12.15.2012

Dormir bem não é um sonho



Odontologia, em conjunto com a Medicina do Sono, atua no tratamento dos distúrbios do sono, problemas que afetam quase metade da população mundial.


De acordo com a Associação Mundial de Medicina do Sono, 45% da população mundial sofre com algum problema relacionado ao sono. Insônia, sonolência diurna, síndrome das pernas inquietas, sonambulismo, ronco e apnéia são alguns dos males mais comuns. Além de prejudicar o sono, estes distúrbios afetam a saúde geral do organismo. Este período de descanso é fundamental para o organismo, pois é o momento em que os órgãos se recuperam do esforço realizado, a memória se consolida, o sistema nervoso central amadurece e ocorrem as funções ligadas ao metabolismo anabólico.
O ortodontista e ortopedista facial Gerson Köhler, com atuação - de forma interdisciplinar - no tratamento  dos distúrbios obstrutivos do sono, explica que passamos um terço da vida dormindo e este é responsável pela qualidade de vida dos dois terços que passamos acordados. “Estes distúrbios aumentam o risco de doenças crônicas, como obesidade, hipertensão e problemas cardiovasculares. O mais perigoso é a apnéia obstrutiva do sono, caracterizada pela interrupção da respiração durante alguns segundos em episódios que se repetem durante toda a noite”, ressalta.
A apnéia obstrutiva do sono reduz a oxigenação do cérebro, impede a progressão do sono para as suas fases mais profundas e provoca sintomas - além dos cardiovasculares - tais como depressão, ansiedade, impotência sexual, sudorese noturna, dores de cabeça e redução da libido. “A entrada de ar pode ser interrompida totalmente ou o seu fluxo ser reduzido de 30% a 50%. Sem o tratamento adequado, as consequências da apnéia podem - inclusive - causar a morte do indivíduo”, destaca Juarez Köhler, especialista em Ortodontia e Ortopedia facial e membro da Associação Brasileira de Sono.
Os dois profissionais esclarecem que vários fatores podem ser responsáveis pelo desencadeamento dos distúrbios. As principais causas são flacidez na musculatura da garganta e da boca, hipertrofia das amídalas, sinusite, rinite, desvio do septo nasal, obstruções nasais, queixo retraído, palato mole e o envelhecimento. “Outras causas aumentam as chances da apnéia surgir, como a obesidade, o uso de medicamentos para dormir, consumo de bebidas alcoólicas, tabagismo, refluxo esofágico, ingestão em excesso de comida antes de deitar, pescoço curto e grosso e envelhecimento”, observa Gerson.
O ronco é o sintoma que denuncia a presença da apnéia. O barulho, que incomoda quem dorme ao lado, é causado pelo estreitamento ou obstrução das vias respiratórias superiores. O ar tem dificuldade para passar no canal mais estreito, provocando a vibração das estruturas. “O diagnóstico é realizado com o suporte da polissonografia, uma avaliação que verifica diversos parâmetros do corpo durante o sono. O exame apresenta informações sobre os batimentos cardíacos, o esforço respiratório, os potenciais elétricos da atividade cerebral e a saturação de oxigênio no sangue”, aponta Juarez.
O tratamento dos distúrbios do sono é personalizado, isto é, depende da gravidade do caso de cada paciente. As indicações são uso de respiradores artificiais, cirurgia, utilização do CPAP – uma espécie de máscara de ar, e o uso de aparelho intrabucal - uma órtese que libera a passagem de ar pela orofaringe -  durante a noite. “O dispositivo bucal é a estratégia mais discreta e sua eficácia é comprovada. Ele facilita a passagem do fluxo de ar em direção aos pulmões e a adaptação é mais fácil. Todo o tratamento deve ser feito em parceria entre os profissionais da Medicina do Sono e da Odontologia do Sono”.


