
E por isso mesmo, para espanto de observadores externos, a elite política não fará do julgamento a oportunidade imperdível de restaurar a normalidade democrática. Elementos não faltam ao processo para uma condenação. O que falta a nossos dirigentes é o apetite democrático, a disposição para enfrentar o solavanco que haveria com a cassação de Temer, seguido porém da única solução verdadeira e sustentável para a crise, a eleição direta de um presidente que, seja quem for, imbuído de legitimidade, porá fim às incertezas e poderá, talvez, pacificar o país. A sociedade civil é que poderia forçar a elite a abreviar a tragédia, com um movimento vigoroso combinando o Fora Temer e o Diretas já. A resistência tem se ampliado mas está longe ainda da força necessária para a imposição de uma ruptura do golpe consigo mesmo.
Temer, nos últimos dias, falou mais de uma vez em pacificação. Reconheceu que não conseguiu promovê-la, embora tenha dito, ao romper com Dilma, que alguém teria que pacificar o pais. Alguém, um dia, haverá mesmo de fazer isso, mas com certeza não será alguém sem voto e guindado por um golpe.
O que lhes sobra, às elites que já discutem uma solução para preservar o mandato de Temer, é o vezo autoritário, o apreço pelas soluções sem povo e o conforto de ter na presidência um presidente servil, que se gaba até mesmo da própria impopularidade, que não tem limites no seu descompromisso com o social e com o interesse nacional. Para quê tirá-lo, se ele ainda pode ser tão útil?
Para mostrar-se útil, Temer corre com as reformas previdenciária e trabalhista, distribuindo favores bilionários e atropelando os ritos legislativos com seu trator que esmaga a minoria. Quanto mais útil ele se mostrar nas próximas semanas, maiores as chances de ser poupado pelo TSE. Poupado até mesmo de ser julgado no curto prazo, pois quando o julgamento for retomado, haverá no tribunal dois novos ministros por ele nomeados, dispostos a pedir vistas para que tudo pare novamente. E enquanto isso, segue o golpe no sentido mais largo. Para além de Temer, a coligação mídia-Lava Jato-Judiciário manterá firme o foco na destruição de tudo que ameace a nova ordem conservadora.
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