8.04.2013

Feitiço contra feiticeiros no STF

Após quatro meses de espetáculo pela TV, a notícia é que alguns ministros do STF estão com medo de rever seus votos no julgamento do mensalão


Às vésperas da retomada do julgamento da Ação Penal 470, quando o STF irá examinar os recursos dos 25 condenados, o ambiente no tribunal é descrito da seguinte forma por Felipe Recondo e Debora Bergamasco, repórteres do Estado de S. Paulo, com transito entre os ministros: 
“(...) há ministros que se mostram ‘arrependidos de seus votos’ por admitirem que algumas falhas apontadas pelos advogados de defesa fazem sentido. O problema (...) é que esses mesmos ministros não veem nenhuma brecha para um recuo neste momento. O dilema entre os que acham que foram duros demais nas sentenças é encontrar um meio termo entre rever parte do voto sem correr o risco de sofrer desgaste com a opinião pública.”
 
Pois é, meus amigos. 
 
Após quatro meses de espetáculo pela TV, a notícia é que alguns ministros do STF estão com medo. Não sabem como “encontrar um meio termo entre rever parte de seu voto sem correr o risco de sofrer desgaste com a opinião pública.”
 
É preocupante e escandaloso. 
 
Não faltam motivos muito razoáveis para um exame atento de recursos. Sabe-se hoje que provas que poderiam ajudar os réus não foram exibidas ao plenário em tempo certo. Alguns acusados foram condenados pela nova lei de combate à corrupção, que sequer estava em vigor quando os fatos ocorreram – o que é um despropósito jurídico. Em nome de uma jurisprudência lançada à última hora num tribunal brasileiro, considerou-se que era razoável “flexibilizar as provas” para confirmar condenações, atropelando o direito à ampla defesa, indispensável em Direito. Centenas de supressões realizadas pelos ministros no momento em que colocavam seus votos no papel, longe das câmaras de TV, mostram que há diferença entre o que se disse e o que se escreveu. 
 
O próprio Joaquim Barbosa suprimiu silenciosamente uma denúncia de propina que formulou de viva voz, informação errada que ajudou a reforçar a condenação de um dos réus, sendo acolhida e reapresentada por outros ministros. 
 
Eu pergunto se é justo, razoável – e mesmo decente – sufocar esse debate. Claro que não é. 
É perigoso e antidemocrático, embora seja possível encher a boca e dizer que tudo o que os réus pretendem é ganhar tempo, fazer chicana. Numa palavra, garantir a própria impunidade. 
 
Na verdade estamos assistindo ao processo em que o feitiço se volta contra o feiticeiro. E aí é preciso perguntar pelo papel daquelas instituições responsáveis pela comunicação entre os poderes públicos e a sociedade – os jornais, revistas, a TV. 
 
O tratamento parcial dos meios de comunicação, que jamais se deram ao trabalho de fazer um exame isento de provas e argumentos da acusação e da defesa, ajudou a criar um clima de agressividade e intolerância contra toda dissidência e toda pergunta inconveniente.
 
Os réus foram criminalizados previamente, como parte de uma campanha geral para criminalizar o regime democrático depois que nos últimos anos ele passou a ser utilizado pelos mais pobres, pelos eternamente excluídos, pelos que pareciam danados pela Terra, para conseguir alguns benefícios – modestos, mas reais -- que sempre foram negados e eram vistos como utopia e sonho infantil. 
 
(A prova de que se queria criminalizar o sistema, e não corrigir seus defeitos, foi confirmada pelo esforço recente para sufocar toda iniciativa de reforma política, vamos combinar.)
 
No mundo inteiro, os tribunais de exceção consistem, justamente, num espetáculo onde a mobilização é usada para condicionar a decisão dos ministros. 
 
“Morte aos cães!”, berravam os promotores dos processos de Moscou, empregados por Stalin para eliminar adversários e dissidentes. 
 
Em 1792, no Terror da Revolução Francesa, os acusados eram condenados sumariamente e guilhotinados em seguida, abrindo uma etapa histórica conhecida como Termidor, que levou à redução de direitos democráticos e restauração da monarquia. 
 
