Avança prescrição de cirurgia bariátrica no tratamento de diabete e hipertensão
Conselho Federal de Medicina votará resolução que torna mais fácil a redução de estômago no caso de pessoas com diabete tipo 2
Lígia Formenti e Paula
Felix,
O Estado de S.Paulo
BRASÍLIA E SÃO PAULO - A recomendação de uso de cirurgia bariátrica,
antes restrita, vem avançando no País e pode agora favorecer diabéticos e
hipertensos. O Conselho Federal de Medicina (CFM) vota até o próximo
mês resolução que torna mais fácil a redução de estômago no caso de
pessoas com diabete tipo 2. Já um estudo do Hospital do Coração (HCor),
de São Paulo, liga o procedimento à eficácia no controle da pressão de
obesos.
‘Nasci de novo’. Miriam afirma ter convivido 15 anos com diabete, antes de fazer a redução
Foto: Amanda Perobelli/Estadão
Romário faz cirurgia bariátrica fora do padrão e causa polêmica O texto que deve
receber aval do CFM prevê que pacientes com diabete possam fazer a
cirurgia com um Índice de Massa Corporal (IMC) entre 30 e 34 quilos por
metro ao quadrado. Atualmente, o IMC mínimo exigido para permitir o
procedimento é de 35. A mudança atende a padrões já adotados nos Estados
Unidos e em vários países da Europa e tem como principal objetivo não a
redução do peso, mas o controle da diabete.
Falta de cirurgia bariátrica mata até 45 mil no País por ano, afirma estudo Justamente por isso, médicos se referem agora à cirurgia não como
bariátrica, mas metabólica. “A experiência tem mostrado que pacientes
com diabete tipo 2 submetidos à cirurgia têm uma queda na glicemia antes
mesmo da perda de peso”, explicou o presidente em exercício do CFM,
Mauro Luiz Britto Ribeiro. O médico afirma não ser possível falar em
cura, mas em controle. “Os estudos acompanham pacientes que fizeram a
cirurgia há menos de dez anos. Podemos falar, por enquanto, nos efeitos a
médio prazo”, explicou.
Nova técnica de redução de estômago por endoscopia é testada no Brasil
Experimental
Hoje, a técnica já é feita no País, mas em caráter experimental. Com a
aprovação da resolução, a cirurgia poderá ser feita desde que haja a
recomendação de dois médicos endocrinologistas. Há ainda outras
exigências: o paciente tem de ter entre 30 e 70 anos, apresentar diabete
há dez anos e não ter obtido sucesso com nenhum tratamento clínico.
“Esse é um procedimento de risco, de alta complexidade”, observou
Ribeiro. Além disso, o paciente não pode ser dependente de drogas,
abusar de bebidas alcoólicas ou apresentar depressão grave. Também é
contraindicada a técnica caso se constatem problemas cardiovasculares no
paciente.
Presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e
Metabólica (SBCBM), Caetano Marchesini explica que o procedimento não é
novo, mas foi necessário aguardar que a literatura médica se tornasse
mais robusta para que ele pudesse passar a ser indicado.
Cid Pitombo, pesquisador e coordenador do programa estadual de
cirurgia bariátrica do Hospital Estadual Carlos Chagas, no Rio, observa
apenas que o procedimento não pode ser banalizado. “Meu ponto de vista
crítico é se esse parecer pode fazer com que as pessoas comecem a buscar
profissionais sem muito conhecimento e treinamento.” O texto do CFM
prevê regras claras para o hospital onde a cirurgia deverá ser
realizada. O estabelecimento precisa ser de grande porte, ter equipe de
plantonistas por 24 horas, além de UTI. O parecer ainda cita
especificamente duas técnicas para serem usadas na cirurgia metabólica.
O presidente em exercício do conselho acredita que eventual
liberação poderá beneficiar parcela significativa de pacientes. Pesquisa
feita pelo Ministério da Saúde mostra que 18,6% da população brasileira
é obesa e 53,8% tem excesso de peso. Nesta terça-feira, 14, Dia Mundial
do Diabete, o ministério reforçou o alerta sobre o crescimento da
doença no País, com avanço de 61,8% no diagnóstico, entre 2006 e 2016.
