1.25.2014

A Ucrânia já era um barril de pólvora que agora explodiu



por Antonio Carlos Prado e Elaine Ortiz
São quase três meses sem que a Ucrânia viva um dia sequer livre de confrontos entre a polícia e manifestantes contrários ao presidente Viktor Yanukovich – e a crise foi se acirrando a ponto de a população se valer de tratores, fuzis e improvisadas armas medievais contra tropas do governo. Na quinta-feira 23 foi aceita uma trégua para nova rodada de conversação. Mero placebo. Os confrontos ganharam contornos de guerra civil ao longo da semana passada assim que o Parlamento radicalizou e proibiu os protestos. E o diálogo nesse momento é impossível porque, na verdade, o barril de pólvora que explode agora começou a pegar fogo em novembro, quando Yanukovich se alinhou com a Rússia preterindo a União Europeia. Esse foi e é o pano de fundo da crise. 

Decisão de Lewandovski pode revelar segredos importantes do julgamento


 
Ao liberar o conteúdo da pasta 2474 para oito advogados que haviam pedido o direito de consultar um imenso conjunto de documentos que tem relação penal 470, mas sempre foram mantidos em segredo, o ministro Ricardo Lewandovski tomou uma decisão que pode ter relevância histórica.

A pasta 2474 era mantida em segredo por Joaquim Barbosa. Envolve provas, fatos e indícios que não foram incorporados aos autos da ação penal.
Quando ele deixou a relatoria da ação penal, em agosto do ano passado, o inquérito sobre foi redistribuído e entregue ao ministro Luiz Roberto Barroso.
No mesmo dia, o advogado de Henrique Pizzolato, Martius Savio Cavalcanti, marcou uma audiência com o ministro. Reapresentou o pedido para ter acesso a pasta. Barroso prometeu uma resposta em três dias. Sua decisão foi abrir mão do caso, alegando razões de “foro íntimo,” que não obrigam o juiz a fundamentar seu pedido em razões objetivas.
 O caso foi redistribuído mais uma vez. Acabou nas mãos de Ricardo Lewandovski que decidiu atender ao pedido dos advogados. Aqueles oito que, no passado, tiveram seu pedido negado agora poderão ter conhecimento de seu conteúdo.
 É uma decisão importante.
Primeiro, porque permitirá que os réus e seus advogados tenham conhecimento de todos os dados apurados na investigação – e que foram excluídos dos autos sem que se possa saber exatamente por que.
Embora o julgamento já esteja em sua fase final – os réus estão presos, alguns já pagaram multa, falta julgar os pedidos de embargos infringentes – todos só terão a ganhar quando todos os dados forem colocados a mesa.
É absurdo pensar que isso vai acontecer DEPOIS das sentenças mas é disso que estamos falando.  
O segundo ponto é que a pasta 2474 oficializa fatos e provas que até agora eram vistos de forma esparsa e informal. O interesse do advogado de Pizzolato sobre o assunto não é casual. O papel de gerentes executivos e diretores do Banco do Brasil que partilharam decisões relativas a Visanet – assinando notas técnicas e definindo pagamentos -- nunca foi explicado na ação penal 470. Pode estar bem esclarecido na pasta 2474, que reúne  um inquérito sobre outros diretores.
Pizzolato foi condenado como “único responsável” pelo desvio de R$ 73,8 milhões para o esquema de Marcos Valério. Mas sequer era o responsável pelos pagamentos, que tinham como gestor um outro diretor do banco, nomeado, conhecido e identificado – e desaparecido dos autos da AP 470.
Uma das teses mais caras a defesa, a de que, se houve crime, ele não foi cometido isoladamente, pode ganhar maior sustentação a partir daí.
 Outros pontos também podem ser esclarecidos. Apesar de seus imensos esforços para se aproximar do esquema Marcos Valério-Delúbio Soares, o banqueiro Daniel Dantas sequer foi citado na ap 470. É curioso, já que sua atuação foi descrita de modo detalhado pela investigação do delegado Luiz Fernando Zampronha, da Polícia Federal.
Os publicitários Ramon Hollerbach e Cristiano Paz, da SMP&B, também podem ter acesso a informações que podem ser úteis.
O que pode ocorrer com isso? Difícil saber agora. 
O lote de documentos reunidos na pasta 2474 é imenso. Compreende um total de 78 volumes, que terão de ser estudados e conferidos.
 A experiência ensina que documentos mantidos em segredo não fazem bem a Justiça, que pede transparência e lealdade a todos. Não pode haver a menor suspeita de distorção nem de qualquer irregularidade num caso dessa relevância. Não se trata, é claro, de acusar nem denunciar por antecipação. 