No Brasil de 2013, a pergunta é se os ministros vão se render ao medo.
 
Paulo Moreira Leite
 

As vitimas da escola do terror

Oito meses depois de revelarem as cenas de maus-tratos contra crianças de menos de 5 anos praticados pela dona de uma escola infantil, em São Paulo, as famílias não conseguem superar o trauma da violência. E a professora não foi punida

Nathalia Ziemkiewicz

Assista ao vídeo que comprova os maus-tratos:
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"Ela apertava minha boca, me beliscava e batia para eu comer”, relata Felipe Moraes, 6 anos. “A tia Conceição era uma bruxa, mas a gente não tinha o telefone da polícia para contar o que ela fazia.” Sem tirar os olhos do tablet apoiado em seu colo, o garoto de bochechas coradas relata suas memórias da escola infantil de classe média alta Trenzinho Feliz. Boa parte de suas referências foi construída naquele endereço da Vila Mariana, zona sul de São Paulo, onde estava desde os seis meses de idade em período integral. Em dezembro do ano passado, uma funcionária revelou os maus-tratos aos quais as crianças ali matriculadas eram submetidas com a ajuda de uma câmera escondida. Enquanto alimentava os alunos grosseiramente, a diretora-pedagoga Conceição Tomaz Cruz dava puxões no cabelo e na orelha, tapa na cara, chacoalhões. Há relatos de que os obrigava a engolir o próprio vômito, provocado pelo excesso de comida. Felipe e seus colegas não podiam contar a ninguém, sob uma suposta ameaça da diretora em “cortar a cabeça dos pais”. Os mesmos que pagavam mensalidade superior a R$ 1.500, confiaram na tradição de 30 anos da instituição e nas credenciais acadêmicas de Conceição. Logo depois que o escândalo veio à tona, a escola foi fechada e a diretora foi denunciada por maus-tratos. Mas o terror que essas crianças tão pequenas passaram ainda reverbera na rotina das famílias, muitas sob tratamento psicológico e medicação. Há até quem mudou de cidade para tentar superar o trauma. Enquanto isso, a diretora aguarda a decisão da Justiça em sua casa, em São Paulo, e leva uma vida normal.
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TRAUMA
Quando não comia, Felipe apanhava na escola. Seus pais, Evandro e Flavia Moraes,
não sabiam, mas estranhavam seu comportamento agressivo
“Como eu poderia desconfiar?”, afirma o gerente-comercial Evandro Moraes, pai de Felipe. “Meu filho sabia ler e escrever aos 5 anos, supus que a escola fosse competente.” A culpa permanece latente nesses pais – eles não se perdoam por ter ignorado ou subestimado os sinais de suas crianças (leia o quadro na pág. 62). Muitas delas se expressam por meio de comportamentos incomuns, outras pelo universo lúdico da fantasia. Felipe, por exemplo, adquiriu uma aversão a queijo e se tornou agressivo a ponto de dar socos e chutes. Já Rafaela, aos 5 anos, começou a brincar com as bonecas de um jeito diferente: dizia se chamar Conceição e fazia com que elas engolissem comida à força. A mãe, Priscilla Lomovtov, achou que era apenas fruto da imaginação. “A ideia de que aquilo acontecesse de verdade era surreal demais para acreditar.” Em outra casa, quando Luciana Lopes perguntava ao filho de 4 anos por que ele chegava da aula com fezes, Guilherme saía correndo e chorava. Segundo depoimentos, os alunos que se recusavam a fazer as refeições eram colocados de castigo por horas em um cômodo escuro e sem acesso ao banheiro.
