3.18.2013

Quem ganha e quem perde com o Papa Chico

Por Wálter Maierovitch

A capela sistina sempre foi palco de litígios e puxadas de tapete. Nela existe a “câmara das lágrimas”, onde o vencedor troca os panos cor púrpura de cardeal pelos brancos de papa, antes de, na solidão, debulhar-se em lágrimas por causa da grande emoção. Na Sistina, o então jovem Rafael, insuflado pelo seu mestre Bramante, tentou tomar o lugar de Michelangelo. Rafael não se contentava em afrescar os quartos dos papas. Aproveitava-se do atraso de Michelangelo para espalhar que o concorrente nunca afrescara paredes e não dominava as técnicas de aplicar tinta em reboco molhado. Michelangelo venceu o embate.
Depois de 25 horas de votações, venceram os reformistas da Cúria. A disputa estava polarizada entre esses e os antirreformistas liderados pelo camerlengo Tarcisio Bertone, ex-secretário de Estado (chefe da Cúria e uma espécie de primeiro-ministro). O candidato de Bertone era o brasileiro Odilo Pedro Scherer, integrante da comissão de fiscalização do apelidado Banco do Vaticano, eufemisticamente denominado Instituto para as Obras Religiosas (IOR).
Nos últimos conclaves, o grande embate ocorria entre os reformadores da doutrina, incluindo o saudoso Carlo Maria Martini, e os conservadores. Venceram os últimos, cujos principais símbolos foram Karol Wojtyla e o seu delfim Joseph Ratzinger. Por evidente, perdia a Igreja com o conservadorismo, destacando a redução de fiéis na Europa. A propósito, e como demonstrou o vaticanista Marco Politi, Ratzinger foi o grande teólogo do obscurantismo. É contra a camisinha em tempos de Aids, manteve a proibição de Paulo VI ao uso de pílulas anticoncepcionais, opõe-se à ordenação de mulheres para o posto de sacerdotisas, condena o homossexualismo e a lei alemã de “despenalização” do aborto, é contrário ao casamento de padres e à oferta da eucaristia, nas celebrações, aos divorciados, entre outras.
A escolha de Jorge Mario Bergoglio, que na eleição de Ratzinger ficou em segundo lugar ao entrar nos escrutínios depois da baixa votação e da desistência do cardeal Martini, foi costurada pelos norte-americanos, à frente Timothy Dolan, de Nova York. Os primeiros candidatos apresentados eram Angelo Scola e Odilo Scherer. O reformista entrou na Sistina com cerca de 50 votos e o antirreformista Scherer com quase 25. Como não passavam desse número e jamais atingiriam os dois terços previstos na Constituição apostólica, acabaram substituídos. Então, pelo resultado da urna, percebeu-se que não emplacariam os cardeais canadense, húngaro, australiano, mexicano e o outsider e cultíssimo Gianfranco Ravasi. Para os vaticanistas, Scola pediu a transferência dos seus votos para Bergoglio, de 76 anos. O outro argentino, Leonardo Sandri, estava fechado com os antirreformistas.
As articulações de Dolan, o apoio de diversos cardeais sul-americanos engasgados com a Cúria (Scherer nunca foi unanimidade entre os brasileiros votantes) e a migração de votos do italiano Scola deram a vitória a Bergoglio, que entrou sem nenhuma aspiração e zero de apetite. Como as questões terrenas, nada teológicas, prevaleceram no conclave, os reformistas curiais Scola e Dolan devem indicar o novo secretário de Estado. Aquele que cuidará da limpeza e das defenestrações. A respeito fala-se de um cardeal com prestígio entre políticos italianos, capaz de manter a contribuição do governo da Itália ao Vaticano, equivalente a 9 bilhões de euros por ano.
Scherer saiu chamuscado ao defender o escandaloso Banco do Vaticano. Segundo Paolo Rodari, vaticanista do jornal La Repubblica, “o ataque duríssimo na congregação-geral feito por muitos cardeais e contra a ‘corrupção’ romana, numa Cúria que apontava no candidato Odilo Scherer, cardeal brasileiro e integrante da Comissão Cardinalícia do IOR, ecoou de maneira dramática durante o conclave… Um conclave que assistiu, gradualmente, aos sul-americanos e norte-americanos escolherem uma figura independente”.
Com Bergoglio, jesuíta, esperam-se ações de moralização na Cúria, com o vigor de Inácio de Loyola. Perderam os fiéis brasileiros: o maior país católico do mundo não teve um candidato, entre os reformistas da Cúria, capaz de empolgar. E fica a impressão, por exigência dos cardeais norte-americanos, de estar com os dias contados a lavanderia do IOR, que não atende a todas as regras internacionais de prevenção à lavagem de dinheiro criminoso ou sem causa.

