados desvios ocorridos no banco em Governos anteriores, principalmente nos anos do PT. A abertura desses dados foi uma pauta eleitoral bastante repetida pelo então candidato de extrema direita.
Mas, para além da tal falta de informações, o Governo Bolsonaro reclamava de uma suposta resistência de Levy para a devolução ainda este ano 126 bilhões de reais do BNDES devidos ao Tesouro Nacional num momento delicado para a economia. Entre 2008 e 2014, ou seja, em parte do Governo Lula e Dilma, o Tesouro fez aportes de mais de 400 bilhões no BNDES. De 2015 a 2018, já foram devolvidos 309 bilhões. O compromisso inicial era de devolver 26 bilhões neste ano, mas Guedes pediu para antecipar um total de 100 bilhões de reais. O ex-presidente do banco defendia um prazo maior para pagar o que devia.
Outro ponto de atrito entre Levy e a equipe econômica diz respeito à venda de participações do BNDES em empresas, através do seu braço de investimento BNDESPar. O banco tem participação, por exemplo, na Petrobras, na Eletrobras e também na JBS. Na avaliação de Lazzarini, tanto a devolução de recursos ao Tesouro quanto a venda de ativos do banco são salutares para a instituição de fomento à economia. Mas é preciso ser feito através de um plano, entendendo a especificidade de cada processo. "O jeito incorreto é o presidente criticar na mídia, fazer esse falatório, sem usar os instrumentos de governança", diz.
O anúncio de Montezano veio depois de um processo de fritura pública de Levy, em mais um episódio da "usina de crises" do presidente – para usar a alcunha dada pelo presidente do Congresso, Rodrigo Maia. Bolsonaro reclamou de Levy por ele ter escolhido Marcos Barbosa Pinto, que trabalhou no Governo do PT, para assumir a diretoria de mercado de capitais do banco. Bolsonaro afirmou a jornalistas que Levy "estava com a cabeça a prêmio". A afirmação levou aos pedidos de demissão tanto de Barbosa como o de Levy. O modo como a saída dos executivos ocorreu foi criticada por Rodrigo Maia, que se disse "perplexo" pelo modo como Guedes agiu no episódio. Ele disse que o caso revelou uma "covardia sem precedentes".
Apesar do ruído político, o banco teria condições de atender ao pedido de Guedes, segundo Marcos Ferreira, ex-diretor de Infraestrutura e Governos do BNDES no Governo Temer. "Tudo que entrou no banco do Tesouro terá que sair. Fazer essa devolução mais rápido não é difícil. Ainda mais neste momento de baixo crescimento econômico, a demanda está baixa." Para ele, vender ativos do banco também é um processo natural. “Não faz sentindo [as participações do banco em outras empresas]. Tem que vender, mas sem tumultuar o mercado”, conclui. A dúvida é se o BNDES com menos capital vai conseguir conceder crédito para dinamizar a economia

Mídia descobre ‘Tacla Duran’, que diz ter sofrido extorsão da Lava Jato

Ignorado pela mídia tradicional durante quase dois anos e investigado na Lava Jato, o ex-advogado da Odebrecht Rodrigo Taclan Durán, que acusa advogados amigos de Sergio Moro de pedirem dinheiro em troca de benefícios na operação de Curitiba, como a redução da pena, foi finalmente "descoberto" pela imprensa


