3.18.2018

Vitória de Putin reforça tendência ao mundo multipolar


Igor Fuser (*) – As eleições russas do último domingo, dia 18 de março, ocorreram num contexto marcado pelo fortalecimento da Rússia, sob a liderança do presidente Vladimir Pútin, no cenário geopolítico global. Para dois analistas de política internacional entrevistados pela TV 247 nas vésperas da eleição presidencial russa, em que Pútin foi reeleito com mais de 70% dos votos, pode-se esperar para o futuro imediato a sequência da aproximação entre a Rússia e a China e a tendência de formação de um cenário global multipolar, cada vez mais distante do cenário unipolar do imediato pós-Guerra Fria, no qual os Estados Unidos tentavam consolidar sua posição como única superpotência.
Na avaliação do Prof. Dr. Flávio Rocha de Oliveira, docente do Bacharelado em Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC), a Rússia e a China tendem a consolidar sua aproximação, iniciada há pouco mais de dez anos. "Essa é uma aliança de circunstância que vai se tornando cada vez mais duradoura", afirmou, em entrevista ao programa Geopolítica, da TV 247. "A Rússia e a China compartilham a percepção que estão sofrendo um cerco geopolítico articulado por uma coligação de forças liderada pelos EUA", explicou o professor. "Um sinal de solidez dos laços de cooperação geopolítica entre russos e chineses é que eles compartilham os mesmos aliados", disse.
Para Flávio Rocha de Oliveira, o presidente russo tem plena consciência de que o seu país é o lado mais fraco na aliança com a China, aceitando esse fato como uma circunstância inevitável diante das limitações da economia nacional. "Putin sabe que a Rússia não tem condições de competir com China e EUA pela hegemonia global, mas está convencido de que é capaz de desequilibrar o jogo", afirmou o professor.
Na mesma linha, o pesquisador Túlio Bunder, bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa) e mestrando em Energia na UFABC, enfatizou a estabilidade política da Rússia sob a condução de Pútin desde sua ascensão como primeiro-ministro, em 1999, seguida por vários mandatos como presidente, além de um novo período como primeiro-ministro. Com a nova reeleição, lembrou, Pútin deverá permanecer à frente do Estado até 2024, o que o tornará – salvo algum imprevisto – o segundo mandatário russo mais longevo depois de Josef Stálin, que governou a União Soviética de 1924 a 1953, quando faleceu, num total de 29 anos. Outro líder soviético com longo período no poder, Leonid Brejnev, comandou o país de 1964 a 1982, portanto 18 anos, menos do que o tempo de governo já exercido pelo atual presidente russo.
"A prioridade de Pútin agora será colocar em ordem a economia, ajustar a casa para enfrentar a recessão", avalia Bunder. A Rússia, observou, enfrenta um cenário difícil, com a economia estagnada, as sanções impostas pelos Estados Unidos e os efeitos, ainda não totalmente superados, da queda dos preços do petróleo e do gás natural – principais produtos de exportação do país – a partir de 2014. "Houve uma recuperação dos preços do petróleo, que subiram de 30 dólares o barril para 60 dólares, mas isso ainda é a metade do valor, de 120 dólares, vigente quando as cotações do petróleo no mercado internacional despencaram." Apesar disso, a Rússia mantém taxas relativamente baixas de desemprego, de apenas 5,2%, e inflação de 2,2% no ano passado.
De acordo com o pesquisador, Pútin não tem interesse em endossar a lógica da competição geopolítica com o Ocidente, ou seja, a chamada "nova Guerra Fria", como as autoridades dos EUA têm tentado caracterizar o cenário internacional. "Uma corrida militar com os EUA será muito arriscada para a Rússia", afirmou, ressaltando que o orçamento militar russo já reserva 4,5% das despesas para os armamentos e que um montante maior poderá privar o país dos investimentos necessários para a inovação tecnológica e para garantir as demandas sociais de uma população com crescente proporção de idosos.
Quanto ao atual clima de tensão com o Reino Unido, Bunder acredita que ainda é cedo para avaliar se houve ou não envolvimento russo, mas ressalta o interesse do governo conservador da primeira-ministra Theresa May em explorar o caso com vistas a melhorar sua posição na política doméstica britânica. "Sem dúvida, May atropelou as investigações, anunciando conclusões precipitadas", disse. "O Reino Unido está com a casa dividida, beirando a ingovernabilidade e o caos político." Nesse cenário, acredita ele, a crise diplomática com a Rússia veio a calhar como um meio de desviar as atenções do público e, no plano da política externa, se presta a uma tentativa de deslegitimar a liderança de Pútin às vésperas de uma eleição que tem suas características democráticas contestadas pelo Ocidente.
O programa Geopolítica, da TV 247, vai ao ar todas as quartas-feiras, das 18h30 às 19h30, e pode ser acessado pelo YouTube e pela Facebook.
(*)Igor Fuser é doutor em ciência política pela USP, docente do Bacharelado em Relações Internacionais e na Pós-Graduação em Energia da Universidade Federal do ABC (UFABC) e apresentador do programa Geopolítica, na TV247

