2.25.2018

Não aguento mais a conversa de que a esquerda precisa fazer autocrítica pelo golpe da direita.

Por
Marcos Nunes
Eu simplesmente não aguento também mais essa conversa segundo a qual urge à esquerda fazer autocrítica acerca de seus descaminhos, como se ela tivesse sido A responsável pelo Golpe de Estado.
Cazzo, não foi! Por mais que tenha se associado aos canalhas de sempre; por mais que tenha se acanalhado no processo; por mais hesitações, tibiezas e enganos quanto aos rumos para o país, a esquerda, e nesse caso específico, na verdade, não a esquerda, mas o Partido dos Trabalhadores, cuja classificação enquanto esquerda, de fato, é bastante discutível, por fim, por mais “autocrítica” que o PT faça, e que os partidos aliados ao PT de corte mais à esquerda façam, o Golpe de Estado é se inteira responsabilidade daqueles que, cientes da impossibilidade de vencer eleições, conseguiram compor, depois de mais uma década, uma frente Legislativa capaz de depor uma presidente eleita, contando para isso com todo apoio do Judiciário, da Mídia, e de uma classe média ressentida, que sempre se julgou como integrante da classe alta, mas que, a partir dos governos do PT, viu avançarem, cursos universitários à frente, as classes mais baixas, os negros, os mestiços, os despossuídos, humilhados e ofendidos de toda ordem.
Autocrítica, sim, mas vamos à História:
Tenho 56 anos; passei por todos os desgovernos militares, depois por Collor, Sarney, Itamar, Fernando Henrique, Lula e Dilma.
Jamais vivi período de melhores expectativas políticas, econômicas, existenciais, do que a partir do primeiro governo Lula. Antes, as perspectivas se limitavam dentro da conhecida metáfora dos voos de galinha: Plano Cruzado, agora vai; Plano Real, agora vai. E nunca ia. Porque nunca se forjou plano algum para se ir a algum lugar senão se manter a submissão voluntária às forças econômicas colonizadoras, imperialistas, dominantes. Jamais.
O Plano Real foi o último engodo, e desde então mantenho meu único parecer sobre ele: criado não só para eliminar a inflação (o que fez pautado nos arrochos se sempre: fiscal – com brutal aumento de impostos; monetário – com supressão de créditos no mercado, e salarial – com o achatamento salarial, a partir do salário mínimo.
Em paralelo, o entreguismo de quase sempre (à exceção da época de Vargas, um tanto da época de Juscelino, e, pasmem, dos próprios desgovernos impostos pelo Golpe de 64 à frente), com privatizações e redução do estado à custa da ausência da prestação dos serviços públicos essenciais, constitucionalmente postos e, claro, à revelia dos mesmos direitos do cidadão insertos na mesma Carta Magna de 88, escrita quanto, às classes dominantes, pôs-se um Congresso composto com quadros capazes de redigir a lei fundamental sem privilegiar excessivamente os velhos donos do poder, testas-de-ferro do poder econômico imperialista mundial.
Mais uma vez com a mídia trabalhando a favor de seus próprios interesses, irmanados com os integrantes das classes dominantes, Fernando Henrique se reelegeu em primeiro turno e, medida óbvia, acabou com a fantasia de dólar paritário (que, aliás, era uma ponta-de-lança para quebrar a indústria nacional através da importação indiscriminada, favorecida pela cotação ireeal), enriquecendo assim os amigos mais próximos, e colocando sobre os ombros dos cidadãos o peso esmagador da dívida pública.
E o país, por três vezes, recorreu ao Fundo Monetário Internacional, com o que parou de gerir sua própria política econômica, legando a Lula uma Terra Arrasada, aos risos, pois julgavam que ninguém seria capaz de desmontar as armadilhas que eles deixaram, incapacitando a gestão pública, deixando o país sujeito aos piores desmandos do capitalismo financeiro internacional, e seus sabujos em território brasileiro.
Eleito Lula, sabíamos que ele poderia cumprir com, no máximo, uns 30% do que prometera em campanha. O Congresso, como sempre, composto com maioria de forças reacionárias, representava um entrave direto. E o Judiciário, como sempre, estava lá para garantir os velhos privilégios de classe, à revelia da nação, cuja razão é seu povo.
Lula veio no registro “Paz e Amor”. Conciliatório, dava uma no prego, outro na ferradura. Não fugiu ao fisiologismo, pois isso inviabilizaria por completo qualquer ação de governo. Sim, comprou deputados e senadores, comprou juízes. Afinal, é assim que se governa em todos os países do mundo, desde que se firmou essa balela de Democracia Representativa: governos de coalizão compostos a partir de favorecimentos, alguns menos, alguns mais ilícios, uns poucos lícitos.