Senado | ABr

 Tacla Duran foi "descoberto" pela mídia conservadora. Ignorado por quase dois anos e investigado, o ex-advogado da Odebrecht Rodrigo Taclan Durán, que acusa advogados amigos de Sergio Moro de pedirem dinheiro em troca de benefícios (leia no Brasil 247 reportagem de agosto de 2017), como a redução da pena, chegou finalmente à imprensa corporativa. Citado nas mensagens trocadas entre Moro e integrantes da Lava Jato, divulgadas pelo site The Intercept Brasil, Tacla Durán disse em entrevista ao correspondente Jamil Chade, no UOL que na época “pagou para não ser preso”. 
Nas mensagens, Moro pergunta se não havia “muito tempo sem operação”, e o procurador Deltan Dallagnol diz: É sim. O problema é que as operações estão com as mesmas pessoas que estão com a denúncia do Lula. Decidimos postergar tudo até sair essa denúncia, menos a op do taccla [Tacla Durán] pelo risco de evasão, mas ela depende de articulação com os americanos (Que está sendo feita)".
Confira o Bom Dia 247 desta terça-feira 18
Diante da citação, o ex-advogado da empreiteira confirmou que foi vítima de um suposto pedido de extorsão de US$ 5 milhões quando seu nome surgiu nas investigações. Segundo ele, uma parcela de US$ 612 mil foi paga  ao advogado Marlus Arns, que já tinha trabalhado com a mulher de Moro, sendo outro sócio o advogado Carlos Zucolotto Junior, que também foi sócio da mulher de Moro. Durán diz que se recusu apagar o restante do acerto e, por isso, quando chegou à Espanha, em novembro de 2016, ficou preso por 70 dias. Para força-tarefa da Lava Jato, Durán é considerado fugitivo da Justiça, mas a Interpol retirou o alerta contra ele e atualmente o advogado vive em liberdade na Espanha. 
As acusações de Durán também estão relatadas em um documento enviado ao Ministério Público da Suíça pelos advogados de Tacla Duran. Segundo a defesa, ele foi vítima de extorsão para que não fosse preso ou envolvido nas delações premiadas de outros envolvidos. 
"Tacla foi extorquido e ameaçado [...] e temor por sua vida o levou a pagar uma parte da extorsão. O advogado Marlus Arns, que recebeu o pagamento -dinheiro que é apontado como uma das justificativas para o bloqueio das autoridades suíças-- já tinha trabalhado com a mulher do [ex] juiz Sergio Moro, sendo outro sócio o advogado Carlos Zucolotto Junior, que também foi sócio da mulher de Moro, e que hoje trabalha com lobista profissional", afirmam os advogados de Durán, segundo reportagem do UOL. 

Fim do terror ou terror sem fim?