Distúrbios do sono podem atingir crianças
Não existe idade para ser acometido pelos distúrbios do sono. Na infância, os prejuízos à saúde são ainda mais preocupantes. A interrupção da respiração e a fragmentação do sono afeta a liberação do hormônio do crescimento e o crescimento corporal - e facial - pode ficar alterado. “As anomalias dentofaciais, que afetam a boca e todo o seu conteúdo, também estão diretamente ligada aos distúrbios do sono, por causa da respiração bucal que se instala . Independente da idade, é imprescindível ficar atento aos sintomas e buscar ajuda especializada”.
Os pais de crianças devem ficar atentos aos sintomas noturnos e diurnos relacionados aos distúrbios do sono.

Sintomas noturnos:
- Roncos;
- Posições inadequadas ao dormir;
- Boca aberta com salivação;
- Dificuldade para acordar;
- Queixas de cansaço ao levantar da cama;
- Despertares frequentes durante a noite;
- Insônia;
- Enxaquecas;
- Movimentos excessivos de braços e pernas;
- Sonambulismo, falar durante o sono e terror noturno;
- Interrupções da respiração durante o sono;

Sintomas diurnos:
- Dores de cabeça matinais;
- Respiração bucal;
- Rosto com ar de cansado;
- Olheiras;
- Sonolência;
- Fadiga;
- Problemas comportamentais, como hiperatividade, agressividade e irritabilidade;
- Dificuldades de concentração e aprendizado;
- Desempenho escolar ruim;
- Problemas de memória.

No caso das crianças, uma das intervenções mais importantes é o retreinamento da respiração. O ar deve entrar pelo nariz e ser expirado pela boca. As questões anatômicas do rosto infantil devem ser consideradas no diagnóstico dos distúrbiosdo sono para que o problema seja terapeuticamente bem administrado. “O tratamento é interdisciplinar e conta com a atuação de ortodontistas, ortopedistas faciais, otorrinopediatras, pediatras, fonoaudiólogos mioterapeutas e médicos do sono”.


  Gerson Köhler

12.14.2012

Em reação a Valério, governistas resgatam lista de Furnas


O empresário Marcos Valério. Foto: Marcelo
A divulgação, na terça-feira 11, de partes do depoimento de Marcos Valério, condenado a mais de 40 anos de prisão pelo Supremo Tribunal Federal como operador do “mensalão”, à Procuradoria-Geral da República causou um efeito cascata no Congresso.
A tentativa do publicitário de envolver o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no esquema de compra de votos instigou a oposição a pedir ao Ministério Público uma investigação contra o petista, o que levou a base governista a ressucitar a Lista de Furnas para atacar o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
Em seu depoimento, Valério afirmou ter repassado recursos para a conta da empresa de um ex-assessor de Lula. O dinheiro, afirmou, seria usado para pagar contas pessoais. A informação foi publicada pelo jornal O Estado de S.Paulo. O ex-mandatário também teria dado o “ok” para a realização dos empréstimos irregulares que alimentaram o “mensalão”.
A oposição aproveitou o caso para, na quarta-feira 12, protocolar uma representação pedindo que o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, apure as acusações. “O Sr. Marcos Valério Fernandes de Souza denunciou formalmente o ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, afirmando que o mesmo era o verdadeiro chefe da organização criminosa que operou o “mensalão”, beneficiando-se inclusive pessoalmente dos recursos roubados”, diz o documento assinado por parlamentares do PSDB, DEM e PPS.
Lula chamou a declaração de “mentirosa” e a presidenta Dilma Rousseff as classificou como “lamentáveis”. Ministros e parlamentares petistas saíram em defesa do ex-presidente, apontando atos falhos na versão do publicitário, entre eles o de ter deixado o gabinete da Casa Civil ao lado de José Dirceu para “subir” à sala de Lula, no Palácio do Planalto, para receber o “ok” para as fraudes. A sala citada fica no andar de baixo.
Mesmo assim, o bloco liderado pelos tucanos chegou a ensaiar a convovação de Valério ao Congresso. A base governista conseguiu adiar a votação na Comissão de Constituição e Justiça do Senado. E, para contratacar, aprovou um convite para FHC explicar no Congresso as doações da Lista de Furnas.
O requerimento do deputado Jilmar Tatto, líder do PT, na Comissão de Controle das Atividades de Inteligência do Congresso, ganhou apoio do ex-presidente e senador Fernando Collor de Mello (PTB-AL), que conseguiu convidar Gurgel. Mas o procurador-geral falará sobre a integração de órgãos de inteligência em investigações, como a Operação Monte Carlo. “Se eles querem guerra, vão ter”, disse Tatto na saída da reunião.
Convidar FHC é um ato simbólico para reagir às movimentações contra Lula. Mas nem FHC nem Gurgel precisam comparecer, pois foram apenas convidados e não convocados.
De qualquer forma, a oposição sustenta que a Lista de Furnas é falsa e surgiu durante a CPI dos Correios, em 2005, quando o PT eram alvo por causa do “mensalão”. A Polícia Federal, no entanto, atestou sua veracidade em 2006, conforme mostrou CartaCapital.