Porém, e principalmente, o governo Lula, paulatinamente, foi desmontando o tripé que garantia a imobilidade e servilismo do país: os arrochos monetário, fiscal e salarial.
Aqui repito meu velho exemplo pessoal: ao fim do governo Fernando Henrique, rumando à falência, planejamos (eu e meus sócios) uma fuga para a frente, isto é, comprar, através de financiamento (pois não possuíamos capital para tanto) uma máquina industrial que nos permitiria avançar para mais segmentos de mercado. Obviamente, não conseguimos o financiamento, pois esse não existia. Vários bancos, entre estatais e privados, só o fariam fundados em garantias que representavam cerca de quatro vezes o valor da própria máquina. Não tínhamos nada para oferecer, e fomos nos aguentando.
Após a eleição de Lula, nada fizemos, mas fomos surpreendidos com a visita de um gerente de investimentos do Banco do Brasil, a nos oferecer o financiamento, sem nenhuma garantia além da própria máquina, para sua compra. Disse-nos candidamente o porque da mudança de critérios: “A política mudou”.
Pois bem, vejam esse caso multiplicado com dezenas, centenas de milhares de vezes. Isso significou: empresas investindo (inclusive em novas tecnologias), empregando, depois vendendo, para em seguida investir mais, contratar mais, vender mais, uma vez que, com o aumento do índice de emprego, aumentou a massa salarial, e mais gente passou a consumir, além do que os reajustes salariais acima da inflação foram recuperando paulatinamente o poder de compra do trabalhador. Chegamos, assim, ao círculo virtuoso do desenvolvimento, sempre negado pelas velhas estruturas de poder, desinteressadas no desenvolvimento do país e de por fim à miserabilidade de seu povo.
Em paralelo a isso, não privatizações, mas construção de escolas técnicas e universidades, aumento de fundos para educação básica e de segundo grau através do FUNDEB. Os programas de Luz, Habitação Popular, Mais Médicos… e tudo o que seria de conhecimento público e notório, se notória não fosse (apesar de não tão pública assim, pelas razões que se seguirão) a condição da mídia enquanto oposição (apesar do que um dia disse José Dirceu, da Globo ser “o nosso canal de comunicação” – e como deve estar arrependido por tê-lo dito!) a qualquer governo à feição de esquerda, a começar pelo federal, de maneira a sonegar toda e qualquer informação que pudesse produzir conhecimento do quanto mudou o país, e do quanto se poderia fazer caso os representantes das velhas classes dominantes fossem postos em seu devido lugar – no lixo da história.
Isso atiçou, também, a fúria dos velhos privilegiados e seus sabujos, insatisfeitos em ter que partilhar de seu mundo com os pobres em aeroportos, hotéis (ficou célebre o muxoxo e uma nulidade social que afirmou não ter mais graça ir à Paris, por risco de lá encontrar o porteiro de seu prédio…), restaurantes, universidades públicas (e também privadas, graças ao FIES), e ver essa camada de cidadãos avançar, concorrer com eles em concursos públicos e na própria iniciativa privada.
O Golpe começou, como todos sabem, na verdade, lá atrás, com o chamado “escândalo do mensalão”, o “maior da república em todos os tempos”, na verdade o velho toma-lá-dá-cá da política mundial. Isso constrangeu o primeiro governo Lula a avançar menos do que ele poderia, sempre sujeito à mídia e ao Judiciário. Mas, ainda assim, avançamos, criando musculatura também para as velhas raposas da política brasileira, fundadas nos abusos de empresas públicas, cargos políticos, ministérios à porteira fechada…
Não se cogitou muito, na época, falar da Petrobras, por uma razão simples: levantar esse bueiro revelaria todo o mau-cheiro oriundo de um passado bem próximo, a se estender até à fundação mesmo da empresa.
O ambiente de negócios, vale dizer mais uma vez, não abre mão dos processos de corrupção. Eles são inerentes ao capitalismo, são apenas o lubrificante das relações de dinheiro e poderes, porque não dizer, das relações sociais. Desde a cervejinha do guarda até a polpuda comissão do senador, passando pelas generosas contribuições ao Judiciário, favores especiais a executivos em funções importantes (também comissionamentos, mas ainda fornecimento de favores de todo gênero, desde a compra de um belo apartamento em um balneário, a favores sexuais prestados por profissionais do ramo). Assim são as coisas no universo do empreendimento, do empresariado. Quem não sabe está muito mal informado, e quem sabe mas finge que não é hipócrita, e sabe que pode lucrar mais com a corrupção denunciando, justamente, a corrupção alheia.
Foi isso que passou a fazer a mídia, associada aos velhos interesses, para minar paulatinamente o governo, e permitir seu suave desembarque ao poder do Estado, com a principal finalidade de auferir mais e mais comissionamentos indevidos, as propinas, e enfraquecer em definitivo o aparelho estatal, pondo-o em definitivo à sujeição dos ditames do chamado “mercado”, isto é, as grandes corporações financeiras, industriais e do agronegócio.