  O Caso Dreyfus, o mais conhecido caso de fraude jurídica da história, levou cinco anos para ser esclarecido, embora o jjulgamento tenha durado 72 horas. 
 O erro de sua condenação foi estabelecido um ano depois do julgamento, quando um oficial da área de informações resolveu fazer um novo exame das provas e descobriu que nada havia para incriminar aquele  jovem capitão do Exército francês.  Estava claro que o verdadeiro espião que todos procuravam era outra pessoa.
 Mas isso não adiantou muito. Para evitar uma revisão, começaram a surgir novas provas – fraudadas – para incriminá-lo, o que atrasou o processo por mais tempo. Condenado em 1895, Dreyfus seria liberado, por graça presidencial, pois os tribunais jamais declararam sua inocencia, em setembro de 1899. Um ano antes, o oficial que havia forjado documentos para proteger os superiores foi desmascarado e cometeu suicídio.

1.24.2014

"Levei R$ 200 mil para o ministro Lupi"

A empresária Ana Cristina Aquino diz que pagou propina para o ex-ministro Carlos Lupi e que esquema para criação de sindicatos no Ministério do Trabalho permanece na gestão de Manoel Dias

por Izabelle Torres

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Ouça a denúncia da empresária contra o ex-ministro do Trabalho Calos Lupi