 O Ministério Público ofereceu uma denúncia de maus-tratos contra Conceição. Se condenada, a previsão é de que fique cerca de um ano presa. A decisão contrariou a vontade dos pais. Eles pediam que a diretora fosse incriminada por tortura, sujeita a uma pena muito mais rigorosa. ISTOÉ solicitou uma entrevista com a acusada, mas ela se negou. Seu advogado, Antônio Sidnei Ramos de Brito, afirma que a cliente está desempregada, já foi agredida fisicamente e não se sente preparada para falar. O processo corre em sigilo e a primeira audiência está marcada para janeiro de 2014, mais de um ano depois da data das cenas anexadas como prova. Só então serão feitas as avaliações psicológicas de 19 crianças por profissionais do Tribunal de Justiça – com resultados prejudicados, devido ao tempo entre os episódios e os exames.
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O advogado Brito diz que Conceição assume o tapa na cara da aluna Valentina, com 2 anos na época, que aparece nas gravações que repercutiram em todo o País. Teria sido uma exceção, atitude “estúpida” de descontrole emocional, em virtude dos medicamentos para emagrecer que a diretora tomava. “Não vou admitir a transferência de responsabilidade”, afirma. “Alguns pais não tinham competência para a maternidade, talvez esses traumas tenham sido causados por eles, não pelo que alegam ter acontecido no colégio.” Consultada, a Secretaria Municipal de Ensino explicou que a licença de funcionamento da Trenzinho Feliz foi cassada em janeiro, mas Conceição poderia pedir autorização para abrir outra escola, solicitação essa que passará por uma avaliação. Enquanto isso, alguns pais mantêm um grupo na internet em que trocam informações sobre a evolução dos filhos. Há também processos cíveis pedindo ressarcimento das mensalidades pagas à escola como forma de indenização.
Especialista em crianças e adolescentes, a psicóloga Ceres Araújo analisa que a diretora era uma das figuras adultas mais presentes no cotidiano desses meninos e meninas. Um modelo hostil e assustador que provocou uma complicada inversão de valores. “Ela não só transformou a escola em um ambiente inseguro como abalou a confiança que tinham em vínculos muito próximos”, diz. Isso explica por que as crianças começaram a verbalizar situações apenas agora, meses depois de o episódio vir à tona. Há um longo período de estresse após o trauma. Felipe teve transtornos de adaptação na nova escola e estranhou que não havia castigo por lá. Rafaela ainda tem muitos pesadelos e dificuldade de fazer amizade. Guilherme teme ficar sozinho e desenvolveu um problema na tireoide. “A alimentação é uma das primeiras referências afetivas, mas essas crianças a associaram com sofrimento e vergonha”, afirma a presidenta da Associação Brasileira de Psicopedagogia, Quézia Bombonatto.
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Segundo especialistas, os alunos da Trenzinho Feliz correm o risco de apresentar distúrbios alimentares, além de problemas com aprendizagem e relacionamento. A sorte, dizem os especialistas, está na “elasticidade” do sistema nervoso dos pequenos, capazes de reelaborar as experiências negativas com acompanhamento psicológico e referências amorosas. O impacto nos pais, no entanto, pode ser mais complexo. Evandro e Flavia Moraes confessam que a história quase os levou à separação e recorreram à terapia de casal. “Estávamos em pé de guerra, botando a culpa pelo que aconteceu no outro”, diz Flavia. Priscilla Lomovtov não se sente tranquila para deixar a filha com ninguém. Luciana Lopes toma remédios contra depressão, recebeu afastamento médico do trabalho e se mudou com a família para Guarulhos. “Eu fiquei com muita raiva, queria caçar aquela mulher de qualquer jeito, nunca mais tive paz de espírito.”
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O PT contra Dilma