4 ANOS DE OPERAÇÃO A maior ameaça à "lava jato" é o fim da prisão antecipada, com ameaça do preso mofar na cadeia, se não contar o que sabe e o que não sabe

  
A maior ameaça à operação "lava jato" não é a possibilidade de um boicote aberto e direto do governo ou de outro poder da República, cujos membros estejam sendo investigados por crimes e irregularidades, mas o fim da prisão após decisão da segunda instância da Justiça, segundo membros da força-tarefa (power point). Para eles, se o Supremo Tribunal Federal rever o fim da prisão antecipada e voltar a aplicar o que diz exatamente a Constituição, estará, na prática, enterrando a lava jato, que age ao arrepio da lei maior.

Nesta sexta-feira (16/3), membros da força-tarefa da "lava jato" falaram sobre a operação após quatro anos de trabalhos. Ainda não prenderam o presidente  Lula. que detém 60 %  dos eleitores,  que segundo a lava jato não fazem parte da sociedade que clama por justiça
PRR-4

Nesta sexta-feira (16/3), os procuradores do Ministério Público Federal que comandam a "lava jato" falaram com a imprensa na sede da Procuradoria Regional da República da 4ª Região (PRR-4), em Porto Alegre, para apresentar um balanço dos quatro anos da operação.
O procurador Deltan Dallagnol, que coordena a força-tarefa da operação em Curitiba, destacou que, "se a prisão for executada após a decisão em segunda instância, nós tendemos a ter um processo e uma resposta à sociedade dentro de um tempo razoável". "Se houver postergação para depois da terceira ou quarta instância, seria o fim da operação lava jato, que age politicamente, blindando os políticos corruptos  do PSDB.
No caso da "lava jato",  um dos modos de se responder à corrupção seria pela via da punição antecipada para o réu com  o instituto da  "delação premiada" para poder livrá-lo da cadeia  e contar o que sabe  e o que não sabe. Este é o grande sucesso da lava jato.,, sem falar do apoio da Grande Imprensa , liderada pela Rede Globo, onde o juiz que grampeia uma presidenta da república e divulga com exclusividade no horário nobre. 
Para Dallagnol (dr. power point) de pouco adianta instituições fortes sem instrumentos adequados para combater a corrupção. No cenário atual, entende o procurador, a operação "tira água de pedra", pois é um caso excepcional em que oferece respostas ao arrepio das leis, onde uma pessoa só pode ser presa quando houver provas e não convicção.
"Nós precisamos atacar a corrupção mudando esse sistema de Justiça, que privilegia a impunidade. Precisamos agir em diversas frentes: reforma no sistema político, melhora nos sistema de licitações, transparência, participação da sociedade no controle das contas públicas e não partidarização do judiciário que privilegia alguns partidos de direita e a fim dos monopólios da comunicação.