O jornalista Ricardo Cappelli anota que o ex-juiz Moro, que antes dava apoio a Bolsonaro, virou refém do bolsonarismo após as reportagens do site Intercpet.
Ao discorrer sobre o fim da lava jato e a recessão econômica, bem como da degradação de setores da forças armadas, Cappelli afirma que a luta permanece sendo entre civilização e barbárie, política e obscurantismo. “É sempre melhor construir o fim do terror do que arriscar viver num terror sem fim.”
Fim do terror ou terror sem fim?
Ricardo Cappelli*
A conjuntura parece estar evoluindo rapidamente para um impasse. A velocidade dos fatos impressiona.
Bolsonaro resolveu enquadrar as Forças Armadas demitindo dois generais. Juarez Aparecido de Paula, presidente dos Correios, cometeu o “pecado” de tirar fotos com parlamentares da esquerda.
Santos Cruz, desafeto de Olavo de Carvalho, foi o segundo. O general moderado virou o principal interlocutor com o Congresso.
Carlos Bolsonaro queria sua cabeça. Depois de Villas Bôas comprar a briga de Santos Cruz, foi preciso ganhar tempo. O “mergulho público” de Olavo foi planejado. A vitória do “Astrólogo da Virgínia” humilha o exército.
Guedes partiu para cima do Congresso afirmando que os deputados haviam abortado a “Nova Previdência”.
Na sequência, Bolsonaro demite de forma grosseira Joaquim Levy. O ex-ministro de Dilma se recusou a transformar o BNDES no DOI-CODI das gestões anteriores. Não basta desmontar o banco, é preciso desmoralizá-lo.
Em Santa Maria, numa solenidade militar, o presidente defende armar a população. Diz ainda “que precisa mais do povo ao seu lado que do Parlamento”.
É nítida a opção do Capitão pela guerra permanente, sem mediações.
Moro segue seu calvário. Seu isolamento é crescente. As denúncias do Intercept inverteram o jogo. O ex-juiz, que antes dava apoio a Bolsonaro, virou refém do bolsonarismo.
Por fim, a peça silenciosa mais importante. O mercado reduz pela 16º semana consecutiva sua projeção para o PIB: apenas +0.93%.
Neste cenário, faz sentido a radicalização e a “busca racional” pelo isolamento?
Causa inquietação a forma como os militares se imiscuem crescentemente na vida política nacional. Agora temos um general da ativa na Secretaria de Governo. Os telefonemas do general Villas Bôas para o STF são freqüentes, dizem fontes ligadas ao tribunal.
O soco na mesa do general Heleno demonstra o desconforto dos militares com a crise. A prisão de Lula é cada vez mais insustentável. A caserna faz circular que não aceita a liberdade do ex-presidente. O que isso significa?
Qual será a conseqüência da desmoralização da Lava a Jato somada à depressão econômica?
Onde querem ir Bolsonaro, Guedes e os generais com a escalada de ataques? De quem será a culpa pelo fracasso? Da política? Da democracia?
O mais provável é que Bolsonaro ignore as graves revelações do Intercept. Se ceder, perderá apoio no seu núcleo ideológico sem ganhar nada em troca. Não faz sentido.
Será a senha para que o submundo do Estado Policial passe a atuar nas sombras sem nenhum limite. Sob a fachada de uma democracia liberal, podemos ter um Estado de Terror, com os fins justificando abertamente quaisquer meios para liquidar “os inimigos da nação”.
O impasse parece ser a opção consciente do Capitão. Fraturar ainda mais a sociedade é um projeto. Parte da oposição parece fazer a mesma aposta, sonhando com uma fantástica e improvável guinada à esquerda.
Evitar o pior exigirá a convergência dos democratas, de diferentes matizes. A luta permanece sendo entre civilização e barbárie, política e obscurantismo. É sempre melhor construir o fim do terror do que arriscar viver num terror sem fim.
*Ricardo Cappelli é jornalista e secretário de estado do Maranhão, cujo governo representa em Brasília. Foi presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes) na gestão 1997-1999.

6.17.2019

Excludente de ilicitude

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Marido de Greenwald, deputado David Miranda relata ameaças de morte à PF