Leia mais: 
BH, a capital do ‘caixa 2′
                
O argumento da fraude caiu

O documento indica um esquema montado durante o governo de FHC para abastecer a campanha eleitoral do PSDB em 2002. A empresa Furnas Centrais Elétricas realizou doações suspeitas a políticos da base daquela administração. A lista tem 156 políticos da atual oposição, a maioria do PSDB, que teriam sido beneficiados com transferências de caixa dois. Entre eles José Serra, Eduardo Azeredo e Aécio Neves.
Os esforços para desqualificar o documento persistem até hoje. No início de 2012, o PSDB contratou o perito norte-americano Larry F. Stewart por 200 mil reais para avaliar a autenticidade da lista. O ex-integrante do serviço secreto dos Estados Unidos entendeu que o documento foi fabricado com base em colagens sobre folhas distintas, colocando depois os nomes da oposição, assinaturas e rubricas falsas. Segundo ele, as assinaturas do então presidente de Furnas Dimas Fabiano Toledo também foram coladas e falsificadas. A análise será utilizada como argumento no julgamento do “mensalão mineiro”, no STF.
O perito, no entanto, foi afastado do serviço secreto e preso em 2004 sob suspeita de ter cometido perjúrio em uma corte de Nova York no caso que mandou a apresentadora de televisão Martha Stewart para a cadeia. No julgamento, Larry F. Stewart testemunhou pela acusação sobre um teste de tinta que apontou que a apresentadora e seu operador de ações tentaram encobrir seus vestígios semanas após ela vender ações de uma empresa supostamente após ter recebido uma dica ilegal no mercado financeiro. Ele foi acusado de exacerbar seu papel na condução dos testes, que teriam sido feitos por uma assistente.
A lista veio a tona em 2006, por meio do lobista Nilton Monteiro. O documento, assinado por Toledo e Monteiro, foi o primeiro a revelar os esquemas de caixa 2 do PSDB montados durante o governo FHC. A procuradora da República no Rio de Janeiro, Andrea Bayão Ferreira, denunciou Dimas Fabiano Toledo por participação, em parceria com um grupo de empresários e políticos, no esquema de arrecadação ilegal exposto na Lista de Furnas.
Com informações de Agência Brasil.

Royaties : Não pode haver quebra de contrato

‘Não tenho mais o que fazer’, diz Dilma sobre royalties

  • Parlamentares tentam derrubar veto da presidente às perdas de receitas de estados produtores
  • Na Rússia, ela disse que não pode evitar parlamentares de votar com a consciência
  • Brasil tenta remover embargo russo às importações de carne
MOSCOU — A presidente Dilma Rousseff afirmou nesta quinta-feira em Moscou que, ao vetar artigos do projeto que muda as regras de divisão dos royalties do petróleo, esgotou tudo o que poderia fazer nesta questão. Sem as emendas, os estados produtores, como o Rio, sairão prejudicados. Mas Dilma disse que agora, tudo o que pode fazer, é esperar a decisão do Congresso. Na quarta-feira, a maioria dos deputados e senadores votou pelo regime de urgência na apreciação do veto da presidente Dilma Rousseff ao texto que redistribuía os recursos e causava perdas para os estados produtores. A apreciação definitiva sobre a questão poderá ocorrer já na próxima semana.
— Eu estou aqui, o Congresso está lá. Já fiz todos os pleitos, o maior deles, foi vetar. Não tenho mais o que fazer! Não tem nenhum gesto meu mais forte do que o veto. O resto seria impossível — disse Dilma.