A empresária mineira Ana Cristina Aquino, 40 anos, é uma conhecedora dos meandros da corrupção no Ministério do Trabalho e desde dezembro do ano passado vem contando ao Ministério Público Federal tudo o que sabe. As revelações feitas por ela tanto aos procuradores como à ISTOÉ mostram os detalhes da atuação de uma máfia que age na criação de sindicatos – setor que movimenta mais de R$ 2 bilhões por ano – e que, segundo a empresária, envolve diretamente o ex-ministro e presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, e o atual ministro, Manoel Dias. “Levei R$ 200 mil para o ministro Lupi numa mochilinha da Louis Vuitton”, diz a empresária. De acordo com ela, o ministro Manoel Dias faz parte do mesmo esquema.
CORRUPCAO-1-IE-2305.jpg E O ESQUEMA CONTINUA
Segundo a empresária Ana Cristina Aquino, Manoel Dias, atual ministro do Trabalho,
deu prosseguimento à criação de sindicato pleiteado por ela
Ana Cristina é dona de duas transportadoras, a AG Log e a AGX Log Transportes, e durante três anos fez parte da máfia que agora denuncia. A Polícia Federal em Minas Gerais já tem indícios de que suas empresas serviam como passagem para o dinheiro usado no pagamento das propinas para a criação de sindicatos. Em apenas 24 meses, entre 2010 e 2012, a empresária trocou as dificuldades de uma vida simples pelo luxo de ter avião particular, helicóptero, uma mansão em Betim (MG) e até cinco carros importados na garagem. Para ela, o esquema começou a ruir depois que ISTOÉ revelou, em outubro do ano passado, que seu enriquecimento era alvo de uma investigação da PF. “Os antigos parceiros me abandonaram. Estou sendo ameaçada, mas não vou pagar essa conta sozinha”, diz Ana Cristina.
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O advogado João Graça, assessor especial do ministro Manoel Dias e homem de confiança do ex-ministro Carlos Lupi, foi por dois anos sócio da AG Log e deixou a empresa depois de a investigação da PF ser instalada. Segundo Ana Cristina, era ele o elo entre as suas empresas e a máfia dos sindicatos no Ministério do Trabalho. Procurado por ISTOÉ, Graça disse que as acusações “fazem parte de uma briga de mercado” e que se manifestará apenas quando “conhecer todos os detalhes da denúncia.” A empresária afirma que Graça estava com ela quando foram entregues os R$ 200 mil ao então ministro Lupi. O Ministério Público tenta localizar as imagens da portaria do Ministério para confirmar a informação. “Usamos o elevador do ministro. O doutor João Graça manda naquele Ministério”, disse Ana Cristina. Em seguida, ela lembra que, depois de receber o dinheiro, Lupi chegou a perguntar, em tom de brincadeira, se estava sendo gravado. Na quinta-feira 23, Lupi disse à ISTOÉ que só vai se manifestar quando tiver acesso aos documentos que Ana Cristina diz ter entregue ao Ministério Público.
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O enredo de corrupção narrado pela empresária começa no segundo semestre de 2011, quando ela e seu grupo decidiram montar o Sindicato dos Cegonheiros de Pernambuco (Sincepe) para tentar abocanhar contratos milionários com montadoras que iriam se instalar no Nordeste. Em outubro daquele ano, Ana Cristina protocolou o documento no Ministério do Trabalho pedindo a expedição da carta sindical. Nessa época, o advogado Graça já havia se transformado em um parceiro de negócios da AG Log, por indicação do empresário Sérgio Gabardo, que, segundo Ana Cristina, era o verdadeiro dono da transportadora e o responsável por todo o aporte milionário de recursos para bancar as propinas. Segundo o relato da empresária, assim que o registro foi pedido, o encontro no gabinete do então ministro do Trabalho foi marcado pelo próprio Graça. De acordo com a empresária, Lupi afirmou que o dinheiro pago naquele dia era apenas a entrada e que a aprovação do registro sindical custaria R$ 3 milhões. Mais ainda: no dia seguinte, como disse Ana Cristina, Lupi mandou o amigo João Graça avisá-la que, se o sindicato desse certo e conseguisse arrecadação e bons contratos, ele também deveria participar do negócio sendo dono de uma parte da frota do grupo AG.
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Depois de receber R$ 200 mil e prometer aos representantes da AG Log que o Sincepe seria criado em um prazo recorde de 40 dias, Lupi foi varrido do cargo durante a faxina que a presidenta Dilma Rousseff  começava a fazer no seu governo. Ele foi demitido por envolvimento em denúncias de corrupção, que incluíam exatamente os processos irregulares de criação de sindicatos. Ana Cristina diz que o deputado Brizola Neto (PDT-RJ), que assumiu no lugar de Lupi, tentou colocar um freio na indústria dos sindicatos. Durante sua gestão, os trâmites para a oficialização do sindicato pleiteado por Ana travaram. Mas Brizola Neto acabou perdendo o apoio de seu próprio partido e foi afastado do Ministério 11 meses depois de assumir. Em seu lugar tomou posse o atual ministro Manoel Dias, indicado por Lupi e leal às práticas do PDT. A tramitação da expedição da carta sindical do Sincepe no Ministério do Trabalho, obtida por ISTOÉ, mostra que na gestão de Manoel Dias o processo voltou a correr. “Esse aí (o ministro Manoel Dias) ia liberar. Só não liberou por causa da reportagem de ISTOÉ”, disse a empresária. Segundo ela, depois de publicada a reportagem na revista, o advogado João Graça marcou um encontro no Hotel Mercury, em São Paulo, e afirmou: “Fique calma, esse ministro é nosso também”. Ana Cristina afirma que a conversa teria prosseguido em uma espécie de monólogo de João Graça, em uma tentativa de acalmá-la e evitar que ela denunciasse o esquema, como decidiu fazer. A estratégia do grupo era convencê-la a assumir a culpa e, em troca, viabilizar para ela e para a família o comando de um sindicato com amplos poderes e muito dinheiro. O Sindicato de Cegonheiros de Pernambuco arrecadaria um percentual do lucro bilionário do setor, além de acumular influência para interferir nos contratos com montadoras que se instalassem na região. No caso do Sincepe, a ideia era garantir que a Fiat fechasse um negócio bilionário com a AG Log.
