A maior parte dos jornalista só tinham um foco : condenar o PT
Na
cobertura do julgamento do “mensalão”, o jornalista Paulo Moreira Leite
foi uma das poucas vozes dissidentes na imprensa brasileira. Em seu
blog, então hospedado no site da revista
Época, o ex-diretor de
Veja, Diário de S.Paulo e da própria
Época, cobriu
o tema, em suas palavras, de forma “crítica e desconfiada”, evitando o
tom meramente condenatório sobre os réus e analisando também as
contradições do Supremo Tribunal Federal no caso. “A maioria dos
veículos de comunicação abriu mão de fazer jornalismo durante o
julgamento e cobriu como se não tivesse mais nada a ser demonstrado”,
diz a
Carta Capital nesta entrevista. “Esse tipo de senso crítico [
ao julgamento] tem valor quando se baseia em fatos, não tem a ver com ser do contra ou a favor.”

Joaquim
Barbosa e Ricardo Lewandowski, ministros relator e revisor do
julgamento do “mensalão”, respectivamente. Foto: Carlos Humberto/SCO/STF
Os textos publicados no blog durante o julgamento e outros inéditos se transformaram no livro
A outra história do Mensalão – As contradições de um julgamento político (
Geração Editorial, 353 págs., R$ 34,90),
lançado na terça-feira 19. O trabalho chega às livrarias com uma
tiragem acima da média no Brasil, em um mercado aquecido por ao menos
outras duas recentes obras sobre o tema.
“Isso mostra como as pessoas ainda querem entender o que aconteceu.
Elas vão ler e reler o que conhecem sobre o caso. Querem refletir mais
profundamente, porque não foi um julgamento qualquer. A sua repercussão
sobre a Justiça e a política brasileira ainda precisa ser avaliada.”
CartaCapital: O seu blog se destacou por uma cobertura mais independente. Como foi a recepção? Recebeu muitas críticas negativas?
Paulo Moreira Leite: A recepção foi boa e a audiência cresceu
muito, às vezes 500%. As pessoas não necessariamente concordavam com o
que eu escrevia, mas sentiam que expressava um ponto de vista importante
para o debate. Falava com leitores curiosos, com espírito crítico
bastante acentuado e que não acreditavam em tudo o que ouviam.
CC: Essa abordagem diferente da mídia em geral foi algo importante na cobertura deste caso?
PML: Sim. Esse tipo de senso crítico tem valor quando se
baseia em fatos, não tem a ver com ser do contra ou a favor. No caso,
quando se lê os documentos disponíveis, o relatório da Polícia Federal
sobre o caso anexado no processo, se conversa com a defesa e vê as
alegações finais das partes, percebe-se que é um processo com
contradições. Está longe de ser uma denúncia amarrada. É uma questão
intelectual e profissional do jornalista examinar, pensar e não ter
receio de desagradar quem quer que seja desde que esteja convencido,
como estou, de que está expressando a verdade.
CC: Houve alguma pressão editorial em relação ao conteúdo do blog?
PML: Não. Mas tenho certeza que não expressava a posição
unânime de leitores. No meu blog, há muitos comentários agressivos. No
entanto, ele cresceu e virou uma referência no debate.

Foto: Divulgação
CC: O fato de ser um blog ajudou no enfoque escolhido para a cobertura?
PML: O blog permite que as pessoas compartilhem o que leram de
forma instantânea. Isso é importante, torna a leitura focada, pois vai
ler quem quiser saber sobre aquele assunto. Mas não sei se haveria mais
ou menos eco se fossem outras mídias, como um grande jornal ou
televisão.
CC: Pouco tempo após o fim do julgamento já há alguns
grandes lançamentos de livros sobre o caso. O que o senhor acha dessa
tendência?
PML: Esse mercado mostra como as pessoas ainda querem entender
o que aconteceu. Elas vão ler e reler o que conhecem sobre o caso.
Querem refletir mais profundamente, porque não foi um julgamento
qualquer. A sua repercussão sobre a Justiça e a política brasileira
ainda precisa ser avaliada.
CC: No prefácio do seu livro, Jânio de Freitas diz que
parte dos jornalistas que cobriram o caso “enveredaram por práticas que
passaram do texto próprio de comentário jornalístico para o texto típico
da finalidade politica, foram textos de indisfarçável facciosismo”. O
senhor concorda com isso?
PML: A maioria dos jornalistas e veículos de imprensa achou
que estava tudo demonstrado e que a culpa de todos estava provada, como
se não houvesse um trabalho para fazer sobre o julgamento, a qualidade
das provas ou da acusação – que era muito mais frágil do que as pessoas
supunham. A imprensa assistiu ao julgamento e contratou advogados, que
muitas vezes tiveram papel mais importante que os repórteres. Algo
engraçado, pois as pessoas leem o jornal para ver uma investigação, uma
apuração. E a maioria dos veículos de comunicação abriu mão de fazer
jornalismo durante o julgamento, cobriram o caso como se não tivesse
mais nada a ser demonstrado. Mas, ao ver os autos em busca do
contraditório, não ó que aparece. O que a Polícia Federal investigou é
diferente daquilo que o Ministério Público aponta. Para o MPF e Joaquim
Barbosa [
relator do caso no STF] os empréstimos do Banco Rural ao
PT, que José Genoíno assinou, eram fraudulentos. A PF investigou e
concluiu que eram verdadeiros e a partir deles saiu dinheiro para o
esquema. E isso muda muito a história.
CC: Qual foi a maior contradição do julgamento?
PML: São várias, mas a maior é apontar a tese de que o
mensalão era um sistema de compra de votos e não conseguir indicar um
único caso concreto em que se comparam votos. Não foi preciso comprar
votos para apoiar nenhuma das reformas do governo, que passaram com
larga margem, inclusive com o voto da oposição. No caso da Previdência,
que era uma continuidade de uma reforma do governo do PSDB, o bloco
governista era tão forte que o governo excluiu petistas que se recusaram
a votar na reforma.
CC: O que precisa ser desmistificado neste julgamento?
PML: Banqueiros foram condenados a penas duríssimas, mas
nenhum deles concentra o poder econômico do Brasil. Não é o Banco Rural
que detém o poder financeiro do País, é um banco secundário. Os
políticos que foram condenados são historicamente perseguidos pelo
aparelho policial, seja no regime militar ou agora. Não são os homens
públicos e poderosos. São pessoas de um governo específico, que
representa uma força social específica. Os banqueiros de ponta que
apareceram com grandes operações no ‘mensalão’, e que participaram das
privatizações, não foram sequer levados a julgamentos ou no mínimo
arrolados.
por Gabriel Bonis