Sob chuva intensa, cantora exibe espetáculo impecável diante de sua proposta: entreter e emocionar
O trânsito caótico (mais do que o habitual) em diversos pontos da cidade e a chuva iminente surgiram como um prenúncio: um acontecimento apocalíptico se aproximava. Mais exatamente no Parque dos Atletas, talvez o espaço mais incrível e mal localizado para realizações de shows no Rio de Janeiro, o apocalipse, na verdade, se traduziu em nascimento. A gênese de uma nova personagem diante de um público embevecido com a sintonia da estrela-monstra que se apresentava diante de seus olhos: era noite de Lady Gaga.Sobre um séquito guiado por uma negra cavalaria, ela surgiu, às 22h20, para dar início a seu show, ao som de 'Highway Unicorn'. Da plateia, via-se, coincidentemente, um balão inflável azul, com o formato de um pequeno unicórnio que, assim como os pequenos monstros seguidores de Gaga, ali estava para dar início ao ritual, ao encontro, à fusão de emoções.
"Brasil, você é o futuro", disparou, na veia, Lady Gaga, antes de incendiar a plateia já encharcada, ao som de 'Born this way', o hino da legitimidade humana da diva do pop pós-moderno. Dali em diante, estava assinada a certidão de nascimento da grande monstra, assim como a de seus rebentos, livres para seguir à frente na antológica noite.
Engrena-se então, um verdadeiro musical, com adaptações livremente artísitcas, como um Jesus negro, metalinguisticamente retirado de 'Black Jesus', com a também ecumênica 'Bloody Mary' vindo logo depois. Verdadeiros cânticos profanos de uma deusa milimetricamente construída.

Em diante, 'Judas', 'Fashion of His Love', 'Just Dance', 'Love Game' e 'Telephone' foram executadas em uma bateria frenética que ressaltou a capacidade sobrenatural de Lady Gaga em criar hits eficientes, se manter como máquina competente da indústria do pop envolta pelo discurso do marketing explícito e emocional.

O encontro de uma mãe com seus filhos, quando estes estão distantes daquela, sempre é algo que emociona. E Lady Gaga, diante de seu trono marketeiro cravejado de brilhantes, sabe que este viés é útil tanto à personagem mother-monster quanto a ela, Stefani Germanotta, uma garota sensível de Nova York. E aí, neste encontro entre personagem e Stefani, é que se dá o pulo da gata: Lady Gaga convoca três monstrinhos para se sentarem a seu lado, em sua moto-teclado, para juntos cantarem 'Hair', um hino à diversidade, à autoaceitação, ao combate ao bullying. Instante em que seus filhos desabam em lágrimas, levando sua mãe à mesma reação. Choram os fãs. Chora Gaga. Sorri o público. Uma matemática perfeita para o clímax, não?
"Não tinha noção do amor que me esperava aqui. Nunca fui tão feliz quanto nesse momento. Não dizem que os sonhos se realizam? Essa é a cara de alegria por um sonho realizado. Não há preço para esse amor de vocês": palavras de Gaga, entre o protocolo, a surpresa e a gratidão, sempre presente em cada palavra que cita ao se referir a seus fãs, que, segundo a mesma, são responsáveis por permitirem a ela ser a grande estrela que sempre sonhou ser.

Com 'Americano', 'Poker Face', 'Alejandro', 'Paparazzi' e 'Scheibe' ela retoma o ritmo acelerado, rumo à reta final de sua apresentação, marcada por uma (a única, até então) ressalva, diante de uma performance irrepreensível, tanto estética quanto musicalmente: entre a conversa e a melodia, muitos comentavam que Gaga, até então, 'estava mais falando do que cantando'. Veio, então, o bis...
Com 'The edge of glory', a estrela da noite pôde provar que sua voz (viva e presente em todas as músicas, justiça seja feita) vai muito bem, obrigado. Uma prévia para o final apoteótico, já distante daquele nascimento comentado no início do texto.

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