Alimentada por desconfianças e ameaças, a relação entre a presidenta e o PT nunca foi tão tensa. Envolvidos na contenda política torcem para que diálogos entre Dilma e Lula possam levar a um consenso sobre 2014

Josie Jeronimo e Paulo Moreira Leite

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Quando querem fustigar a presidenta Dilma Rousseff,
petistas contrariados disseminam o “Volta, Lula”
Traduzido para o universo político, o conhecido ditado “em casa onde falta pão todo mundo briga e ninguém tem razão” aplica-se perfeitamente às relações atuais entre a presidenta Dilma Rousseff e o Partido dos Trabalhadores. Escalpelados pelos protestos de junho, que jogaram no lixo a perspectiva de uma reeleição fácil em outubro do ano que vem, o governo e o PT alimentam um cotidiano de desconfianças, ameaças, jogo duplo e críticas amargas.
Por trás de gestos de boas maneiras e cortesia formal, o Palácio do Planalto tem sido assombrado, nos últimos dias, por um velho fantasma petista. Prefeita de São Paulo entre 1989 e 1993, a atual deputada Luiza Erundina (PSB-SP) entrou para os anais petistas como símbolo de autoridade desgastada e incompreendida pelo próprio partido, a quem hoje acusa de ter sabotado seus esforços para firmar um perfil duradouro a sua gestão, inclusive com a criação da passagem gratuita para ônibus, que teria tanta importância nos protestos de duas décadas depois. No Planalto, teme-se que isso ocorra também com Dilma.
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Há duas semanas, convencida de que os petistas queriam colocar “uma faca em seu pescoço” e forçar mudanças de rumo na política econômica e na estratégia eleitoral de 2014, a começar pela aliança com o PMDB, a presidenta Dilma cancelou, na última hora, sua presença num encontro do Diretório Nacional petista, instância máxima de decisão do partido. A ausência provocou uma reação imediata, que incluiu um discurso indignado do ex-ministro José Dirceu e uma inesperada cena de choro por parte de Sebastião Rocha Filho, um dos mais antigos e influentes dirigentes do partido. Cinco dias depois, Dilma repetiu a atitude. Não compareceu a um encontro marcado previamente com a bancada do PT no Senado, instituição que se transformou numa fortaleza de resistência, depois que a Câmara foi capturada pela oposição. A presidenta alegou, o que era verdade, que estava gripada e com forte dor de garganta. Em vez de remarcar um novo encontro para uma ocasião em que estivesse restabelecida, Dilma despachou as ministras Gleisi Hoffmann, da Casa Civil, e Ideli Salvatti, de Relações Institucionais, em seu lugar. Levados a debater seus pleitos num diálogo no qual todas as decisões estão sujeitas a referendo posterior da presidenta, mais uma vez os petistas sentiram-se desprestigiados e rebaixados.
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Na quarta-feira 31, quando centenas de militantes e dirigentes do partido se reuniram em Brasília, o ambiente era tenso. A equipe econômica havia acabado de anunciar um corte de gastos da ordem de R$ 10 bilhões, decisão que ameaçava não só o trabalho cotidiano de vários ministérios, mas também as perspectivas eleitorais de 2014. Um dos oradores, secretário-geral de um ministério importante, comentou que o corte poderia implicar a dispensa de funcionários terceirizados – os únicos que podem ser demitidos imediatamente – e lamentou: “É um erro cortar rompendo pontes com a sociedade, botar gente na rua perto da eleição.” Em palavras que traduzem o espírito geral dos descontentes, o mesmo funcionário disse: “No meu ministério, não vamos demitir nem mesmo um peão.”
O encontro da quarta-feira 31 tinha como pauta a nova esperança de reconciliação entre os petistas e o governo – o programa Mais Médicos – e por essa razão o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, ocupou o centro das atenções. Embora tenha sido forçado pelos protestos das entidades médicas a cancelar a ideia de ampliar a formação universitária de seis para oito anos, reduzindo também a residência para um ano, o Planalto não tem dúvidas de que a proposta de levar médicos para os municípios e bairros pobres vai trazer benefícios eleitorais a Dilma. “Se nós soubermos trabalhar, o programa vai polarizar o debate de 2014. Esse é um embate político que tem a nossa cara”, disse Padilha.