Prestação de contas
A primeira fase da "lava jato" foi deflagrada em 17 de março de 2014, em Curitiba, com uma investigação sobre a atuação de quatro doleiros: Nelma Kodama, Raul Srour, Alberto Youssef e Carlos Habib Chater. A operação ficou sob a competência da 13ª Vara Federal Criminal do Paraná devido aos crimes de lavagem de dinheiro cometidos por Youssef em benefício de empresa com sede em Londrina (PR). Essa empresa era de propriedade do ex-deputado federal José Janene (PP-SP), morto em 2010.
Com o avanço das investigações e a deflagração de novas fases, descobriu-se a ligação do doleiro com o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa e, consequentemente, um esquema de corrupção instalado na estatal. Diretores recebiam propina para fraudar licitações e superfaturar obras em benefício de cartel de empreiteiras, além encaminhar recursos ilícitos a agentes políticos e partidos.
O andamento da operação revelou que os desvios de recursos públicos ocorreram em diversos órgãos e empresas públicas, como Eletronuclear, Ministério do Planejamento e Caixa Econômica Federal, e em obras como a Ferrovia Norte-Sul, em Goiás, e a construção da Usina de Belo Monte, no Pará.
A celebração de acordos de colaboração foi essencial para a descoberta dos crimes: 187 foram firmados, sendo que 84% deles foram feitos com investigados em liberdade.
Outros 11 acordos de leniência com pessoas jurídicas e um Termo de Ajustamento de Conduta também foram celebrados no âmbito da "lava jato". Por meios dos acordos de colaboração e de leniência, está prevista a recuperação de cerca de R$ 12 bilhões para os cofres públicos. Desse total, R$ 1,9 bilhão já foi devolvido.
Em quatro anos, ainda foram registrados 395 pedidos de cooperação internacional envolvendo 50 países, sendo 215 pedidos ativos (feitos pelas autoridades brasileiras) para 42 países e 180 pedidos passivos (recebidos do exterior) de 31 países.
O grande estrago feito por esta operação foi na economia do pais, parando obras , destruindo a industria naval, desempregando trabalhadores, deixando o pais com 14 milhões de desempregados. 

Vereadora assassinada no RJ não foi casada com traficante e não tinha ligação com facção



Boatos sobre a parlamentar começaram ser espalhados via  e mentiras após a comoção por sua morte no Brasil e no mundo