Diante da insistência de jornalistas, sobre se ela pretendia fazer gestões junto à base aliada no Congresso para manter os vetos, ela afirmou :
— Não vou impedir que ninguém vote de acordo com sua consciência.
É uma crise para o governo? — perguntou um jornalista:
— Olha, eu acho que vocês (jornalistas) adoram a palavra crise. Tudo vocês veem crise. Não tem crise, o funcionamento da democracia é assim. Eu sou de uma época…quando era bem mais nova do que sou hoje, em que tudo no Brasil virava crise. Mas um tipo de crise com consequências mais graves: a gente ia para a cadeia.
Dilma insistiu que o Brasil é um país democrático e que as pessoas precisam conviver com as diferenças
— Nada disso pode resultar em crise. Este é o funcionamento normal da democracia num país avançado — disse.
A presidente voltou a defender que o dinheiro dos royalties sejam utilizados para investimentos na educação.
— Que nós tenhamos um compromisso com a educação no Brasil. O recurso do petróleo é um recurso finito. Tudo o que nós ganharmos do petróleo temos que deixar para a riqueza mais permanente, que é a educação que cada um carrega.
Brasil tenta remover embargo russo às importações de carne
Sob um frio de 12 graus negativos, a presidente Dilma Rousseff iniciou na tarde desta quinta-feira sua primeira visita oficial à Rússia com uma pendência persistente na relação dos dois países para resolver: o embargo dos russos às importações de carne de três grandes estados produtores – Rio Grande do Sul, Paraná e Mato Grosso – que se arrasta desde junho de 2011, por questões sanitárias. Carne é o principal produto de exportação do Brasil para a Rússia.
O primeiro-ministro russo, Dimitri Medvedev, iniciou seu encontro com Dilma dando as boas vindas e dizendo que estava pronto a resolver “problemas”:
— O relacionamento entre Brasil e Rússia está no auge. Temos vários bons projetos. Mas isso não significa que está tudo resolvido. Temos problemas para resolver e o governo da Rússia está aberto para resolver todas estas questões — garantiu o primeiro-ministro.
Medvedev vai ao Brasil em fevereiro e Dilma aproveitou para convidá-lo a esticar a visita e ficar para assistir o carnaval. Por enquanto, foi o único acordo anunciado: Medvedev aceitou o convite para o carnaval. Mas Dilma afirmou :
— O primeiro-ministro Medvedev me disse que teremos um resultado positivo. Não me comunicou qual a decisão final, mas considera que os produtores brasileiros tomaram todas as medidas e teremos um resultado positivo no final.
Já Antonio Patriota, ministro das Relações Exteriores, afirmou apenas :
— Estamos conversando…estamos conversando.
O embargo da carne aos 3 estados não é o único problema comercial com os russos. Moscou não quer carne com ractopamina, um aditivo alimentar que alguns produtores brasileiros também usam. E vai exigir dos brasileiros um certificado.
Carne é o principal produto das venda brasileiras para Rússia: mais de US$ 1,5 bilhões dos US$ 4,2 que o Brasil exportou para o país no ano passado. Inúmeras reuniões técnicas foram feitas, muitas delas seguidas de falsos anúncios, do lado brasileiro, de que o assunto estaria prestes a ser resolvido. E nada. Em março, o ministro da Agricultura, Mendes Ribeiro Filho, saiu de uma reunião com a ministra da Agricultura russa, Yelena Skiynnik, afirmando que “o embargo está chegando ao fim”.
Há duas semanas, o secretário de Defesa Agropecuára, Ênio Marques, chegou a anunciar o fim do embargo depois de um encontro com o chefe do serviço sanitário russo, Sergey Dankver. E disse que a retomada das exportações dependia apenas de um comunicado oficial do serviço sanitário. Mas o comunicado nunca saiu, nem mesmo ontem, horas antes da chegada de Dilma e depois de mais uma reunião técnica em Moscou.
Embraer: de olho no vasto mercado russo
No plano comercial, o governo tem uma ambição bem maior: vender mais e diversificar a troca com os russos, que hoje está restrita à venda de commodities. A Rússia teve o maior crescimento econômico entre os países do G-8 (grupo de países ricos, na sua maioria), em 2011: 4.3%. E sua classe média está se expandindo. Na linha de frente da estratégia de diversificação está a Embraer, que acaba de abrir escritório em Moscou, e vai conseguir certificação para tentar vender seu jato regional E-190 (com capacidade para 100 lugares). Só para obter esta certificação, negociou-se 3 anos com os russos.
Mas a Embraer terá que brigar por espaço no mercado regional russo com o grupo Sukhoi, que por sua vez luta para vender seus caças ao Brasil e derrubar as pretensões dos franceses de vender os caças Rafale. Este também vai ser um tema do encontro entre Dilma e o presidente russo Vladimir Putin, na sexta-feira, dia do aniversário da presidente brasileira.
O ministro da Defesa, Celso Amorim, vai discutir com os russos outro negócio lucrativo: compra de material bélico. Do lado político, Dilma e Putin vão discutir a guerra civil na Síria, a questão entre Israel e a Palestina, além da situação no Norte da África, em particular, as turbulências no Egito. Além de Amorim, integram a comitiva da presidente os ministros Antonio Patriota, das Relações Exteriores, Aloizio Mercadante, da Educação, Fernando Pimentel, da Indústria e Comércio, além da presidente da Petrobrás, Maria das Graças Foster, e o assessor especial de relações internacionais da Presidência, Marco Aurélio Garcia.