Na pesquisa Vigitel, por telefone, o número de entrevistados que relatou
a doença passou de 5,5% para 8,9%.
Hipertensão
A cirurgia bariátrica também está sendo apontada como eficaz para o
tratamento de pacientes com hipertensão sem resposta com o tratamento
medicamentoso. Hoje, um em cada quatro brasileiros é hipertenso,
conforme dados da pesquisa Vigitel.
Um estudo inédito do Hospital do Coração (HCor) avaliou 100
pacientes com a doença. Uma parte fez a cirurgia e a outra recebeu
medicamentos e orientação. Os pesquisadores constataram que, no período
de um ano, 83,7% dos pacientes que fizeram a redução de estômago
diminuíram o número de medicações e conseguiram manter a pressão
controlada. Entre os demais pacientes, o porcentual foi de 12,8. E 51%
dos pacientes que fizeram o procedimento cirúrgico não precisaram mais
utilizar medicações.
O estudo, chamado Gateway, foi publicado nesta terça-feira na revista Circulation,
uma das mais importantes da área de cardiologia, e apresentado no
Congresso da American Heart Association, na Califórnia (EUA). “As
características básicas dos pacientes eram ter entre 18 e 65 anos, IMC
de 30 a 39,9 kg/m² e hipertensão de tratamento não simples. Eram pessoas
que tomavam ao menos duas medicações em doses máximas ou mais de duas
em doses moderadas”, disse Carlos Schiavon, cirurgião bariátrico e
principal investigador do estudo no Instituto de Pesquisa do Hcor.
Schiavon relata que o primeiro paciente foi operado em 2013 e o
último, em 2016. “Nosso objetivo primário era reduzir em 30% o número de
medicações que o paciente tomava, mantendo a pressão controlada, que é
abaixo de 140 por 90 mm de mercúrio ou 14,9, como as pessoas dizem. Mas o
mais importante é o potencial de diminuir os eventos ligados à
hipertensão, como AVC e enfarte.”
O cirurgião pondera que os dados ainda são em curto prazo e o
procedimento, se for adotado no futuro como opção de tratamento, não
deve ser indicado a todos os pacientes com a doença. Segundo Otávio
Berwanger, diretor do Instituto de Pesquisa do HCor, o procedimento pode
auxiliar quem não consegue aderir a tratamentos. “Nos Estados Unidos,
só metade dos pacientes toma a medicação e, no Brasil, a adesão é ainda
menor.”
Berwanger ressalta que a eficácia do procedimento está ligada a
múltiplos mecanismos desencadeados pela cirurgia. “A perda de peso já
contribui, mas há efeitos anti-inflamatórios e é muito possível que
tenha efeitos em hormônios de produção no intestino.”
Reconhecimento
O diretor destaca também a importância da publicação internacional
desse estudo. “No Brasil, estamos acostumados a importar conhecimento e a
repetir o conhecimento gerado fora. Agora, a gente mostra que, tendo a
metodologia, se pode fazer uma pesquisa tão boa quanto a americana e a
europeia.”
‘Em uma semana estava com a doença controlada’
A dona de casa Miriam Luiz Dias, de 60 anos, fez a bariátrica em
2015, após conviver com a diabete por 15 anos. "Sentia dores nas pernas,
fome, a visão estava sempre turva e eu não andava 100 metros sem parar
com dor. Parecia que eu usava sapatos de ferro. Tirava os doces, comia
de forma mais regrada e, mesmo com a insulina, era totalmente
descontrolada."
A situação mudou após o procedimento. "Eu saí do hospital em um
domingo e, uma semana depois, estava com a diabete controlada. Nasci de
novo. Hoje, ando sem dor nas pernas, faço ginástica, vou ao baile, a
disposição é outra." Com 1,55 metro de altura, ela pesava 74 quilos
quando fez o procedimento e agora está com 50.
O empresário aposentado Otto Riederer, de 71 anos, fez a cirurgia
há quatro anos e saiu de 120 para 78 quilos. Afirma estar “turbinado”,
mas ressalta que o paciente “tem de ajudar”. “Mudei o meu padrão de
vida, não estou comendo como antes, passei por psicólogo, nutricionista.
Se não se convencer que tem de mudar hábitos, não adianta nada.”
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