Por:
Maria de Lurdes Vale
04/05/2014 -
07:18
Matthieu Ricard, conhecido como «o homem mais feliz do mundo», mostra como pode ser simples estar bem com a vida.
Podemos ser felizes com pouco e infelizes com muito.
Quem o diz é Matthieu Ricard, monge budista que, no início de maio, vem a
Portugal falar sobre altruísmo e felicidade. Nesta conversa deixa um
desafio: «ouse» fazer o bem aos outros sem esperar nada em troca.
Foi reconhecido, de acordo com estudos científicos, como o homem mais feliz do mundo. Como é o seu quotidiano?
_ Os seus colegas jornalistas gostam muito da história de
acordo com a qual a minha humilde pessoa seria «o homem mais feliz do
mundo». Foi um rumor, sem nenhuma base científica, que surgiu há uns
anos num documentário sobre a felicidade apresentado pela cadeia de
televisão australiana ABC, e que dizia que «talvez tenhamos aqui o homem
mais feliz do mundo». Toda a gente pode encontrar a felicidade desde
que a procure onde ela se encontra. Quanto ao meu dia-a-dia, faço todo o
possível para partilhar o meu tempo entre retiros meditativos e os
projetos humanitários que tenho a cargo nos Himalaias.
Gosta muito de fotografia e coloca as imagens que faz num blogue com o seu nome…
_ Para mim a fotografia é um hino à beleza. Comecei a
fotografar aos 15 anos com um amigo fotógrafo de animais e apaixonado
pela natureza. Após ter ido para os Himalaias, em 1972, fotografei os
meus mestres espirituais e o seu mundo. De acordo com os ensinamentos
budistas, todos os seres detêm a natureza de Buda. Através da fotografia
quis mostrar a beleza dessa natureza humana, a beleza e a dignidade,
que podem coexistir com o sofrimento mais intenso e a esperança pode
sobreviver mesmo à destruição e à perseguição. O povo tibetano dá-nos
essa prova, pois soube conservar essa alegria, a força interior e
confiança enquanto sofria um genocídio humano e cultural. As imagens de
sofrimento, de desespero e ignomínia abundam. Nunca consegui tirar
fotografias dessas. Para mim, é essencial inspirar a esperança e a
confiança, é aquilo que mais nos falta e de que mais precisamos.
Vários estudos indicam que as redes sociais podem levar a uma maior solidão do ser humano. Está de acordo?
_ Com efeito, segundo a socióloga americana Sherry Turkle, os
canais ditos «sociais» são, na realidade, um meio de estar só, estando
conetado a muita gente. Um jovem de 16 anos que comunica principalmente
através de mensagens fazia notar com uma certa amargura: «Um dia, um
dia, mas de certeza não agora, gostaria de aprender a ter uma conversa.»
Os jovens passaram da conversação à conexão. Quando se tem três mil
amigos no Facebook não podemos evidentemente ter qualquer tipo de
verdadeira conversa. Apenas nos conetamos para falar de nós próprios
para um auditório garantido. As conversas eletrónicas são lapidares,
rápidas e por vezes brutais. As conversações humanas, face a face, têm
uma natureza diferente: evoluem lentamente, têm muitas nuances
e ensinam-nos a paciência. Numa conversa somos chamados a ver as
coisas de um outro ponto de vista, uma condição necessária à empatia e
ao altruísmo.
Vem a Lisboa falar sobre O Altruísmo e a Felicidade. Qual a principal mensagem que traz?
_ Um dos maiores desafios da atualidade consiste em conciliar
os imperativos da economia, da procura da felicidade e do respeito pelo
ambiente. A economia e a finança evoluem a um ritmo cada vez mais
rápido; a satisfação de vida mede-se com base num projeto assente numa
carreira, numa família, numa geração; e o ambiente, que
tradicionalmente se media em eras geológicas, está, hoje, devido aos
transtornos ecológicos provocados pelas atividades humanas, em rápida
mudança. Precisamos de um fio de Ariana que nos permita encontrar o
caminho neste labirinto de preocupações graves e complexas. O altruísmo é
o fio que nos pode permitir ligar naturalmente as três escalas de
tempo – curto, médio e longo prazo – harmonizando as suas exigências.