Vereadora Marielle Franco  Foto: Divulgação / Facebook
A morte da vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco , executada a tiros no centro da capital carioca na última quarta-feira (14/3), gerou revolta e comoção nacional, bem como manifestações de tristeza e preocupação com a possibilidade de ter se tratado de um crime político.
Por outro lado, também se espalhou com rapidez informações falsas sobre a parlamentar na internet, especialmente via grupos do aplicativo de mensagens WhatsApp. Uma corrente que viralizou diz que a vereadora foi casada com um traficante, que engravidou quando tinha 16 anos e que tinha associação com o Comando Vermelho, uma das facções criminosas do Rio de Janeiro.
Apesar de terem sido amplamente reproduzidas nas redes sociais, inclusive por uma desembargadora do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e pelo deputado federal Alberto Fraga (DEM-DF), as informações são falsas.
Segundo o site aosfatos.org, especializado em checar a veracidade de informações difundidas via internet, a vereadora tinha 38 anos e uma filha de 19, ou seja teria ficado grávida entre os 18 e 19 anos e não aos 16 como diz a mensagem.
Ainda segundo a informação falsa, Marielle teria sido casada com o traficante Marcinho VP o que também nunca aconteceu. Existem dois criminosos que usavam este mesmo nome, um deles morreu em 2003 no presídio Bangu 3, onde estava preso desde 2000, e o outro está preso desde 1997. Na verdade, o estado civil da vereadora era solteira e ela vivia com sua companheira e filha.
Por fim, não existe qualquer comprovação da ligação de Marielle com o Comando Vermelho ou como diz a mensagem, “que ela teria sido eleita” pela facção. O CV de fato domina parte do complexo da Maré, onde a vereadora se criou, mas a comunidade sequer representa maioria dos votos recebidos pela parlamentar nas eleições de 2016.
Segundo levantamento, o eleitorado dela se concentrou sobretudo nas zonas eleitorais do Leblon e da Gávea, de Copacabana e de Copacabana, Ipanema e Lagoa.
Trajetória
Eleita com 46,5 mil votos, a quinta maior votação para vereadora nas eleições de 2016, Marielle Franco estava no primeiro mandato como parlamentar. Oriunda da favela da Maré, zona norte do Rio, Marielle tinha 38 anos, era socióloga, com mestrado em Administração Pública e militava no tema de direitos humanos.
A parlamentar também chegou a denunciar, em suas redes sociais, no fim de semana, uma ação de policiais militares na favela do Acari. “O 41º Batalhão da Polícia Militar do Rio de Janeiro está aterrorizando e violentando moradores de Acari. (…) Acontece desde sempre e com a intervenção ficou ainda pior”, escreveu.
Há duas semanas, Marielle havia assumido relatoria da Comissão da Câmara de Vereadores do Rio criada para acompanhar a intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro. Ela vinha se posicionando publicamente contra a medida.
Marielle foi morta a tiros no bairro do Estácio, região central da capital carioca, na noite desta quarta-feira (14). Ela estava dentro de um carro acompanhada de um motorista, que também foi morto, e de uma assessora, quando teria sido abordada por outro veículo.
A morte violenta da vereadora chocou o país e também teve repercussão internacional. Diversas personalidades políticas e da mídia se manifestaram em solidariedade à família e para que uma investigação seja feita o mais rápido possível.   