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Agora, as denúncias de Ana Cristina deverão virar um inquérito formal no Ministério Público Federal. Aos procuradores, além de depoimento, a empresária diz ter entregue uma série de documentos. No meio da papelada estão extratos bancários, contratos sociais e páginas de uma agenda manuscrita, em que estariam relacionados os destinatários das propinas e os valores pagos.
“Esse ministro (Manoel Dias) é nosso também”
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Nas duas últimas semanas, a empresária Ana Cristina Aquino conversou com ISTOÉ por cerca de duas horas. Dona de um forte sotaque mineiro, ela autorizou que os encontros mantidos num restaurante em Brasília fossem gravados e divulgados como entrevista. Disse estar endividada e abandonada pelo grupo ao qual se associou em 2010 e que desde então opera nos meandros do Ministério do Trabalho. Por causa disso é que ela diz ter recorrido ao Ministério Público e avalia que tornar públicas suas acusações é a melhor maneira de se proteger. Leia a seguir trechos dessas conversas:
ISTOÉ – A sra. está tentando criar um sindicato?
Ana Cristina Aquino –
Desde 2011. Essa carta sindical iria sair na época do Carlos Lupi no Ministério do Trabalho. O advogado João Graça, que é do PDT, foi contratado pela nossa empresa justamente porque tinha ligações com o Lupi. Ele era a nossa garantia de que
o sindicato seria aprovado rapidamente.
ISTOÉ – O então ministro Carlos Lupi recebeu dinheiro para viabilizar esse sindicato?
Ana –
Recebeu, recebeu sim. Levei R$ 200 mil para ele. Carregando uma bolsa nas costas, fui direto para o gabinete dele. Segurando uma mochilinha da Louis Vuitton. Não tem aquelas compridinhas? Foi daquelas. Ele mandou desligar o telefone assim que eu entrei. Disse: “Não está gravando não, né?” Eles são espertos!
ISTOÉ – Como a sra. passou pela segurança na portaria do Ministério carregando tanto dinheiro  em uma mochila?
Ana –
João Graça passava por tudo que é lado!!! O doutor João mandava naquele Ministério.
ISTOÉ – Então a sra. entrou direto, sem passar pela segurança?
Ana –
Direto. Usamos o elevador do ministro.
ISTOÉ – Qual a origem do dinheiro que foi entregue ao ministro?
Ana –
O Sérgio Gabardo (empresário acusado por Ana Cristina de ser o verdadeiro dono da AG Log) me entregou o dinheiro e falou: “Esse aqui é para o ministro, para ajudar nas obras sociais dele”. A gente riu.
ISTOÉ – Isso foi quando?
Ana – I
sso foi dois dias depois de sair o pedido de registro, lá para 2011.
O próprio Lupi me disse, na minha cara, que colocava o sindicato para sair em 40 dias. Brincou que seria o código sindical mais rápido do Brasil.
ISTOÉ – O registro iria custar os R$ 200 mil entregues ao Lupi?
Ana –
Não iam ser só R$ 200 mil, não. Essa carta sindical custaria R$ 3 milhões. Ele encheu o olho porque se tratava de um sindicato cegonheiro e todo mundo já sabe que cegonha dá muito dinheiro mesmo. Eles fantasiam uma coisa na cabeça deles. É uma coisa em que todos acham que rola muita grana. Na época, o Lupi ainda falou para o João Graça, que me contou, que, se desse certo de a gente pegar qualquer serviço em Pernambuco, ele queria o direito a ter frotas na empresa. Ocultamente. Claro que não seria no nome dele. Um ministro não poderia ter frotas em uma cegonha de forma aberta.
ISTOÉ – Por que o sindicato não saiu na gestão do ministro Brizola Neto?
Ana –
Acho que foi uma passagem rápida dele por lá. Não saiu porque ele não passou muito tempo. E o João Graça não tinha ligação direta com o Brizola Neto como tem com o Lupi.
ISTOÉ – E como está a questão, atualmente, com o ministro Manoel Dias?
Ana –
Esse aí (o ministro Manoel Dias) era o que ia liberar esse código, agora! Era ele! Só não liberou por causa da reportagem de ISTOÉ. Quando saiu a reportagem, o João Graça foi encontrar comigo no hotel Mercury, em São Paulo. Chegou lá e disse para eu ficar calada porque o registro sindical sairia de qualquer jeito. Sentamos na primeira mesa do restaurante, ele olhou para mim e disse: “Fique calma, esse ministro é nosso também”. Ele disse que o Manoel Dias era só de fachada e quem dá as canetadas no Ministério ainda é o Lupi. Foram exatamente essas as palavras que ele usou lá no hotel.
ISTOÉ – Por que a sra. resolveu dar dinheiro para criar o sindicato?
Ana –
Se a gente não dá dinheiro a esse pessoal, não sai sindicato. Desconheço algum registro que tenha saído sem gastar com propina.
Fotos: MARCUS DESIMONI / NITRO, MARCUS DESIMONI/NITRO; Ueslei Marcelino/REUTERS,Sergio Lima/Folhapress