PT-03-IE-2281.jpg BOM DE BRIGA
Movimentos do deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP) esvaziaram
as principais ideias de Dilma Rousseff sobre a reforma política
Como a experiência demonstra, a perspectiva de manutenção do poder de Estado sempre foi um dos principais lubrificantes de toda a atividade política. Mas nem todas as diferenças entre o PT e o governo são fáceis de resolver – algumas são até difíceis de esconder. O PT e a máquina de entidades que influencia, a começar pela Central Única dos Trabalhadores, está em campanha para obter 1,3 milhão de assinaturas de apoio a um projeto de iniciativa popular para mudar as regras dos meios de comunicação no País – proposta que provoca arrepios horrorizados no Planalto. Em outro capítulo, na partilha de cargos, os petistas tiveram direito a 17 ministros na Esplanada, o que não é nenhuma ninharia, mas reclamam que nenhum deles tem autonomia para tomar decisões em sua área. O Planalto responde que é assim mesmo: são ministros do governo Dilma e não representantes do partido. Na política econômica, os petistas aplaudiram a queda de juros, mas têm elevado suas queixas contra concessões recentes aos empresários, como desonerações da folha de pagamentos que trouxeram uma redução de tributos, embora nenhuma contrapartida nos investimentos produtivos.
Queixando-se das frequentes desavenças com o Congresso, a presidenta costuma dizer que o PT precisa de um “síndico” para administrar sua bancada na Câmara de Deputados. O PT retruca apontando o dedo para o PMDB. Enquanto o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), propõe a votação de “pautas-bomba”, que têm forte impacto nas contas públicas, como a proposta de passe livre para estudantes no transporte público, os deputados do PT argumentam que os problemas com o Congresso nasceram justamente de uma decisão errada do Planalto, que em negociações realizadas logo depois da posse concordou em entregar aos aliados do PMDB, muito mais interesseiros do que se supunha, o comando do Senado e da Câmara ao mesmo tempo – situação que expõe o PT e o governo às facadas de ex-amigos. Do outro lado da trincheira, o Planalto se queixa de que os parlamentares do PT não deram o devido apoio à proposta de reforma política e ao plebiscito, permitindo a atuação do deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP) em movimentos que esvaziaram as principais ideias da presidenta. Neste caso, os petistas, que em sua maioria apoiam o plebiscito e a reforma política, estão de acordo.

Nesta selva de diferenças e conflitos, a ideia de “Volta, Lula,” é uma conversa que não tem valor de uso real, ao menos pelo momento, mas crescerá sempre que petistas descontentes quiserem atingir Dilma. No momento, no PT e no Planalto cresce a torcida para que novos diálogos entre Dilma e Luiz Inácio Lula da Silva possam levar a um maior entendimento em relação à campanha de 2014. É um esforço delicado por natureza. A intervenção de Lula não pode ser tão pequena a ponto de não produzir efeito. Nem tão grande a ponto de diminuir a presidenta.

Foto: Marlene Bergamo/folhapress
Fotos: Daniel Teixeira/ estadão conteúdo;
Roberto Castro/ ag. istoé; Renato Araújo/ ag. Brasil

O super hormônio

Recentes estudos provam que a melatonina faz muito mais do que ajudar a dormir. Entre outros benefícios, ela auxilia no emagrecimento, combate a diabetes, controla a enxaqueca e protege contra os danos do mal de Alzheimer