O que o suor revela sobre nossas emoções


O seu suor contém pequenos traços de metais como zinco e magnésio
O que o suor revela sobre nossas emoções
Mas McSwiney sabia que o fenômeno tinha mais do que essa finalidade e que substâncias presentes no organismo também eram perdidas no processo.
Algumas delas nós não gostaríamos de perder, como os cloretos. Essas moléculas, formadas por átomos de cloro ligados aos de sódio para formar sais, são fundamentais para manter o equilíbrio do pH interno do corpo, regulando o movimento dos fluidos para dentro e fora das células e transmitindo impulsos através dos tecidos nervosos.
É normal que alguns cloretos sejam eliminados na transpiração, mas há casos em que uma pessoa pode perdê-los em excesso.
Quando somos submetidos a situações prolongadas de calor, sabemos que é preciso tomar bastante água para se manter hidratado. Mas o excesso de líquidos, aliado à sudorese, pode levar a sintomas de intoxicação por água – isso significa que o corpo não consegue repor os cloretos perdidos no suor com a mesma velocidade.
Na transpiração ainda está presente a ureia, um subproduto do organismo que também é eliminado na urina. Cientistas estimam que um adulto perca entre 600 e 700 mililitros de líquidos diariamente através do suor – 7% da eliminação diária de ureia.
Mas o suor ainda contém amônia, proteínas, açúcares, potássio e bicarbonato. Isso sem falar em vestígios de metais, como zinco, cobre, ferro, níquel, cádmio, chumbo e manganês. A transpiração é um importante mecanismo de excreção desses metais.
O suor deixa o corpo através de dois tipos de glândulas. As glândulas sudoríparas apócrinas são encontradas nas axilas, narinas, mamilos, orelhas e partes dos genitais. Já as glândulas sudoríparas écrinas são muito mais comuns – milhões delas estão distribuídas pelo corpo humano, exceto nos lábios e nos genitais.
Quando o organismo e a pele se aquecem demais, os termoreceptores enviam uma mensagem ao cérebro. Ali, o hipotálamo – um pequeno amontoado de células que controla a fome, a sede, o sono e a temperatura corporal – manda uma mensagem para as glândulas sudoríparas, que começam a produzir o suor.
Também existe um terceiro tipo de glândula sudorípara, descoberto apenas em 1987, as chamadas glândulas apoécrinas. Para os cientistas, elas são écrinas que de alguma maneira se modificaram na puberdade.
Ferramenta de comunicação
Mas nem tudo o que transborda em nosso suor é químico em sua natureza. Muita gente já experimentou a sensação de transpirar ao comer algo picante. Outras pessoas conhecem o que é suar por medo, vergonha, ansiedade ou dor.
Não é à toa que as palmas das mãos, a testa e as solas dos pés são normalmente associados à transpiração emocional: é nessas regiões que as glândulas écrinas estão mais concentradas – até 700 delas por centímetro quadrado de pele (as costas, em comparação, têm 64 glândulas por centímetro quadrado).
Cientistas descobriram que o suor induzido por emoções é uma importante ferramenta de comunicação. Na realidade, os odores que detectamos na transpiração podem nos dizer muito sobre o que outros estão sentindo.
Em uma experiência, um grupo de psicólogos da Universidade de Utrecht, na Holanda, coletou amostras de suor de dez homens enquanto eles assistiam a vídeos que evocavam sensações de medo (trechos do filme O Iluminado, de Stanley Kubrick) ou nojo (trechos da série Jackass, da MTV).
Em seguida, os pesquisadores pediram para 36 mulheres dizerem se podiam detectar alguma "pista" emocional nas amostras de suor.
Resultado: quando expostas às amostras de "suor de medo", as mulheres também demonstraram medo em seus rostos, enquanto fizeram expressão de nojo quando expostas ao suor oriundo daquela sensação.
Para os cientistas, isso sugere que o suor pode ser um meio eficiente de transmitir um estado emocional de uma pessoa para outra.
Anterior à linguagem
Padrões semelhantes foram observados em outros experimentos. Em 2006, psicólogos da Universidade Rice, nos Estados Unidos, descobriram que as pessoas expostas a amostras de suor de doadores que sentiam medo se saíam melhor em alguns testes de inteligência do que quando as amostras não continham suor
O sinal de medo provavelmente as tornou mais alertas em relação a seu entorno.
Em 2012, psicólogos e psiquiatras da State University de Nova York extraíram o suor das camisetas de 64 doadores. Metade deles tinha acabado de saltar de paraquedas pela primeira vez, enquanto a outra metade fez exercícios extenuantes.
Quem cheirou o suor dos paraquedistas ficou alerta diante de rostos com expressão irritada, mas também diante de rostos com expressões neutras e ambíguas. O grupo que sentiu o odor da outra metade de voluntários ficou mais alerta apenas ao ver rostos irritados, o que é esperado em qualquer circunstância.
Para os cientistas, foi uma demonstração do que chamaram de vigilância: o suor induzido pela queda livre induziu os participantes a ficarem atentos a qualquer possível "pista social", o que talvez não ocorreria em outra situação.
Outro experimento realizado por psicólogos e neurocientistas alemães com homens ansiosos fez mulheres que sentiram o suor deles tomarem decisões mais arriscadas em um jogo de computador formulado para avaliar esse comportamento

Nenhum desses estudos indica se as pessoas perceberam que o suor de outras alterou seu próprio comportamento, mas eles sugerem que, ao menos em alguns casos, a transpiração pode comunicar informações importantes sobre nosso estado mental. As pesquisas também indicam que usamos essas informações para entender melhor nosso entorno.
Talvez isso não seja uma surpresa. Nossa espécie pode ser adaptada para a comunicação verbal e linguística, mas a linguagem verbal é uma ferramenta relativamente nova para nós.
Parece razoável imaginar que nossos ancestrais tiravam partido dessas informações olfativas e nos transmitiram essa habilidade.
De fato, somos melhores em identificar emoções em humanos virtuais em uma tela de computador quando a animação os mostra transpirando.
E não só isso: a transpiração parece permitir que as pessoas percebam a intensidade de uma determinada emoção. O suor não é apenas um sinal olfativo, mas também visual.
No fim, o suor é mais do que simplesmente o ar-condicionado do corpo. Ele pode também ser uma sonda emocional, usada para anunciar nossos mais íntimos sentimentos às pessoas ao nosso redor.
Fonte: BBC BRASIL