Sarney não toma jeito: deixou comando da sessão para vice da Câmara
  • Presidente do Senado evitou se indispor com estados não produtores
BRASÍLIA – Sem querer se indispor com a presidente Dilma Rousseff, nem com os parlamentares representantes dos 24 estados não produtores de petróleo, o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), deixou para a vice-presidente da Câmara, deputada Rose de Freitas (PMDB-ES), a espinhosa tarefa de presidir a sessão do Congresso nesta quarta-feira, na qual foi aprovado requerimento de urgência para apreciar os vetos de Dilma a artigos do projeto que redistribui os royalties do petróleo.
Pela manhã, Sarney participou da entrega da medalha de Grã Cruz da Ordem do Mérito do Congresso a ministros e ex-ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). À tarde, enquanto a sessão do Congresso pegava fogo, Sarney estava na posse do novo presidente do Tribunal de Contas da União (TCU), ministro Augusto Nardes. Ele voltou ao Senado por volta das 18h.
Na véspera, Sarney informara que não presidiria a sessão porque assumiria interinamente a Presidência da República. Mas isso só ocorreu à noite, e a votação do requerimento estava marcada para o meio-dia. De hoje a domingo, Sarney é o presidente da República interino, 22 anos após deixar o cargo. Sua condução ao posto foi articulada pelo Planalto para homenageá-lo e para esvaziar a sessão do Congresso que analisaria o requerimento de urgência, estratégia que não funcionou.
Parlamentares do Rio disseram que Sarney, com sua experiência, poderia ter evitado a votação do requerimento. Mas ele vinha sendo pressionado por sua filha, a governadora Roseana Sarney (MA), para fazer essa votação.
— A ausência do senador Sarney é questionável — reclamou o deputado Hugo Leal (PSC-RJ).


AGU não pediu de volta dinheiro do mensalão, da mesma forma que procurador Gurgel engavetou por mais de 3 anos o processo do Cachoeira

Justificativa . A AGU, comandada por Luís Inácio Adams, alega que seu objetivo, ao se recusar a integrar os processos, foi não atrasar os pedidos de ressarcimento ao Erário Foto: André Coelho/5-12-2012







Justificativa . A AGU, comandada por Luís Inácio Adams, alega que seu objetivo, ao se recusar a integrar os processos, foi não atrasar os pedidos de ressarcimento ao Erário André Coelho/5-12-2012
BRASÍLIA — A Advocacia Geral da União (AGU) se recusou por duas vezes a fazer parte de processos que pedem a devolução de dinheiro desviado para o mensalão. Uma das recusas ocorreu há menos de três meses, em meio ao julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF) da ação penal referente ao esquema criminoso, e foi orientada pela Procuradoria Geral da União, órgão de direção superior da AGU.