Uma família com o pai e a mãe desempregados pode ser feliz?
_As circunstâncias da vida podem ser muito difíceis, mas é
preciso lembrarmo-nos de que há mil maneiras de viver a adversidade.
Quando somos confrontados com situações que não escolhemos, o modo como
vivemos as coisas pode agravá-las consideravelmente, ou aligeirá-las. A
nossa mente pode ser o nosso melhor amigo ou o nosso pior inimigo. Por
muito influentes que possam ser as condições externas, o mal-estar, tal
como o bem-estar, é essencialmente um estado interior. Devemos assim
fazer todos os possíveis para melhorar as condições exteriores e a
qualidade de vida, para enfrentar as desigualdades salariais e de
riqueza que vão crescendo na maior parte dos países da OCDE e que são
particularmente visíveis em Portugal, mas é importante não colocar todas
as nossas esperanças fora de nós. É que podemos ser muito infelizes
quando aparentemente temos tudo para ser felizes e, ao contrário, sermos
serenos na adversidade.
Existe uma receita para alcançar a felicidade?
_ Uma receita não, mas uma visão e métodos sim. A felicidade é,
antes de mais, uma maneira de ser, um estado adquirido de plenitude
subjacente a cada instante da existência e que perdura através das
inevitáveis incertezas que vivemos. No budismo, a palavra soukha
designa um estado de bem-estar que nasce de uma mente excecionalmente
saudável e serena. É uma qualidade que impregna cada experiência, cada
comportamento, que abraça todas as alegrias e todas as mágoas. É
igualmente um estado de sabedoria e de conhecimento, liberto de venenos
mentais e da cegueira sobre a verdadeira natureza das coisas. Soukha
está estreitamente ligado à compreensão da forma como funciona a nossa
mente e depende da nossa forma de interpretar o mundo. É difícil mudar
este último, mas é possível transformar a maneira como o percecionamos.
Ser feliz tem que ver com o «eu» ou com os «outros»?
_ Contribuir para a realização do bem dos outros é não só a mais
desejável das atividades, mas também a melhor forma de realizar
indiretamente o nosso próprio bem. A perseguição de uma felicidade
egoísta está condenada ao fracasso, mas o contributo para o bem do outro
constitui um dos principais fatores de estabilidade e, em última
instância, de progresso em direção ao Despertar.
O altruísmo não é uma forma de apaziguar o ego? Quando
fazemos bem aos outros não estamos, em primeiro lugar, a tratar de nós
próprios?
_ A autoestima – o facto de sentir contentamento quando as
nossas aspirações são satisfeitas – é compatível com a benevolência
para com o outro, em oposição ao amor-próprio, que coloca os nossos
interesses à frente dos do outro e exige que o mundo inteiro tenha em
consideração os nossos desejos. No entanto, a realização do bem dos
outros não implica o sacrifício da nossa própria felicidade, bem pelo
contrário. Se nos movemos por uma motivação altruísta, sincera e
determinada, contribuir para o bem do outro é uma situação vivida como
uma vitória e não como um falhanço, um ganho e não uma perda, uma
alegria e não uma mortificação. «O amor é a única coisa que duplica de
cada vez que a damos», dizia Albert Schweitzer. Nunca poderemos, assim,
falar de sacrifício, uma vez que, subjetivamente, o ato cumprido,
longe de ter sido sentido como um sofrimento ou perda, trouxe-nos
satisfação de ter agido de maneira justa, desejável e necessária. O
mundo do ego é como um pequeno copo de água: umas pitadas de sal chegam
para o tornar intragável. Mas o que faz estoirar a bolha do ego é
comparado a um grande lago: um punhado de sal não muda em nada o sabor.
Em conclusão, o egoísmo só faz perdedores: torna-nos infelizes e
leva-nos a fazer infelizes os que nos rodeiam. O amor altruísta é a mais
positiva de todas as emoções positivas.
