11.14.2010

  • Alfabetizado 
O palhaço Tiririca leu e escreveu

1.353.000 brasileiros teclaram o seu número de candidato a deputado federal e apertaram a tecla confirma na última eleição – e assim Francisco Everardo Oliveira Silva elegeu-se como o nome mais votado do País para a Câmara. Silva é o palhaço Tiririca e aí veio a dúvida, talvez porque palhaço viva de fazer graça: aquele que o povo mais quer ver no Parlamento saberá ler e escrever? No Brasil, analfabetos não são elegíveis e por isso na quinta-feira 11 ele foi submetido pelo TRE de São Paulo a um teste no qual leu manchetes de jornais e fez um ditado de 18 palavras – segundo o promotor eleitoral Maurício Lopes, acertou seis. O TSE considera alfabetizado quem tem índice de acerto de 30%. Tiririca teve. Para o presidente do TRE, Walter de Almeida Guilherme, ele “deu conta”. Ou seja: será diplomado deputado. Pode, porém, complicar-se mais tarde: contra Tiririca há a acusação de omissão de bens e de ter mentido quando disse que era sua a letra que consta de seu pedido de registro eleitoral.

O Enem de Tiririca

O fiasco do exame ajuda a entender por que milhões de pessoas votam num palhaço

Fernando Haddad é bacharel, mestre e doutor. Publicou livros e dissertou a tese “De Marx a Habermas – O Materialismo Histórico”. Seus trabalhos nunca foram best-sellers, mas têm títulos que impressionam. Um deles, por exemplo, se chama “Desorganizando o Consenso”. Na última ­semana, ele foi submetido a um teste. Como ministro da Educação, tinha a missão de organizar uma prova para 3,3 milhões de estudantes. Era essencial que não houvesse erros de impressão, que o gabarito não vazasse e que todos os candidatos concorressem em condições isonômicas. Bom, como se sabe, Haddad tirou uma nota baixíssima. Pelo segundo ano seguido, o Exame Nacional do Ensino Médio foi um fiasco, apesar dos gastos de R$ 183 milhões do governo federal com uma prova, que, provavelmente, terá de ser refeita por ordem da Justiça.
Também na semana passada, um outro brasileiro notório foi submetido a um teste de fogo. Francisco Everardo Oliveira Silva, conhecido como Tiririca, teve de comparecer a um tribunal de Justiça para passar por um ditado e escrever três ou quatro palavras. O palhaço Tiririca quase fugiu da raia, alegando problemas neuromotores, mas acabou fazendo a prova. Passou raspando. Conseguiu rabiscar garranchos e ler algumas notícias de jornal. Ao que tudo indica, ele poderá ser ­diplomado como deputado federal.

Esses dois testes, o de Haddad e o de Tiririca, têm um ponto de conexão. Como explicar que mais de um milhão de eleitores do Estado mais rico e supostamente mais ilustrado da Federação tenham votado num palhaço? Certamente, um fator que contribuiu para o grande fenômeno eleitoral de 2010 foi a percepção generalizada, principalmente entre os jovens, de que nada funciona como deveria no Brasil. Daí o mote “pior do que está não fica”, utilizado pelo palhaço na campanha eleitoral. Depois das últimas duas edições do Enem, fica bem difícil contra-argumentar.
O problema é que, pior do que está, fica sim. Tiririca fez parte de um projeto político. Ao explorar de forma eleitoreira o descrédito das instituições, ele contribuiu para eleger pessoas que deveriam passar longe de qualquer parlamento. Um deles, o deputado Waldemar Costa Neto, protagonista do Mensalão. Outro nome puxado pelo palhaço foi o do ex-delegado Protógenes Queiroz, que, na semana passada, pôde ser desmascarado por uma sentença judicial – depois de ter forjado provas na Operação Satiagraha, o “justiceiro incorruptível”, que possui imóveis de alto padrão no Rio de Janeiro, em Brasília e no litoral paulista, foi condenado a mais de três anos de prisão. O fato é que a farsa chamada Tiririca também ajudou a eleger farsantes, mais nocivos ao País do que seria um deputado analfabeto.


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