Numa das ações em que a AGU preferiu não entrar no caso, para tentar recuperar o dinheiro desviado,
No julgamento do mensalão, o STF concluiu que houve desvio de dinheiro público para o mensalão. Os ministros já iniciaram uma discussão sobre a recuperação dos recursos desviados. A proposta do decano do tribunal, Celso de Mello, é estabelecer um valor mínimo a ser indenizado pelos réus, o que deve ser discutida nesta fase final do julgamento. Os ministros decidiram pela perda de bens de Valério para ressarcir o Erário pelo crime de lavagem de dinheiro. Segundo manifestação de Celso de Mello em plenário, a AGU já deveria ter ingressado com ações para recuperar o dinheiro público.

Decisões tomadas na gestão de Adams
A decisão de não fazer parte de duas ações de improbidade administrativa em curso na Justiça Federal em Brasília foi tomada na gestão do atual advogado-geral da União, Luís Inácio Adams. Apesar da recusa da AGU em fazer parte dos processos, o dinheiro proveniente de um eventual ressarcimento de danos é destinado diretamente ao Tesouro Nacional. Para isso, o juiz responsável deve calcular o valor a ser ressarcido e determinar a devolução na sentença.
A ação na esfera cível pede o ressarcimento integral do dano ao Erário e a intimação da União para atuar no caso junto ao MPF, caso exista o interesse pela recuperação do dinheiro público. A primeira manifestação da AGU foi em maio de 2011, quatro anos depois de iniciada a tramitação do processo. “Aguarda-se autorização do procurador-geral da União para intervir ou não no presente processo”, manifestou em ofício a Procuradoria Regional da União da 1ª Região. Em 14 de setembro deste ano, a mesma unidade confirmou a negativa à Justiça: “Não é pertinente o ingresso da União. A assistência ao MPF só ocorre em ação de improbidade em que, objetiva e concretamente, a atuação da União agregue utilidade ao processo”.
O outro processo em que a AGU se recusou a recuperar o dinheiro público desviado diz respeito à contratação pela Câmara dos Deputados — sob a presidência do deputado João Paulo Cunha (PT-SP) — da SMP&B Comunicação, empresa de Marcos Valério, e ao saque de R$ 50 mil na boca do caixa do Banco Rural pela mulher do parlamentar. São réus no processo o deputado João Paulo, Valério e sócios e diretores do Rural. Também nesse caso, o STF já condenou os envolvidos no esquema.
A ação de improbidade administrativa, com pedido de ressarcimento integral do dano causado, tramita desde 2007. O MPF sugeriu o ingresso da União no processo. “Não se mostra pertinente o ingresso da União, seja pela ausência de elementos próprios a reforçar o quadro probatório, seja porque o interesse público já se encontra devidamente resguardado pela atuação do MPF”, argumentou a AGU na resposta à Justiça, em setembro de 2011. João Paulo responde a outra ação de improbidade na Justiça Federal em Brasília. Uma decisão judicial referente a este processo, em 2007, intimou a União para se posicionar sobre o interesse em atuar ao lado do MPF. Não houve resposta da AGU.
Em reportagem do GLOBO publicada em novembro, sobre as dificuldades da União para reaver o dinheiro público desviado no mensalão, a AGU sustentou que a “reparação pecuniária” decorrente do esquema já era objeto de ações cíveis propostas pelo MPF na primeira instância do Judiciário. Nas manifestações entregues até agora à Justiça, a AGU preferiu ficar fora dos processos.

