5.18.2014

A vida sob o controle da Fifa

Como os jogos da Copa irão alterar a rotina de moradores e de pessoas que trabalham na zona de exclusão dos estádios, área administrada pela entidade máxima do futebol

Wilson Aquino (waquino@istoe.com.br) e Jorge Eduardo França Mosquera

Todas as terças e quintas, a dona de casa Ellen Carla Teixeira, 34 anos, tem um compromisso inadiável: levar o filho David, que tem 5 anos e é cadeirante, à fisioterapia. Mas a família mora em frente à Arena Pantanal, em Cuiabá, uma das 12 sedes da Copa do Mundo no Brasil, e, por causa das restrições impostas pela organização dos jogos, ela não sabe nem se vai conseguir sair de casa na terça-feira 17 de junho, data do jogo entre Rússia e Coreia do Sul. “Fizemos um cadastro, mas está tudo muito confuso. Vão fechar a região quatro horas antes do jogo e não sei como ficará”, diz. Ela faz parte de um contingente grande de pessoas que estão pagando um preço alto por morarem perto dos estádios da Copa.
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EM CUIABÁ
Ellen Teixeira e o filho David: ela teme não conseguir
levar o filho David à fisioterapia nos dias de jogo
Para proteger as marcas da Fifa e de seus patrocinadores e facilitar a mobilidade de atletas, autoridades e pessoas que vão trabalhar nos jogos, foram criadas zonas de exclusão. As prefeituras das sedes estabeleceram medidas restritivas a quem dá expediente e a moradores que vivem na área dos estádios perto do horário dos jogos. Em Curitiba e Manaus, por exemplo, em dia de jogo, quem não estiver credenciado ou não tiver ingresso não vai poder nem circular a pé num raio de um quilômetro do estádio, mesmo se morar na área. Até bebê de colo terá crachá.
A Lei Geral da Copa garante à Fifa e às pessoas por ela indicadas exclusividade para divulgar ou vender produtos e serviços em um raio de até dois quilômetros dos locais oficiais das competições (leia quadro). A medida visa a evitar o chamado “marketing de emboscada” – ações piratas de marcas que não patrocinam o evento. “Vamos fiscalizar para não atrapalhar a mobilidade, o direito dos torcedores e dos patrocinadores oficiais”, diz Leandro Matieli, secretário de Ordem Pública da prefeitura do Rio de Janeiro. No Rio, aliás, há uma particularidade: os bares que ficam ao redor do estádio não poderão vender bebidas alcoólicas duas horas antes do início do jogo e até uma hora depois. A proibição foi determinada por lei em 2009 como estratégia do prefeito Eduardo Paes (PMDB) para reduzir a violência na região. “A gente aceitava essa lei porque dentro do Maracanã era proibido vender bebida também. Mas agora está injusto, porque liberaram a venda no interior do estádio. Então, por que proibir fora?”, questiona Darcílio Junqueira, diretor do Sindicato de Hotéis, Bares e Restaurantes do Rio.
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NA RUA
João Sales tem um bar em frente ao Maracanã e não poderá vender bebida,
que será comercializada dentro do estádio. Henrique Castro,
de Curitiba, precisará de credencial para ir para casa
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“Isso é covardia com o comerciante”, reclama o paraibano João Sales, 53 anos, dono há 29 anos do Bar e Lanchonete dos Esportes, que fica em frente ao portão 9 do Maracanã. “Deixo de vender mais de 300 latões de cerveja”, contabiliza. Em Porto Alegre, onde estão previstos cinco jogos entre 15 e 30 de junho, uma faixa da Avenida Padre Cacique, em frente à Arena do Beira-Rio, ficará bloqueada durante os 30 dias do evento e algumas barreiras serão montadas a mais de três quilômetros do estádio em dias de jogo. Cerca de três mil gaúchos que vivem no entorno terão sua rotina alterada. Em Recife, onde a vizinhança da Arena Pernambuco é a mais populosa entre todas as sedes, cerca de 30 mil pessoas terão de se adaptar ao esquema de restrição. Livre circulação nas imediações do estádio somente a pé. Na zona de exclusão, apenas veículos oficiais de segurança e saúde poderão furar o bloqueio da Fifa. Amigos e familiares que desejem visitar os moradores da região no período também vão precisar realizar o cadastramento.
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Em Curitiba, na quarta-feira 14, aconteceu o primeiro teste Fifa do estádio, em partida entre Corinthians e Atlético Paranaense. Como as obras no entorno da Arena da Baixada não estão prontas, o esquema de restrição não pôde ser testado – mas já é alvo de protesto. “São dois anos e meio de pesadelo, com barulho, sujeira e confusão no trânsito. Agora não podemos mais ir e voltar de casa quando bem entendermos”, reclama o analista de sistemas Henrique Castro, 36 anos. Ele e a mulher moram em uma rua sem saída que desemboca em uma das laterais do estádio. É quase vizinho de parede. “Se eu esquecer minha credencial no trabalho, simplesmente não poderei entrar em casa”, diz. “Terei de esperar duas horas após o jogo acabar ou, pior, chegar quatro horas antes”, lamenta

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