A propósito de Francisco

Quando me ajoelhei aos pés do altar para receber a Primeira Comunhão, meus olhos ficaram embaçados e desmaiei. No dia anterior, de retiro espiritual orientado pelas minhas inesquecíveis freiras marcelinas, ao enfrentar momentos de inequívoca materialidade almoçara risotto com espinafre demoniacamente amanteigado. Não me surpreenderia se o próprio Lúcifer tivesse estacionado na cozinha. Passei uma noite no inferno, entre 16 e 17 de maio de 1942, dia da comunhão.
Atordoado, à beira da inconsciência, degluti a hóstia que me foi imposta goela abaixo por santas razões, pois a oportunidade não poderia ser desperdiçada a bem das expectativas dos familiares presentes, e logo me reencontrei na sacristia diante de um café da manhã monumental. Boa lembrança, além de definitiva.
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Assis. No sonho pintado por Giotto, Inocêncio III vê o santo reerguer a Igreja. Mas este é outro Francisco…
Pela magnitude do evento, ganhei presentes diversos, como era do costume da época e do país, entre eles uma refinada edição de 1927 de I Fioretti di San Francesco, obra medieval nascida de contribuições anônimas redigidas em perfeito italiano para contar passagens salientes da vida de São Francisco de Assis. O qual fora batizado João e não nascera para ser santo, e sim rico senhor, talvez um tanto devasso.
A prima de minha mãe, que me presenteou com o livro, escreveu na dedicatória: “Este é o dia mais belo da sua vida”. Confesso que não me dei conta disso, a despeito da magnificência do desjejum. Quase 71 anos depois, tiro da estante I Fioretti ao saber que o novo papa será o primeiro Francisco da história dos sucessores de Pedro, o pescador.
Arrisco-me a entender que o nome não foi escolhido ao acaso, e logo me vem à memória um afresco da Basílica de São Francisco, em Assis, um da série deslumbrante pintada por Giotto para narrar a vida do santo ao longo das paredes da igreja superior, um dos recantos mais poéticos, e poéticos até a transcendência, em que um indivíduo possa mergulhar mundo afora. O afresco intitula-se O Sonho do Papa, e colhe o santo a reerguer literalmente a Igreja.
Francisco, em quem Dante divisou um semeador de luz com a pronta anuência do amigo Giotto, foi reformador herói, sem contar o poeta que escreveu O Cântico das Criaturas, ou Cântico ao Irmão Sol, obra-prima da língua italiana, e, portanto, o santo mais próximo de Cristo, cujo exemplo transformou na Regra da sua vida e da sua pregação em defesa da natureza e dos desvalidos.
A lição de Francisco é, na essência, um desafio à Igreja e ao papa Inocêncio III, estadista cercado pelo luxo, grudado à crosta terrestre e às suas ambições e vaidades, e em cuja época o poder temporal do Vaticano atingiu o apogeu, quando o sucessor de Pedro interferia na política do Sacro Romano Império. Francisco surge como prova dos descaminhos papais, é o manso contestador que põe o dedo na chaga em nome da ideia indiscutivelmente cristã da revelação e do amor.
Leio hoje no prefácio dos Fioretti, de autoria de um autor francês: “Vislumbrem a sociedade que nos cerca: qual é o vício radical da nossa época? (…) Somente os insensatos podem lamentar os progressos da ciência, somente os mais puros materialistas podem atribuir seu desconforto à Revolução Francesa ou à Declaração dos Diretos do Homem, quando, de verdade, ela estabelece apenas o cumprimento do Decálogo (…)”
E mais adiante: “É no coração que estamos doentes, neste centro misterioso onde se originam as fontes da vida. Discórdias internacionais e agitações internas; guerras estrangeiras e guerras civis; crises individuais pelas quais muitos entre nós vivem sem viver, são atores que interpretam seu papel em lugar de homens que conquistam sua individualidade. E isso tudo decorre de uma única causa. Povos e indivíduos esqueceram as realidades interiores, as realidades viventes, e deixaram-se seduzir pelo erro fatal de que o dinheiro é o instrumento da felicidade”.
Não há como imaginar que a igreja de Roma possa mudar, até mesmo pela rota de um reformismo lento e gradual. Da mesma forma, a leitura acima mostra que o mundo também continua o mesmo. Quanto a Jorge Mario Bergoglio, o nome que acaba de escolher para reinar parece indicar grandes propósitos, embora não se exclua que o novo papa tenha pensado, de fato, em Francisco Xavier, santo da sua Ordem, a jesuíta. Aquela nascida da espada de Inácio de Loyola no palco faustoso do barroco, iluminado pelas fogueiras dos autos de fé.
Outra a Ordem de Francisco de Assis, a figura maior da cristandade depois do próprio Cristo, a dos Frades Menores. Personagens de luminosidade cegante, que a bola de argila a nos hospedar, enquanto gira em torno do Irmão Sol, até hoje não foi capaz de merecer.
Mino Carta

2 comentários:

Malu Silva disse...

Sou católica porque cresci dentro de uma família católica, mas para mim RELIGIÃO - essa ligação com DEUS, com o DIVINO - vai muito mais além que essas convenções aplicadas pela sociedade...
Abraços

Antonio Celso da Costa Brandão Brandão disse...

Minha amiga Malu concordo com vc., mas acredito que este papa Francisco
poderá ser diferente de tudo que ja vimos. Tenho esperanças.
Abs