Rio - Com base nas estimativas de câncer para 2012, o Instituto
Nacional do Câncer (Inca) divulgou ontem, no dia mundial sem tabaco, que
37% dos casos da doença previstos para este ano têm relação com o
tabagismo. Quando avaliados por região, os percentuais dos cânceres
causados pelo tabaco, comparados com todos os casos novos para esse ano
são: 45 % nas mulheres e 34% nos homens do Norte; 38% nas mulheres e 33%
nos homens do Nordeste; 40% nas mulheres e 35% nos homens do
Centro-Oeste; 33% nas mulheres e 38% nos homens do Sudeste e 35% nas
mulheres e 43% nos homens do Sul. Se for considerada a expectativa de
vida de 80 anos, os homens do Sul do país podem perder até dez anos de
vida devido aos tumores relacionados ao fumo.
Neste dia mundial
sem tabaco, o tema “Fumar: faz mal pra você, faz mal pro planeta” foi
adaptado da proposta da Organização Mundial da Saúde (OMS) para a
realidade do país enfocando os danos causados pela cadeia de produção do
tabaco e os malefícios à saúde da população. Segundo dados da OMS, o
tabaco mata cerca de seis milhões de pessoas por ano e, desses, cinco
milhões são fumantes e ex-fumantes, mas aproximadamente 600 mil são
fumantes passivos. Uma pessoa morre a cada seis segundos em decorrência
do fumo e metade dos usuários atuais vai morrer por alguma doença
relacionada ao tabaco. O fumo é a maior ameaça à saúde pública que o
mundo já enfrentou. No Brasil, dados do Ministério da Saúde apontam
18,8% de fumantes — 22,7% homens e 16% mulheres.
Segundo pesquisa
da organização não-governamental (ONG) Aliança de Controle ao Tabagismo
(ACT), as doenças causadas pelo cigarro custam R$ 21 bilhões.
Considerando que o setor do tabaco pagou, em 2011, R$ 6,3 bilhões em
impostos federais, segundo a Receita Federal, o país gasta cerca de três
vezes e meia mais do que arrecada com cigarros e outros produtos de
tabaco. Esse montante equivale a 0.5% do PIB do país em 2011.
Hábito precoce
Segundo
o pneumologista e sanitarista Alberto José de Araújo, diretor do Núcleo
de Estudos e Tratamento do Tabagismo e presidente da Comissão de
Tabagismo da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT),
quem fuma geralmente tem contato com o primeiro cigarro entre 12 e 14
anos, e 80% desses adolescentes já são dependentes aos 18 anos. Quanto
mais cedo se começa, quanto maior a quantidade de cigarros e quanto mais
envolvidos os aspectos emocionais e comportamentais, mais difícil é
parar de fumar.
— A nicotina, principal substância do cigarro, é
considerada a dependência química mais forte, levando em conta drogas
lícitas ou não. E essa dependência se estabelece de forma muito rápida
entre a experimentação e a entrada na rotina do indivíduo. Por isso é
mais fácil parar se o fumante encarar a dependência como doença e contar
com ajuda para combater o vício — explica. — Fumar é também um hábito,
um vício, mas é acima de tudo uma doença.
TESTE: Avalie seu grau de dependência pela Escala de Fageström
Depois
de entender a doença, o ideal é procurar um médico para testar o grau
de dependência, fazer algumas avaliações de motivação, conversar sobre
que condições e doenças podem melhorar com o abandono do cigarro e, por
fim, marcar uma data para parar de fumar.
— Isso é muito
importante psicologicamente e é fundamental pensar na data, não no que
vem depois. Quem marca a data para os 30 dias seguintes está mais
pronto, de acordo com a nossa experiência — diz o médico.
Daí em
diante, para amenizar os sintomas de abstinência das primeiras duas
semanas (sudorese, dor de cabeça, alterações de humor e no ritmo
cardíaco, em alguns casos até depressão) os especialistas recomendam o
uso de repositores de nicotina em adesivo, goma de mascar, pastilha ou
comprimido, de acordo com o histórico de cada paciente.
Recaídas e aumento de peso
Do
total de fumantes que fazem tratamento para deixar o cigarro, cerca de
30% recaem e cerca de 60% das recaídas acontecem nos três primeiros
meses de tratamento. Vencida esta etapa, o índice cai para 17% a 20% no
período de um ano e para 1,5% após 12 meses, segundo dados de um estudo
com 820 pacientes em tratamento, realizado pelo Programa de Assistência
ao Fumante (PAF), coordenado pela cardiologista Jaqueline Scholz,
diretora do Programa Ambulatorial de Tratamento do Tabagismo do
Instituto do Coração (Incor), que analisou dados de 2008 e 2009 dos
pacientes e apresentou as conclusões em março, no congresso da Sociedade
para Pesquisa de Nicotina e Tabaco, nos Estados Unidos.
De 568
pacientes acompanhados durante um ano, 73% ganharam em média 5kg, 17%
mantiveram o patamar inicial e 10% ficaram mais magros. Mas 85% dos
pacientes disseram que deixar de fumar melhorou sua condição clínica e
qualidade de vida, segundo a cardiologista.
Eventos pelo país
Nesta
quinta-feira, das 12h às 14h, em frente à Prefeitura do Rio, uma
mobilização da Sociedade Brasileira de Cardiologia incentivará fumantes a
trocar um maço de cigarros por frutas. Em São Paulo, duas mil flores
serão distribuídas a fumantes que entregarem seus maços de cigarro aos
profissionais do Centro de Referência em Álcool, Tabaco e outras Drogas
(Cratod) no vão livre do Masp, das 10h às 15h. Quem passar pelo local
poderá fazer avaliação odontológica para identificação de possíveis
lesões causadas pelo cigarro e testes específicos, como a monoximetria,
para avaliar o índice de monóxido de carbono no pulmão de tabagistas. As
pessoas que apresentarem alto risco de dependência serão encaminhadas a
serviços especializados para tratamento gratuito. Mais tarde o Cristo
Redentor será iluminado nas cores vermelho e branca numa parceria entre o
Inca e a Arquidiocese do Rio.