Cilene Pereira e Monique Oliveira

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Uma substância fabricada naturalmente pelo organismo está despontando das pesquisas científicas como uma espécie de super-remédio. De acordo com estudos realizados em todo o mundo, a melatonina, hormônio responsável pela indução ao sono, é eficaz contra uma ampla gama de enfermidades. Só para se ter uma ideia, ela ajuda a emagrecer, protege contra os danos causados pelo acidente vascular cerebral, auxilia no controle da hipertensão e da diabetes e reduz as crises de enxaqueca. Um dos últimos benefícios descobertos foi o de diminuir a queda de cabelo provocada por causas genéticas, a alopécia androgenética, conhecida como calvície masculina.
Ainda não se sabe ao certo quais são os mecanismos que levam a esse espectro tão grande de atuação. O que se descobriu recentemente e que ajuda a entender parte desse fenômeno foi que existem receptores sensíveis à ação do hormônio em todo o organismo. Produzida pela glândula pineal – localizada no cérebro – na ausência da luz, até pouco tempo acreditava-se que a substância agisse basicamente sobre os centros cerebrais envolvidos no controle do relógio biológico, estimulando o sono. Por essa razão, suas indicações mais conhecidas eram contra a insônia e outros distúrbios associados ao sono, como o jet lag.
HORMONIO-01-IE-2277.jpg HERANÇA
Regina constatou que o hormônio passa
de mãe para filho pelo leite materno
A descoberta de suas outras funções foi gradativa. Hoje, uma das áreas nas quais é possível encontrar conhecimento mais sólido a esse respeito é a do câncer. A relação entre a melatonina e a doença começou a ser mais investigada quando surgiram indicações de uma associação entre o risco aumentado para a enfermidade e o trabalho noturno. A última delas foi divulgada há poucas semanas na edição online do “British Medical Journal”, uma das mais importantes publicações científicas do mundo. Realizado no Queen’s University, no Canadá, um levantamento mostrou que mulheres que trabalharam em turnos noturnos por mais de 30 anos apresentaram duas vezes mais chances de desenvolver tumor de mama. Outra, divulgada no “American Journal of Epidemiology”, indicou a associação entre homens trabalhadores noturnos a risco elevado para câncer de próstata, pulmão, bexiga, reto, pâncreas e linfoma não Hodgkin. Os resultados levantaram a hipótese de que a ligação entre as duas coisas – trabalho noturno e câncer – fosse a baixa produção de melatonina. “A exposição à luz, mesmo à noite, pode induzir a um desequilíbrio na regulação biológica que propicia o desenvolvimento de tumores”, disse à ISTOÉ a cientista Marie-Élise Parent, que comandou o estudo com os homens.
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Outros experimentos avançaram na elucidação da questão. Apontaram que de fato o hormônio impede o crescimento das células tumorais, e por caminhos diversos. “Ele protege o material genético das células”, afirmou à ISTOÉ Antonio Soriano, da Universidade de Granada, na Espanha, autor de uma revisão recente sobre o tema. Entre outras ações, a melatonina impede que as células sofram com o estresse oxidativo – processo que danifica o DNA – e ajuda a interromper a formação de novos vasos sanguíneos destinados a alimentar o tumor. 
Mecanismos como esses contribuem para explicar, por exemplo, o resultado obtido pelos pesquisadores da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (SP) em relação aos efeitos do composto sobre o câncer de mama. Em animais, a substância reduziu pela metade a forma mais comum da doença. Além disso, o hormônio atenua efeitos colaterais da quimioterapia. Na Universidade de Granada, os cientistas criaram um gel à base de melatonina para proteger as mucosas do aparelho gastrointestinal da inflamação decorrente do uso de quimioterápicos.
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Sua ação sobre doenças neurológicas e psiquiátricas também parece expressiva. O neurologista Mario Peres, da Universidade Federal de São Paulo, concluiu um trabalho no qual ficou demonstrada sua eficácia contra a enxaqueca. O médico comparou por dois anos a eficiência e a tolerabilidade da suplementação de melatonina ao uso da amitriptilina, antidepressivo receitado para prevenção das crises, e ao placebo. Participaram 196 pessoas, com dois a oito episódios de crises por mês. O médico observou redução de 2,7 pontos no uso de analgésicos e na frequência e na intensidade das crises entre os que usaram melatonina; de 2,1 entre os que tomaram amitriptilina; e de 1,1 nos que usaram placebo. “E ela não causou sonolência diurna, ganho de peso, boca seca e outros efeitos observados com o antidepressivo”, explica Peres.