Vai estar também no Porto numa conferência sobre Meditação e Ciência. Qual é a ligação entre uma coisa e outra?
_ A partir do ano 2000, foram lançados programas de
investigação com um grupo de pessoas que tinha consagrado uma vintena
de anos ao desenvolvimento sistemático da compaixão, do altruísmo e da
paz interior. A análise de certos dados demonstrou diferenças
espetaculares entre os meditantes e os não praticantes. Os primeiros
tinham a faculdade de gerar estados mentais precisos, poderosos e
duráveis. De acordo com o investigador Richard Davidson, de Wisconsin,
«foi possível demonstrar que o cérebro pode ser treinado e modificado
fisicamente de uma forma que poucos imaginam». E quantas mais horas de
prática, mais assinalável é a transformação cerebral. Outros trabalhos
demonstraram que as áreas do cérebro ativadas pela empatia são
distintas das que são ativadas pela compaixão e pelo amor altruísta.
Sabemos que a ressonância empática com a dor do outro pode conduzir, se
repetida muitas vezes, a uma exaustão emocional e à aflição. É isto que
vivem frequentemente os enfermeiros e médicos por estarem em contato
com doentes em grande sofrimento. Este fenómeno, conhecido em inglês
como burnout, é traduzível como «exaustão emocional» ou ainda
«fadiga da compaixão». Constatou-se que a compaixão e o amor altruísta
estavam associados às emoções positivas. E que o burnout é uma
«fadiga da empatia» e não da compaixão. Esta última, com efeito, longe
de levar à aflição ou ao desencorajamento, reforça o estado de alma, o
equilíbrio interior e a determinação corajosa de ajudar aqueles que
sofrem. Assim, o amor e a compaixão não geram nem fadiga nem desgaste,
mas, pelo contrário, ajudam a ultrapassá-los e a repará-los.
Os médicos acreditam nesse «poder» da meditação para prevenir doenças?
_ Outras experiências científicas demonstraram que não é
necessário ser um meditante muito treinado para beneficiar dos efeitos
da meditação, e que vinte minutos de prática diária contribuem
significativamente para a redução da ansiedade e do stress, da
tendência a ficar colérico (cujos efeitos na saúde estão bem
identificados) e do risco de recaída em caso de depressão grave. Oito
semanas de meditação sobre a consciência plena, de cerca de trinta
minutos diários, reforçam notavelmente o sistema imunitário. O que é
indispensável, na prática, não é meditar durante longos períodos, mas
fazê-lo regularmente. O estudo da influência dos estados mentais sobre a
saúde, outrora classificados como fantasia, está cada vez mais na
ordem do dia da investigação científica.
Deixou uma carreira científica para abraçar o budismo. Qual foi o momento determinante para essa mudança?
_ O momento-chave foi o encontro com mestres espirituais
tibetanos, na Índia. Tive uma imensa sorte de encontrar o meu mestre
espiritual, Kangyur Rinpotché, em 1967, perto de Djarleeling, na Índia,
e de passar, depois da sua morte, em 1975, alguns anos em retiro perto
do mosteiro onde viveu. A partir de 1981, tive o privilégio de viver 13
anos junto de um outro grande mestre tibetano, Dilgo Khyentsé
Rinpotché, e de receber os seus ensinamentos. Depois, tive numerosas
ocasiões de servir o XIV Dalai Lama e de receber os seus ensinamentos.
Um mestre espiritual autêntico é alguém que vos mostra aquilo que
vocês poderiam ser. É alguém que está em perfeita sintonia com aquilo
que ensina. O mensageiro torna–se a mensagem.
Meditar está ao alcance de todos?
_ Claro que sim! A meditação visa alcançar um melhor
conhecimento da nossa mente e uma maior capacidade de gerir os nossos
pensamentos. Estamos confrontados com a nossa mente de manhã à noite e é
ela, afinal de contas, que determina a qualidade de cada momento da
nossa existência. O facto de conhecer melhor a sua verdadeira natureza e
de compreender os seus mecanismos vai influenciar de maneira crucial
essa qualidade.
As emoções condicionam a nossa mente. O que diria a quem sente raiva, ciúme, inveja…?