O homem que não consegue sentir emoções


Homem com eletrodos (Foto: Thinkstock)Direito de imagem




THINKSTOCK
Image captionPara quem não é capaz de sentir emoções, a expressão de sentimentos parece uma 'produção teatral'
Caleb me conta sobre o nascimento de seu filho, agora com 8 meses. "Sabe como outros pais descrevem a sensação de ser tomado por um sentimento de alegria e afeto ao verem seus bebês pela primeira vez? Não senti nada disso", confessa.
O dia de seu casamento também lhe pareceu desinteressante. "Para mim, era como uma produção teatral, algo mecânico", admite Caleb, cujo sobrenome ele não quis revelar.
Caleb afirma que quase não sente nenhum tipo de emoção, seja ela boa ou ruim. Eu o conheci em um fórum na internet para pessoas que sofrem de alexitimia, um tipo de "cegueira emocional" que as impede de perceber ou expressar os vários sentimentos que normalmente enfeitam nossas vidas.
O distúrbio é identificado em 50% dos pacientes com autismo, mas muitos "alexes", como eles gostam de se chamar, não apresentam nenhum outro componente do problema, como o comportamento compulsivo ou repetitivo.
Descobrir a fundo tudo o que envolve a alexitimia pode ajudar cientistas a entender melhor muitas doenças graves, da anorexia e da esquizofrenia à dor crônica e à síndrome do intestino irritável.

Camadas de sentimentos

Para entender essa paralisia emocional, pense nas emoções como uma espécie de boneca russa, formada por várias camadas, cada uma mais complexa do que a outra.
No centro de tudo está uma sensação física. Pode ser a aceleração do coração quando se encontra a pessoa amada ou o estômago apertado quando se está com raiva.
Arte do cérebro (Foto: Thinkstock)Direito de imagemTHINKSTOCK
Image captionCientistas acreditam que a paralisia emocional pode ser causada pela falta de conexão entre partes do cérebro
O cérebro pode, então, catalogar esses sentimentos para que você saiba se é algo bom ou ruim, forte ou fraco. As sensações começam a tomar forma e surge uma representação consciente da emoção. No fim, conseguimos atribuir palavras a elas.
Quando a alexitimia foi classificada pela primeira vez, em 1972, cientistas acreditavam que o problema estava nessa última fase de verbalização. Para eles, haveria uma falha na comunicação entre os dois hemisférios do cérebro, impedindo que os sinais das regiões emocionais, localizadas predominantemente no lado direito, chegassem às áreas de linguagem, do lado esquerdo.
"Você precisa dessas transferências emocionais para poder verbalizar o que está sentindo", afirma Katharina Görlich-Dobre, pesquisadora do Departamento de Neurologia do Hospital Universitário de Aachen, na Alemanha.
Ao fazer imagens de ressonância magnética do cérebro de vítimas da alexitimia, a cientista descobriu que elas apresentam conexões inesperadamente densas nessa ponte neural. Para Görlich-Dobre, isso pode contribuir para que uma interferência impeça o cruzamento dessas informações emocionais.
Hoje, no entanto, está cada vez mais claro para os especialistas que existem muitos tipos de alexitimia. Enquanto alguns indivíduos têm dificuldade de expressar suas emoções, outros, como Caleb, não têm nem consciência destes sentimentos.
O psiquiatra Richard Lane, da Universidade do Arizona, acredita que uma explicação para o distúrbio é o fato de o circuito neural envolvido no processamento de emoções estar danificado, impedindo sentimentos como a tristeza, a raiva e a alegria de chegarem à consciência. "Talvez a emoção esteja ativada e a pessoa até tenha uma reação física a ela, mas não está ciente disso", explica.