Dos EUA vieram informações sobre efeitos de proteção aos neurônios, algo importante, por exemplo, para impedir mais danos após acidentes vasculares cerebrais. Uma pesquisa da Universidade do Sul da Flórida revelou de que maneira a substância ajuda nessa tarefa. Uma de suas ações é estimular que células-tronco se especializem em neurônios, auxiliando, indiretamente, a repovoar áreas nas quais houve morte neuronal. “A melatonina protege contra danos cerebrais e déficits de comportamento resultantes do acidente vascular cerebral. Por esses motivos, vislumbramos seu uso clínico contra o problema”, disse à ISTOÉ Cesario Borlongan, coordenador do trabalho. Benefícios semelhantes foram observados contra o mal de Alzheimer. Pesquisa da Universidade de Barcelona, feita em cobaias, mostrou que uma dose diária do hormônio, combinada a exercício físico, retardou a progressão da enfermidade. “Os resultados foram extraordinários. O hormônio aumenta a capacidade de o neurônio se defender de danos”, disse à ISTOÉ o fisiologista Dario Acuña Castroviejo, líder do estudo. “Como sua produção natural costuma cair depois dos 40 anos, recomendo a suplementação a partir dessa idade.”
HORMONIO-02-IE-2277.jpg SEM DOR
Pesquisa do neurologista Peres mostrou que a melatonina
diminui a frequência e a intensidade das crises de enxaqueca
Na Itália, há pesquisas em curso a respeito do papel do hormônio sobre a depressão. Sabe-se que, na presença da doença, o ritmo circadiano, mediado pela substância, encontra-se alterado. Um novo tipo de antidepressivo – a agomelatina – entrou no mercado com o objetivo de atuar sobre a melatonina e ajudar a regular o relógio biológico. No Instituto Nacional de Saúde italiano, cientistas buscam entender como o remédio atua. “Há interações que o tornam eficiente. E acredito que os suplementos de melatonina devem ser usados com os antidepressivos, para melhorar a qualidade do sono dos pacientes”, ponderou à ISTOÉ Domenico De Berardis, coordenador do trabalho.
Por se tratar de um hormônio envolvido em operações básicas do organismo, a melatonina também tem ação sobre o metabolismo – propriedade que a torna eficaz para a perda de peso, segundo várias pesquisas. Uma delas foi feita na Universidade de Granada, com animais, e revelou perdas consideráveis entre as cobaias submetidas à suplementação. “O resultado dá suporte à proposta da administração do hormônio para tratar o excesso de peso em humanos”, escreveram os pesquisadores.
Seus colegas italianos identificaram mecanismos pelos quais ocorre o emagrecimento. Segundo experimento da Università Politecnica delle Marche, entre outros efeitos, o hormônio reduz a ingestão de comida porque estimula a atividade de moléculas envolvidas na supressão do apetite. Além disso, outro trabalho, feito também na Itália, demonstrou que a melatonina auxilia no controle da compulsão por comer à noite. Experiência feita com um paciente tratado com a medicação agomelatina terminou com uma perda de 5,5 quilos após três meses de uso. Os desdobramentos desse tipo de estudo ajudarão a entender, por exemplo, por que os obesos têm menos melatonina do que as pessoas com peso normal.
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No Brasil, o endocrinologista Bruno Halpern, coordenador da Liga de Diabetes do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), está concluindo um projeto de pesquisa para investigar como se dá a ação do hormônio sobre a gordura marrom, chamada de gordura que emagrece. Ela se deposita na região do pescoço, abaixo da clavícula e ao longo da espinha e tem como função gerar calor, o que é feito a partir da queima de calorias armazenadas – é por essa razão que leva à perda de peso. “O estudo será feito com pessoas que produzem pouca melatonina. A ideia é comprovar a menor ativação do tecido marrom nessas condições”, diz o médico. Entre os indivíduos com produção reduzida da substância estão aqueles expostos a mais luz à noite.