_ É preciso, em primeiro lugar, que essa pessoa reconheça o
caráter destrutivo dessas emoções. Quando falamos de emoções
negativas, como no caso da raiva ou do ciúme, o termo «negativo» não
tem valor moral, mas prático. Isto significa «menos» felicidade e mais
sofrimento. Ouvimos dizer que o budismo em geral, e a meditação em
particular, visam suprimir as emoções. Tudo depende daquilo que
entendemos por «emoção». Se forem perturbações mentais como o ódio e a
inveja, porque não desembaraçarmo-nos delas? Se for um sentimento de
amor altruísta ou de compaixão para com os que sofrem, porque não
desenvolver essas qualidades? Este é, em qualquer caso, o objetivo da
meditação. Compreendamos que é a acumulação e encadeamento das emoções e
dos pensamentos que geram os nossos humores, os quais duram alguns
instantes ou alguns dias, e que formam, a longo prazo, as nossas
tendências e traços de caráter. É por isso que se aprendermos a gerir as
emoções, pouco a pouco, de emoção em emoção, de dia para dia,
acabaremos por transformar a nossa maneira de ser.
O budismo é uma filosofia de vida?
_ O budismo é uma religião, uma filosofia, uma sabedoria ou
uma arte de viver? É uma questão frequentemente colocada ao Dalai Lama
e à qual responde com humor: «Pobre budismo! Eis que é rejeitado pelos
religiosos, que dizem que é uma filosofia ateia, uma ciência da mente, e
pelos filósofos que o colocam na prateleira das religiões. Mas isto
pode ser uma vantagem, pois permite-lhe construir uma ponte entre as
religiões e filosofias». Diria que o budismo é uma tradição espiritual
da qual emana uma sabedoria aplicável a todos os momentos da existência
e em todas as circunstâncias.
E, em sua opinião, porque é que vai conquistando cada vez mais seguidores no Ocidente?
_ Tem de lhes perguntar! Não posso falar por eles. Talvez seja
devido ao facto de o budismo oferecer uma perspetiva muito pragmática
em relação aos mecanismos da felicidade e do sofrimento.
Como vê o atual Papa Francisco? Existe algum ponto em comum entre o catolicismo e o budismo?
_ Tenho grande admiração pelo Papa Francisco, pela sua
simplicidade, pela sua humildade e bom senso. Estou convencido de que
pode fazer muito pelo mundo. Fiquei particularmente surpreendido quando,
pouco tempo depois da sua eleição, foi a uma prisão em Itália e lavou
os pés a uma mulher muçulmana. O budismo e o cristianismo têm em comum a
importância que dão ao amor ao próximo. É preciso que as religiões
estejam ao serviço dos mais humildes e dos necessitados, o seu objetivo
não deve ser o de converter as pessoas, mas sim ajudá-las e libertá-las
dos seus sofrimentos.
O que «ganhou» em tornar-se um monge budista?
_ A liberdade de me dedicar o mais possível – embora nunca o suficiente, devia, claro, praticar mais – à prática espiritual.
QUEM É MATTHIEU RICARD?
Nasceu em Paris, em 1946, num meio privilegiado, filho do
filósofo francês Jean François Revel e da pintora Yahne Le Tourmelin.
Doutorado em Biologia Molecular pelo Instituto Pasteur, sob orientação
do Prémio Nobel François Jacob, cedo se interessou pelo budismo. Decidiu
então abandonar a carreira científica e tornar-se monge. Escreveu
várias obras sobre a espiritualidade, sendo a mais conhecida O Monge e o Filósofo
– um diálogo com o seu pai sobre o sentido da vida. É um amante da
fotografia, tendo cerca de uma dezena de livros publicados com imagens
de rara beleza sobre a Índia, Nepal, Butão e Tibete, e um membro ativo
do Mind and Life Institut, com sedes na Suíça e nos EUA. Desenvolveu a
associação Karuna-Shechen, através da qual apoia projetos humanitários
e construção de pontes, sobretudo nos Himalaias. É também conhecido
como o «homem mais feliz do mundo».
.