7.27.2014

O sonho que pode tratar

Medicina & Bem-estar
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A ciência começa a testar de que maneira sonhar pode ajudar no tratamento de pesadelos, dor crônica, estresse, doenças mentais como a esquizofrenia e até aprimorar o desempenho esportivo

Cilene Pereira (cilene@istoe.com.br)

O paulista Bruno Henrique do Carmo, 32 anos, sempre teve pavor de água. Um dos temas recorrentes em seus pesadelos eram tsunamis, afogamentos. O terror permaneceu até que um dia teve um sonho diferente. Sonhou que estava em alto-mar, mas, em vez de sucumbir ao medo, teve a clareza de perceber que estava apenas sonhando. “Resolvi aproveitar a liberdade de fazer o que quisesse”, lembra. “Mergulhei e nadei”, recorda-se. Depois do episódio, Bruno perdeu a aversão à água. Pesquisador da área de neurociências do Instituto do Cérebro, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em Natal, ele agora aproveita as praias da capital potiguar, surfa e veleja.
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O tipo de sonho que Bruno teve se chama sonho lúcido. Nele, o indivíduo sabe que está sonhando e pode até interferir no roteiro se desejar. O fenômeno é conhecido da ciência há tempos, mas nos últimos anos ganha atenção crescente. Isso porque ele apresenta um expressivo potencial para ajudar no tratamento de diversas condições – assim como foi decisivo para que Bruno perdesse o medo da água. Hoje, há centros de pesquisa pelo mundo avaliando sua eficácia contra pesadelos e dor crônica, entre outras enfermidades, e como um instrumento de promoção da melhora no desempenho motor e esportivo.
Contra os pesadelos, o objetivo é usar a consciência de que se está sonhando para interferir no conteúdo e mudar a história de forma a trocar o que dá medo por algo que conforta. No Instituto de Consciência e Pesquisa do Sono, na Áustria, esse trabalho vem sendo feito há sete anos. Os primeiros pacientes tinham pesadelos recorrentes, sem causa aparente. Depois, juntaram-se a eles vítimas de estresse pós-traumático, condição marcada por sonhos aterrorizantes a respeito do trauma que motivou o estresse. “Temos resultados significativos com os dois grupos”, disse à ISTOÉ a pesquisadora Brigitte Holzinger, uma das fundadoras da Associação Austríaca de Pesquisa em Sono.
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Os resultados da Áustria aproximam-se dos obtidos em outras partes do mundo. Na lista das melhores práticas para o tratamento dos pesadelos, publicada no “Journal of Clinical Sleep Medicine”, um dos principais no campo da medicina do sono, a terapia do sonho aparece com uma recomendação positiva. “Ela pode ser considerada uma opção”, explicou à ISTOÉ Sanford Auerbach, da Universidade de Boston (Eua) e um dos coordenadores das orientações.
Boas evidências do potencial dos sonhos lúcidos também são encontradas na área das habilidades motoras e performance esportiva. O que se quer é melhorar a precisão do chute, do arremesso, por exemplo? Use o sonho lúcido para treinar os movimentos. Um dos primeiros a apontar os benefícios da estratégia foi Daniel Erlarcher, da Universidade de Heidelberg, na Alemanha. Um de seus trabalhos demonstrou como ter consciência do sonho auxilia na coordenação. Ele selecionou 40 voluntários, metade dos quais com histórico de ter sonhos lúcidos espontaneamente. Todos deveriam jogar moedas em um recipiente e tinham 20 chances de fazer isso. Os sonhadores foram orientados a tentar sonhar que acertavam a jogada. No dia seguinte, os sete indivíduos que conseguiram treinar durante o sonho mostraram melhor performance. “Ensaiar durante o sonho tem impacto positivo na performance real”, afirmou Erlarcher à ISTOÉ.
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Dresler (à esq.), da Alemanha, mapeou o que ocorre no
cérebro durante os sonhos. Sérgio, do Brasil, quer criar
métodos para induzir esse tipo de experiência