Infelizmente, para eles, escândalos e mais escândalos criados para minar a popularidade dos governos capitaneados pelo Partido dos Trabalhadores, resultaram em tiros n’água. Lula se reelegeu, depois Dilma foi eleita e também reeleita, e após a reeleição de Dilma Aécio prometeu, junto com seus comparsas políticos, sabotar o executivo no campo Legislativo, até impossibilitar o seguimento das ações do governo, pondo-o a serviço de seus interesses.
Fizeram mais: com o auxílio nada luxuoso do velho PMDB, há muito associado aos governos do PT por mero fisiologismo, vislumbraram a possibilidade de um golpe institucional, com amplo apoio da mídia e do Judiciário, para, enfim, como disse um célebre senador canalha, “estancar a sangria”.
Com um falso pretexto, apenas porque tinham os votos necessários, e o dinheiro para compra-los, é claro, avançaram no processo de deposição da presidente, contando também com os manifestoches de camisa da CBF só para dar um verniz de “apoio popular” ao que fariam com ou sem apoio popular, à maneira que fazem hoje, com um governo sem qualquer legitimidade, contrariando parecer do próprio usurpador que, diante dos baixos índices de popularidade de Dilma, dizia ser impossível assim governar.
Está provado o contrário: para governar em uma democracia sem povo, basta chegar ao poder, e nele se encastelar à revelia da nação, fixado apenas nos interesses externos sobre o país, e na sabujice da classe dominante local, ampliada por uma classe média que acha fazer parte do mesmo grupo, embora esteja, agora, a pastar tanto quanto os demais brasileiros.
Diante do que, qual autocrítica a fazer? Não ter rompido com a cadeia do fisiologismo parlamentar? Vamos lá, provem como é possível viabilizar isso. Construir um partido de massas sem financiamento de empresas que, obviamente, quererão contrapartidas? Provem como é possível viabilizar isso. Fazer um cabo de guerra com os interesses do capitalismo financeiro internacional e vencê-lo contando com a sustentação de um povo constituído enquanto nação? Ah, não me façam rir de nervoso!
Estamos, agora, sim, diante da realidade da luta de classes, e com poucas (ou nenhuma) chances de vencê-la. No seio da democracia isso não dará: mesmo que haja uma vitória de um candidato mais à esquerda nas próximas eleições, seguirão os mesmos constrangimentos à sua ação pelas matrizes acima já citadas (Legislativo, Judiciário e Mídia manietados aos interesses econômicos internacionais). E não adianta dizer que a esquerda “não soube construir a consciência de classe entre os menos favorecidos”, como se isso fosse possível em um ambiente de poder em que não há espaço para o contraditório, como é provado sistematicamente pela mídia nativa, em que fatos que não lhes interessam simplesmente não são divulgados e, quando são, há todo um trabalho de desconstrução que prescinde de qualquer debate.
Além disso, o Judiciário também conspira contra os fatos, impondo decisões absurdas, colocando na cadeia ladrões de galinha e deixando à vontade o trânsito de helicópteros cheios repletos de cocaína, apartamentos com sacos contendo dezenas de milhões de reais, contas milionárias na Suíça que, no dizer de um mau caráter togado curitibano, “pelo menos não estão no Brasil comprando eleições” (o que escancara a finalidade das ações judiciais presentes: de um lado, aprisionar lideranças políticas; de outro, fechar a torneira dos financiamentos de campanhas para o espectro político da esquerda – nisso, recente parecer do TSE corrobora, dizendo que ricos podem gastar à vontade em suas campanhas, os demais, terão que fazê-lo sob limites e vigilância estrita do juiz eleitoral).
O Brasil joga um jogo de cartas marcadas, viciadas, e nas mãos exclusivas, há séculos, de uma classe dominante desinteressada pelos destinos do país, centrada em sua própria condição de classe e poder, ciente de que, na hipótese remota de um desastre qualquer (revolução popular? Ah ah ah, faz-0me rir!), poderá seguir rumo à Miami, o paraíso dos endinheirados brasileiros de baixo extrato cultural (isto é, 99% deles, como exemplifica Eike Batista, cujo destino está ligado à delação de Lula, mas cuja prisão veio para demonstrar que, no rol dos novos-ricos brasileiros, ele representa uma figura non grata, por ter se misturado excessivamente –  na verdade muito pouco o fez, pois nutre preconceitos de classe e raça, como todos os golpistas – com a canalha).
Então, queridos requerentes de autocrítica, digam como roubar dos ladrões suas cartas roubadas. De resto, não me encham mais o saco!

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