Problema de percepção

Alguns estudos recentes que usaram ressonância magnética para mapear o cérebro de vítimas do distúrbio, encontraram sinais de um problema básico de percepção. Görlich-Dobre descobriu menos massa cinzenta em áreas do giro do cíngulo, a região cerebral que controla a autoconsciência. Isso poderia bloquear uma representação consciente das emoções.
Já André Aleman, da Universidade de Groningen, na Holanda, detectou falhas em áreas associadas à atenção quando alexitímicos observavam imagens carregadas de conteúdo emocional. "Era como se seus cérebros não estivessem registrando os sentimentos", explica.
O próprio Caleb descreve uma "desconexão da consciência" que impede que as emoções cheguem à sua mente. "Quanto mais intensa a emoção que eu deveria estar sentindo, mais meu pensamento fica claro e eu me torno mais analítico", conta.
Para ele, sua situação tem um lado ligeiramente positivo: o de poder lidar melhor com procedimentos médicos, sem sentir medo nem ansiedade.

Curto-circuito neural

Homem com expressão de dor (Foto: Thinkstock)Direito de imagemTHINKSTOCK
Image captionA alexitimia costuma vir associada a outras doenças, como a esquizofrenia
A alexitimia aparentemente está associada a várias outras doenças, como esquizofrenia e distúrbios alimentares, talvez porque as emoções normalmente nos levam a cuidar melhor de nossa saúde física e mental.
Entender melhor o problema poderia ajudar cientistas a encontrar soluções para essas outras doenças e ainda para o autismo. Também seria possível estudar mais a fundo os chamados "distúrbios psicossomáticos", como a dor crônica ou a síndrome do intestino irritável, que parecem ser comuns em pessoas com alexitimia.
Para Lane, essa associação ocorre por causa de uma espécie de "curto-circuito" no cérebro, criado pela cegueira emocional. Segundo o psquiatra, normalmente a percepção consciente das emoções ajuda a amortecer as sensações físicas associadas aos sentimentos. "Você pode conscientemente processar e permitir que o sentimento evolua", explica. Mas sem essa válvula de escape, a mente fica presa nas sensações físicas, potencialmente ampliando as respostas.

Em busca das emoções perdidas

Caleb espera que um dia especialistas consigam encontrar a origem da alexitimia e impedir que seus efeitos aumentem. Ele acredita que seu problema tem origem genética, mas o distúrbio também pode estar associado à maneira como alguém é criado e educado. Outras vezes, um trauma pode ter desligado a capacidade de processar algumas emoções.
Na infância, Patrick Dust, um dos pacientes de Lane, foi vítima de violência e abusos por parte de seu pai alcoólatra. Mesmo décadas depois de ter saído de casa com a mãe, ele tinha dificuldade de interpretar e entender suas emoções, particularmente o medo e a raiva. Segundo ele, isso o levou a sofrer de fibromialgia (dores crônicas e contrações por todo o corpo) e um distúrbio alimentar.
Com a ajuda do psiquiatra, Dust conseguiu rever o passado e se reconectar com emoções que ele havia deixado "trancadas". Isso o ajudou a aliviar os problemas de saúde de que sofria.
Caleb também passou a fazer terapia comportamental cognitiva para tentar melhorar seu entendimento social e a fazer um esforço consciente para relacionar suas reações físicas a emoções.
Caleb pode não ter sido transportado ao paraíso no dia de seu casamento ou do nascimento do filho, mas ele passou a maior parte de sua vida olhando para dentro, esforçando-se para sentir e entender suas sensações e as das pessoas à sua volta.
"A cegueira emocional não nos torna indiferente, cruel ou egoísta. É possível estar desconectado de sentimentos sem ser uma pessoa fria ou um psicopata", define ele.
Leia a versão original desta reportagem em inglês no site BBC Future.