Já no Instituto de Ciências Biomédicas da USP, os estudos pretendem elucidar como a melatonina influencia o metabolismo energético e repercute na manifestação da diabetes. “Ela potencializa a ação da insulina”, diz o pesquisador José Cipolla. A insulina é o hormônio que possibilita a entrada, nas células, da glicose circulante na corrente sanguínea. Quando sua produção é baixa ou sua atuação é prejudicada, acumula-se açúcar no sangue, caracterizando a diabetes. “A redução da melatonina intensifica o quadro diabético”, completa o cientista brasileiro. Estudo da Universidade de Harvard (EUA), confirma a relação. Foram selecionadas 370 mulheres com diabetes tipo 2 e outras 370 saudáveis. Nas portadoras da enfermidade, os níveis do hormônio eram significativamente menores.
Motivados por evidências como essas, pesquisadores de cinco laboratórios internacionais criaram a rede MELABETES. Uma das metas é aprofundar as investigações, principalmente sobre o que leva alguns pacientes diabéticos a apresentarem menor concentração de melatonina. “Podemos ajudar essas pessoas dando a elas suplementos do hormônio”, explicou à ISTOÉ Ralf Jockers, da Université Paris Descartes, na França, organizador da iniciativa. “Mas isso deve ser feito em conjunto com o médico.”
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No laboratório comandado pela pesquisadora Regina Markus, na USP, descreveu-se que a melatonina pode ser um dos motivos dos benefícios da amamentação. “Encontrei uma maneira de medir sua concentração no leite materno. Descobrimos que uma das principais razões da importância do aleitamento materno é que, por meio dele, a melatonina passa de mãe para filho”, diz Regina.
No Brasil, o hormônio não possui registro de comercialização na Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Mas não é proibido, o paciente pode importá-lo. No entanto, os cientistas defendem sua maior disponibilidade por aqui. “Temos todas as evidências para que ela seja utilizada e vendida no País”, diz Regina Markus. “Ela deveria ser comercializada ao menos como remédio”, diz Mario Peres. “É necessário que seja suplementada no idoso, já que sua produção diminui com a idade”, diz José Cipolla.
HORMONIO-05-IE-2278.jpg ACESSO
O cientista Cipolla defende que seja feita uma
suplementação para as pessoas mais velhas
Por enquanto, não é o que pensa o Conselho Federal de Medicina. A entidade faz uma restrição ao seu uso como recurso antienvelhecimento. Publicou uma resolução na qual determina que “são vedados no exercício da medicina” alguns recursos antienvelhecimento usados “com a finalidade de triagem, diagnóstico ou acompanhamento de doenças relacionadas ao envelhecimento”. Entre eles está a melatonina. O médico que desobedecer a norma pode ser advertido ou até perder o registro profissional. “Não há evidência científica do efeito antienvelhecimento da melatonina. Os estudos são experimentais”, diz Rubens França, membro do CFM.
Na opinião de médicos atualizados, que acompanham de perto os avanços sobre o tema, isso não é verdade. “É o momento de se repensar o potencial terapêutico da melatonina. Ele é muito grande. É hora de reabilitá-la no arsenal de tratamento”, afirma o psiquiatra e psicofarmacologista Sergio Klepacz, de São Paulo, autor do livro Equilíbrio Hormonal e Qualidade de Vida. Na Europa e nos EUA, esse poder já foi reconhecido há algum tempo. No continente europeu, o hormônio é vendido como remédio e, nos Estados Unidos, como suplemento alimentar.
Fotos: Kelsen Fernandes; Gabriel Chiarastelli; PEDRO DIAS/Ag. Istoé; Anderson Christian; Masao Goto Filho /Ag. IstoÉ; Rafael Hupsel/Agência Istoé

Japoneses superlotam piscina para 'combater' calor

Cena foi registrada em parque aquático de Akiruno neste domingo (4).
Cerca de 12 mil pessoas foram ao local se refrescar.

Do G1, em São Paulo
Japoneses superlotaram piscina  neste domingo (4) (Foto: Itsuo Inouye/ AP)Japoneses superlotaram piscina neste domingo (4) (Foto: Itsuo Inouye/ AP)
Por causa da onda de calor, japoneses superlotaram uma piscina de um parque aquático de Akiruno, nos arredores de Tóquio, neste domingo (4).
Cerca de 12 mil pessoas se reuniram na piscina gigantesca para se refrescar do forte calor na cidade.
A onda de calor afeta grande parte do Japão desde 6 de julho. As temperaturas superam os 35 graus em várias cidades das regiões leste, centro e oeste do arquipélago.
Cerca de 12 mil japoneses se refrescam neste dominigo (4) numa piscina de um parque aquático (Foto: Itsuo Inouye/ AP)Cerca de 12 mil japoneses se refrescam neste dominigo (4) numa piscina de um parque aquático (Foto: Itsuo Inouye/ AP)
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