Sete ações de improbidade em curso
São sete ações de improbidade administrativa abertas como desdobramento da ação penal julgada pelo STF: cinco se referem aos principais núcleos e aos integrantes de cinco partidos beneficiários do valerioduto — as “vantagens econômicas” somam quase R$ 41 milhões — e as outras duas tratam da participação do deputado João Paulo no esquema. A AGU confirmou que não integra o polo ativo em nenhum dos sete processos, apesar da sugestão do MPF nas ações.
A AGU informou que uma das razões de não ter feito parte nas ações de improbidade em curso na Justiça foi para não atrapalhar e atrasar o pedido de ressarcimento da Procuradoria. “O ingresso da União poderia atrasar a tramitação do processo, impondo a necessidade de sua intimação em todos os atos processuais.” O MPF no DF, por sua vez, diz aguardar decisão do STF sobre como agir em relação ao ingresso da AGU nos autos.“Não houve investigação por parte de órgãos de controle (CGU, TCU, procedimentos disciplinares), o que não legitima a atuação da União no caso”, diz a AGU, em referência às ações de improbidade em curso na Justiça.

Procurador-Geral da República não quer falar. Depois de ter engavetado durante três anos abertura de processo contra o senador Demóstenes torres e deixado passar a chance de investigar o governador de Goiás Marconi Perillo, Roberto Gurgel perde mais uma chance de ser transparente.

roberto gurgel engavetador cpi cachoeira
 Engavetador-Geral da República
O Procurador-geral da República, Roberto Gurgel, está perdendo mais uma chance de dar transparência ao seu trabalho. Em conversa com o presidente da CPI do Cachoeira, senador Vital do Rêgo, ele recusou o convite que lhe seria feito para depor na comissão. Gurgel segurou, durante três anos, um pedido de abertura de processo contra o senador Demóstenes Torres, ligado ao contraventor Carlinhos Cachoeira. Recentemente, pediu a abertura de investigação sobre o governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT), mas não exigiu o mesmo procedimento em relação ao governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB).
Os grampos da Operação Monte Carlo, da Polícia Federal, no entanto, apontam muito mais para um possível envolvimento de Marconi no esquema de Cachoeira, de quem é suspeito de ter recebido R$ 500 mil, do que de Agnelo, contra quem não surgiram provas de participação ou conivência com a organização criminosa.

'Não somos deuses, somos apenas médicos', desabafa cardiologista

Cardiologista suíço expõe o dilema ético de transplantar órgãos em portadores de doença pulmonar rara e defende regras claras para os casos em que há poucas chances de vida