Seu colega Tadas Stumbrys, também de Heidelberg, está ampliando as investigações. “Constatamos que o sonho lúcido pode melhorar o desempenho no esporte”, contou à ISTOÉ. Seus levantamentos revelaram que 5% dos atletas utilizam conscientemente esse poder. Dados semelhantes foram levantados por Melanie Schadlich, na mesma universidade alemã. Em uma pesquisa preliminar feita com os que costumam ter sonho lúcido e os utilizam para aprimorar as habilidades na música e nos esportes, ela colheu depoimentos interessantes. Muitos relataram que treinar no sonho os ajudou a realizar movimentos que antes não eram capazes de executar.
Nos EUA, o pesquisador Mauro Zappaterra, da Universidade da Califórnia, registrou o primeiro caso do mundo de alívio da dor crônica com o auxílio do sonho lúcido. O paciente, chamado apenas de Mr. S., sofria dores terríveis após uma cirurgia feita em 1991. Ao longo dos 22 anos seguintes, Mr. S. foi submetido a diversos tratamentos. No dia 2 de março de 2013 ele teve o sonho que interrompeu esse sofrimento. Consciente de que estava sonhando, ele viu formas como se fosse o DNA. E procurou entender o que estava vivendo. “Pareceu que meu cérebro desligou e foi ligado novamente”, contou. Quando acordou, a dor havia ido embora. Ela reapareceu 20 dias depois, mas com a metade da intensidade. Hoje, ele mantém o controle com medicação – menos do que antes – e terapia. Os cientistas não sabem ao certo o mecanismo que levou ao alívio. “Acredito que o trabalho multidisciplinar feito nos dois anos anteriores ao sonho tenha remodelado seu sistema nervoso. E o sonho funcionou como uma poderosa experiência de cura após todo o trabalho prévio”, disse à ISTOÉ Mauro Zappaterra.
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A possibilidade de tirar proveito do sonho é objeto de estudo de Peter Morgan, do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de Yale (EUA). “Esse recurso pode ter benefícios para uma variedade de condições físicas e mentais, na maioria das vezes como terapia coadjuvante”, afirmou à ISTOÉ. No Brasil, a psiquiatra cearense Natália Mota pesquisa o assunto no Instituto do Cérebro, em Natal. Um dos aspectos é a relação entre o sonho lúcido e a esquizofrenia. Entre os raciocínios que motivam a investigação está o de que, talvez, seja possível usá-lo para ajudar o paciente a perceber quando tem uma alucinação. “Teoricamente, se ele é treinado e fica apto a identificar quando está sonhando, talvez fique habilitado para saber quando está tendo uma alucinação”, explica a médica.
Acredita-se ainda que, a contar pelos resultados obtidos até agora na melhora das habilidades motoras, é possível que os sonhos sirvam como um meio útil para auxiliar na reabilitação física após lesões e acidente vascular cerebral. “Os exames de imagem cerebral mostram que a prática motora durante os sonhos ativa as mesmas regiões cerebrais acionadas na vigília”, disse o cientista Tadas Stumbrys.
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Há também o aprendizado sobre a própria consciência e o crescimento emocional que pode advir disso. Um dos que estão empenhados em descobrir como funciona o estado de lucidez durante os sonhos é o cientista Martin Dresler, do Instituto Max Planck, na Alemanha. Ele acaba de publicar um trabalho no qual descreve um mapa do que ocorre no cérebro durante esses sonhos. “Aprofundaremos os estudos para explorar mais os circuitos neurais envolvidos”, adiantou à ISTOÉ.
Diante de todo esse potencial, há esforços para encontrar maneiras de facilitar a ocorrência do sonho. Há técnicas que ajudam a ter esse tipo de experiência (leia quadro abaixo). Mas os cientistas pesquisam outras formas. É o caso do pesquisador Sérgio Mota Rolim, do Instituto do Cérebro, em Natal. “Queremos construir um dispositivo para induzir o sonho lúcido”, conta. Na J.W. Goethe-University Frankfurt, na Alemanha, a cientista Ursula Voss descreveu na revista científica “Nature” como fez isso por meio da aplicação de suaves estímulos elétricos em pontos do cérebro. “Acho que qualquer pessoa pode ter um ou mais desses sonhos”, disse Ursula à ISTOÉ.
Colaborou Mônica Tarantino

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