Policia civil bate em viciados de crack

Prefeitura foi surpreendida e informou em nota que repudia o tipo de intervenção realizada no local

Quatro traficantes foram presos, segundo a polícia civil


Leonardo GuandelinePoliciais civis fizeram uma operação na cracolândia, região central de São Paulo, com bombas e balas borracha Foto: J.F. Diório/Estadão
Policiais civis fizeram uma operação na cracolândia, região central de São Paulo, com bombas e balas borracha J.F. Diório/Estadão
SÃO PAULO – A diretora do Departamento Estadual de Prevenção e Repressão ao Narcotráfico (Denarc) de São Paulo, Elaine Biasolli, classificou de "certíssima" a ação de policiais civis na tarde desta quinta-feira na região da Cracolândia, no Centro de São Paulo. Ela negou o uso de balas de borracha pelo Denarc, mas admitiu que seus subordinados usaram bombas de efeito moral para conter algumas pessoas que teriam reagido à prisão de um traficante por agentes do departamento. Moradores da região da Cracolândia e a prefeitura de São Paulo disseram que os policiais civis dispararam tiros de balas de borracha e bombas de efeito moral.
— Foi certíssima! — disse ela, enfática, quando questionada sobre a ação dos policiais.
Em nota, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) de São Paulo classificou a ação de “legítima” e acrescentou que “o Denarc não possui e não usou bala de borracha na ação”. Já o prefeito Fernando Haddad classificou a ação de “lamentável”.
A delegada Elaine Biasolli disse ainda que, após uma ação de inteligência com o objetivo de identificar um traficante, policiais foram para a região em viaturas descaracterizadas e acabaram recebidos com pedradas. Três policiais ficaram feridos e três viaturas foram depredadas, segundo a SSP. Moradores da região também ficaram feridos. A delegada disse, também, que foi chamado reforço para conter a represália.
Quatro traficantes, segundo Elaine, foram presos. Além desses, cerca de 30 pessoas que estavam na região foram detidas para averiguação.
— O Denarc não possui balas de borracha. Inclusive, desde que assumi, em dezembro, tenho feito pedidos ao departamento responsável. Nós temos, sim, munição antimotim (de efeito moral). É uma aglomeração. Ninguém deu tiro. Os policiais estavam sem munição — garantiu a delegada.
Segundo o Denarc, em ações desse tipo - eles negaram que tenha havido uma operação -, a Prefeitura de São Paulo não precisa ser avisada. A operação não foi comunicada ao governo municipal, que disse ter sido surpreendido, nem à Polícia Militar (PM).
— Aonde houver tráfico, nós vamos identificar e vamos prender. Independentemente de ser ou não na Cracolândia — disse.
Desde dezembro, o Denarc disse ter prendido na região da Cracolândia 65 pessoas por tráfico, 33 delas somente este mês.
A ação dos policiais civis desta quinta-feira acabou em corre-corre e bombas de gás no meio da tarde. No local, a prefeitura realiza desde a semana passada um programa de requalificação profissional destinado a moradores do entorno, a maioria dependentes químicos.
A administração municipal informou, em nota, que repudia o tipo de intervenção realizada na cracolândia. “A Operação de Braços Abertos é uma política pública municipal pactuada com o governo estadual, que preconiza a não-violência e na qual a prisão de traficantes deve ser feita sem uso desproporcional de força”, diz o texto.
Segundo a prefeitura, funcionários municipais “trabalham há seis meses para conquistar a confiança e obter a colaboração” dos usuários de drogas. A gestão de Fernando Haddad (PT) reafirmou que está empenhada na solução da cracolândia e que incidentes como os desta quinta-feira podem comprometer a continuidade do programa.
O secretário municipal de Segurança Urbana, Roberto Porto, que acompanhava os trabalhos da prefeitura no local, disse ter sido surpreendido, juntamente com a PM, que tem uma base e faz patrulhamento ostensivo no local.
Segundo um missionário que trabalha com dependentes químicos, os policiais chegaram pouco depois das 15h30m, em mais de dez viaturas. E jogaram bombas contra a multidão que estava nas ruas. Houve correria, de acordo com o missionário.
- Eles já chegaram atirando bombas. Prenderam uma pessoa, o agrediram. Vi o pessoal correndo. Foi uma ação exagerada – disse.
Moradores da região entrevistados  há duas semanas, antes do início do programa da prefeitura e da retirada de barracas de madeira das calçadas da Alameda Dino Bueno, relataram diversos abusos cometidos por policiais civis na região, entre eles agressões e prisões arbitrárias por tráfico.