Mato Grosso do Sul -  No começo dos anos 1990, o então recém-formado cardiologista pediátrico suíço Maurice Beghetti ouviu de um chefe um mau prognóstico para a carreira que se iniciava, no estudo de hipertensão arterial pulmonar (HAP) em crianças.
Maurice Beghetti acredita que o grande desafio é a cura da hipertensão arterial pulmonar | Foto: Divulgação
Maurice Beghetti acredita que o grande desafio é a cura da hipertensão arterial pulmonar | Foto: Divulgação
“Você está se especializando em uma área onde todos os pacientes morrem e não há nada que se possa fazer, porque não há tratamento. Vai ser muito difícil fazer uma carreira acadêmica em uma área onde não há evolução.”
O jovem Beghetti reconheceu as dificuldades, mas recusou a sugestão do chefe para abandonar os estudos sobre HAP.
“Nessa época e por muitos anos, realmente não havia nenhum medicamento, não havia nada”, conta.
De “doença órfã”, sem profissionais interessados ou remédios eficazes, tornou-se um campo produtivo, com remédios e indústria farmacêutica investindo, e é hoje estudada por muitos. Entretanto ainda não existe cura para a HAP, apenas tratamento.
Beghetti é atualmente um dos maiores especialistas do mundo na área de cardiopatia congênita. Ele esteve recentemente no Brasil como convidado especial do 22º Congresso Brasileiro de Cardiologia Pediátrica, ocasião em que concedeu uma entrevista exclusiva.
A hipertensão arterial pulmonar é uma doença crônica rara, incapacitante, potencialmente fatal e ainda pouco conhecida, mesmo entre os médicos. A HAP estreita os vasos sanguíneos do pulmão e dificulta a respiração, causando cansaço mesmo com um leve esforço. ela pode ser causada por fatores genéticos, problemas cardíacos congênitos e doenças, como a esquistossomose.
Na especialidade de Maurice Beghetti, casos descobertos logo após o nascimento – ou mesmo no útero, em centros desenvolvidos, como na Suíça –, podem levar a cirurgias corretivas, com o bebê ainda tendo poucas semanas ou meses de vida.
Em situações graves, apenas transplantes, duplos (de coração e pulmão ) ou de pulmões podem salvar o paciente. Um recurso que impõe aos médicos um dilema ético, pois muitos doentes têm poucas chances de sobrevivência e a fila de espera para transplantes são longas.
Beghetti considera que o grande desafio atualmente é a busca de um tratamento que cure a HAP. Enquanto isso não ocorre, ele reforça a importância do diagnóstico precoce para os casos congênitos e a criação de mais centros de tratamento multidisciplinares especializados na doença. Veja a seguir a entrevista.
Quais são os principais desafios mundiais da HAP?
O maior problema é que não existe uma cura para a doença. Melhoramos a sobrevivência, o cuidado, mas não há cura real. Precisamos encontrar um remédio, e acho que isso também ocorrerá à medida que aumentarmos o conhecimento sobre a doença.
É possível desenvolver uma droga que cure a doença?
Isso aconteceu em outras doenças, então, um dia, espero que sim. Pode ser que eu fique sem trabalho, mas tudo bem, porque os pacientes estarão bem. Acho que esse é o grande desafio hoje.
A HAP congênita se inicia com a vida. Como os pais podem desconfiar de que os filhos têm a doença? Há sintomas claros?
Em cardiologia pediátrica, há dois ou três sintomas muito claros: cianose (extremidades arroxeadas); o bebê respirar muito rápido, com dificuldade para mamar. Não se alimentar bem nem ganhar peso e altura.
Para alguns casos graves de hipertensão arterial pulmonar o transplante duplo de coração e pulmão é mesmo a única solução?
Concilia Romaioli, portadora de hipertensão arterial pulmonar, precisa usar oxigênio | Foto: Reprodução Internet
Concilia Romaioli, portadora de hipertensão arterial pulmonar, precisa usar oxigênio | Foto: Reprodução Internet
No caso de hipertensão pulmonar idiopática (sem causa definida), apenas transplante dos dois pulmões adianta. Mas depende da experiência dos centros. Alguns preferem fazer coração e pulmão e outros fazem duplo de pulmões.
Alguns centros internacionais e mesmo brasileiros optam por não fazer transplantes de pacientes com Eisenmenger (um tipo grave de HAP) porque consideram que a taxa de sobrevida não justifica o uso dos órgãos doados, também raros. É um dilema ético, não?
Também estamos discutindo isso na Suíça. É principalmente uma decisão ética. Precisamos ter todos os dados científicos, mas no fim, é muito difícil para um médico tomar essa decisão. É uma escolha de vida ou morte. E não somos deuses, somos apenas médicos. É necessário haver uma discussão científica aprofundada, um debate ético e então decidir, com cuidado, se isso será uma regra geral – sem analisar especificamente cada caso – ou se a regra será decidir caso a caso, o que também é complexo.
Se a opção for por não transplantar, quem tiver essa condição, em última instância, irá morrer?
Sim. Mas se precisar tomar uma decisão caso a caso também será difícil. Por que este e não aquele? Há muitas implicações éticas. Essas decisões devem ser adotadas com base em dados científicos muito sólidos. Porque se você faz algo e todos os pacientes morrem, por fim, não importa o que você faça. Eu concordo: com a escassez de doadores de órgãos, é algo que precisamos levar em consideração.
A escassez de órgãos é uma realidade no mundo todo?
É um grande problema, na Suíça também. Há uma grande campanha para tentar promover doações, há sempre mais pessoas para receber do que doadores. Imagino que haverá, ao longo do tempo, técnicas para substituir os transplantes. Veremos. Há 20 anos, não havia muito, por exemplo, e a tecnologia cresce exponencialmente.


As informações são de Raphael Gomide, do iG

Nota boaspraticasfarmaceuticas: Se for apenas médico, já esta muito bom.