Casado com o jornalista Glenn Greeenwald, fundador do site The Intercept Brasil, o deputado federal David Miranda (PSOL-RJ) encaminhou à Polícia Federal denúncias sobre ameaças de morte, as quais diz estar recebendo após a divulgação de mensagens entre o ministro da Justiça, Sergio Moro, e o procurador Deltan Dallagnol, da Lava Jato.
Segundo as mensagens, Moro sugeriu ao Ministério Público Federal trocar a ordem de fases da Lava Jato, cobrou a realização de novas operações, deu conselhos e pistas, antecipou ao menos uma decisão judicial e cobrou dos procuradores uma ação contra o que chamou de ‘showzinho’ da defesa de Lula.
Segundo a legislação, é papel do juiz se manter imparcial diante da acusação e da defesa. Moro deve ir nesta quarta-feira ao Senado falar sobre as conversas com Deltan.
pacote de diálogos que veio à tona inclui mensagens privadas e de grupos da força-tarefa no aplicativo Telegram de 2015 a 2018. As mensagens, segundo o site, foram entregues à reportagem por fonte anônima.
  1. Mensagens reveladas pelo site The Intercept Brasil indicam troca de colaboração entre Moro, então juiz, e Deltan, procurador e coordenador da força-tarefa da Lava Jato.
  2. Segundo a lei, o juiz não pode auxiliar ou aconselhar nenhuma das partes do processo
  3. Vazamento pode levar à anulação de condenações proferidas por Moro, caso haja entendimento que ele era suspeito (comprometido com uma das partes). Isso inclui o julgamento do ex-presidente Lula
O deputado David Miranda (PSOL-RJ) - Ricardo Borges/Folhapress
Desde a primeira publicação das mensagens, no domingo (9), o deputado David diz que passou a receber ameaças de morte. Encaminhadas à Polícia Federal na terça-feira (11), os ataques, diz, também têm como alvo os filhos adotivos do casal e a mãe do deputado.
"Iremos pegar as crianças depois da escola através de um uber, vamos torturá-las aí no jacarezinho! Depois de estuprá-las com nossos consolos, finalizando com esquartejamento dos corpos, iremos espalhar os pedaços das bichas-mirins por toda a ‘comunidade’”, diz um dos trechos da mensagem.
No dia 19 de março, David já havia feito uma denúncia-crime sobre ameaças recebidas após assumir a vaga de deputado federal em substituição a Jean Wyllys. O antecessor, eleito em 2018, afirmou em entrevista à Folhaque desistiu do posto por temer as constantes ameaças que recebia.
Na denúncia encaminhada à polícia, a assessoria jurídica do deputado afirma que, “embora a mensagem seja assinada com o nome de Marcelo Valle, o qual se encontra atualmente preso em decorrência da Operação Bravata, mostra-se possível que tenha sido confeccionada por outros criminosos que atuam no âmbito do fórum denominado 'http://www.dogolachan.org', hospedado na internet/deep web".
A deep web é uma parte da web não indexada e acessível apenas por softwares específicos.
Veja as possíveis consequências do vazamento de mensagens entre Moro e Deltan
Veja as possíveis consequências do vazamento de mensagens entre Moro e Deltan
Para advogados e professores, a maneira como inicialmente o atual ministro da Justiça e o procurador reagiram à divulgação das conversas, sem contestar o teor das afirmações e defendendo o comportamento adotado na época, aponta que o conteúdo é fidedigno e que ele pode servir de base para reverter decisões da Lava Jato, por exemplo, contra o ex-presidente Lula.
Por esse raciocínio, o fato de o material ter sido provavelmente obtido por meio de um crime faz com que ele não tenha como ser utilizado para acusar um suspeito, mas possa servir para absolver um acusado.
Em um segundo momento, tanto Moro como Deltan passaram não apenas a atacar o crime do vazamento como também colocar em dúvida a integralidade das mensagens divulgadas, ao não afastar a possibilidade de distorções. ​
Segundo a legislação, é papel do juiz se manter imparcial diante da acusação e da defesa. Juízes que estão de alguma forma comprometidos com uma das partes devem se considerar suspeitos e, portanto, impedidos de julgar a ação. Quando isso acontece, o caso é enviado para outro magistrado.
As conversas entre Moro e a Lava Jato também provocaram reação no STF. Na semana que vem, dia 25 (terça-feira), um pedido dos advogados de Lula pela anulação do processo do tríplex em Guarujá (SP), que levou o petista à prisão em abril do ano passado, será analisado pela Segundo Turma da corte.
O caso foi desengavetado pelo ministro Gilmar Mendes após a divulgação das mensagens. A solicitação da defesa foi feita sob o argumento de suspeitas na isenção de Moro após ele ter se tornado ministro do governo Jair Bolsonaro. Esse pedido no STF foi reforçado por petição segundo a qual as conversas de Moro e Deltan revelam "completo rompimento da imparcialidade" do então juiz da Lava Jato.
Nas conversas privadas divulgadas pelo site, membros da força-tarefa fazem referências a casos como o processo que culminou com a condenação de Lula por causa do tríplex de Guarujá (SP), no qual o petista é acusado de receber R$ 3,7 milhões de propina da empreiteira OAS em decorrência de contratos da empresa com a Petrobras.
O valor, apontou a acusação, se referia à cessão pela OAS do apartamento tríplex ao ex-presidente, a reformas feitas pela construtora nesse imóvel e ao transporte e armazenamento de seu acervo presidencial. Ele foi condenado pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro.
Preso em decorrência da sentença de Moro, Lula foi impedido de concorrer à Presidência na eleição do ano passado. A sentença de Moro foi confirmada em segunda instância pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região e depois chancelada também pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça).
Sergio Moro, da Lava Jato ao Ministério da Justiça
Sergio Moro, da Lava Jato ao Ministério da Justiça