Equipe de cientista brasileiro cria técnica que reduz danos de Parkinson

Aplicação de choques na medula espinhal melhorou sintomas da doença.
Terapia foi desenvolvida por equipe do neurocientista Miguel Nicolelis.

Eduardo Carvalho Do G1, em São Paulo
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Ilustração divulgada pela Universidade Duke mostra dispositivo implantado em camundongo que emite choques na medula espinhal (Foto: Divulgação/Universidade Duke)Ilustração divulgada pela Universidade Duke mostra dispositivo implantado em camundongo que emite choques na medula espinhal (Foto: Divulgação/Universidade Duke)
Um novo estudo realizado pela equipe do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis e que foi publicado nesta quinta-feira (23) apresentou avanços no tratamento do mal de Parkinson por meio da estimulação elétrica da medula espinhal em roedores.

De acordo com a pesquisa, divulgada na publicação “Scientific Journal”, ligada ao grupo Nature, a aplicação de choques na medula espinhal a longo prazo conseguiu reduzir os tremores e danos na locomoção de camundongos com a doença, e ainda protegeu neurônios cerebrais de uma possível deterioração.
Segundo a investigação, a terapia pode vir a se tornar uma alternativa ao uso de medicamentos, como o fármaco levodopa (L-Dopa), que reduz os danos da doença mas tem efeitos colaterais.
Os resultados são um desdobramento de uma pesquisa desenvolvida desde 2009 pelo departamento de medicina da Universidade Duke, de Durham, nos Estados Unidos. Na época, Nicolelis e sua equipe publicaram na revista “Science” o desenvolvimento de um dispositivo de estimulação elétrica para roedores com baixo nível de dopamina, uma das características do mal de Parkinson.
Segundo a investigação científica, quando o estímulo foi ligado, os movimentos lentos e rígidos dos animais foram substituídos por comportamentos ativos, comparados ao de roedores saudáveis.
No novo estudo, os cientistas testaram a aplicação do procedimento a longo prazo. Durante seis semanas, foram aplicados nas cobaias estímulos elétricos duas vezes por semana, em sessões de 30 minutos.
Em entrevista ao G1, Nicolelis disse que os roedores que passaram pelo tratamento apresentaram uma melhora expressiva nos movimentos e uma reversão severa da perda de peso, “um indicativo de que o tratamento estava funcionando”. Além disso, esses animais não sofreram danos neurológicos, algo que ainda será investigado mais profundamente.
"É um resultado surpreendente que a gente não sabe ainda se é específico do tipo de síndrome que foi criado [no roedor], causada pela toxina que usamos para simular o Parkinson. Mas de qualquer maneira é muito encorajador, pois tivemos um efeito funcional e estrutural ao mesmo tempo", explicou Nicolelis.
Testes clínicos serão feitos no Brasil
De acordo com Nicolelis, o dispositivo também foi testado em seres humanos. Desde 2009, 19 pessoas de vários países que têm mal de Parkinson utilizaram o equipamento, que foi instalado nas costas, na transição entre as porções cervical e toráxica. O tratamento não invasivo é considerado fácil e barato de ser produzido.

Uma das “cobaias humanas” recebeu aplicações durante dois anos, nos mesmos moldes apresentados neste estudo. Segundo o neurocientista, o paciente, uma mulher, apresentou “uma melhora expressiva, com resultados positivos nos tremores e na locomoção".
Agora, Nicolelis tenta trazer os testes clínicos para o Brasil. Segundo o pesquisador, ainda este ano a Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) deve iniciar experimentos. “Estamos esperando apoio para conseguir testar a técnica no Brasil. A partir de agora, vamos ter resultados mais frequentes”.
Os tremores, os membros rígidos e a perda de equilíbrio são alguns dos sintomas que caracterizam o Parkinson, resultado da falta de dopamina, um neurotransmissor produzido por um grupo de células nervosas. A doença provoca a morte progressiva destas células, e por isso, o quadro dos pacientes é degenerativo.
Atualmente, a doença afeta 5 milhões de pessoas em todo o mundo e é o segundo mal neurodegenerativo mais comum, depois do Alzheimer.