4.18.2010

Plantas Medicinais com Atividade Antiviral

O emprego de plantas com finalidade medicinal como no tratamento ou prevenção de várias doenças infecciosas tem sido utilizado há muito tempo pela população em geral. As comunidades rurais também utilizam as plantas para tratar doenças em animais domésticos. A sanidade animal em criações convencionais e orgânicas permite a utilização de produtos naturais para a prevenção e tratamento de enfermidades como o uso de fitoterápicos visando a promoção da saúde como estratégia de proteção às doenças. O estudo de espécies de plantas que apresentem atividade antiviral contra herpesvírus é de suma importância aliado ao grande interesse no aproveitamento dos recursos naturais brasileiros. O uso de plantas também propicia o manejo adequado, a proteção e a conservação da biodiversidade da flora brasileira e pode favorecer a recuperação de variedades locais e do meio ambiente.

O Instituto Biológico (IB-APTA), órgão ligado a Secretaria Estadual de Agricultura e Abastecimento, preocupado com o bem estar da população e com a qualidade dos alimentos consumidos, vem estudando diferentes espécies de plantas de uso popular ou desconhecidas para problemas de sanidade animal.

Uma das estratégias utilizadas na busca de novos fármacos potencialmente úteis consiste em selecionar diferentes espécies de plantas de uso popular medicinal aumentando assim, as chances de se encontrar substâncias ativas que possam ter uma importante atividade biológica como os agentes antivirais. Encontrar princípios ativos, com propriedades antivirais em potencial, em extratos de plantas selecionadas aleatoriamente é muito difícil e oneroso, portanto a procura por substâncias ativas nas plantas medicinais deve ser baseada em critérios definidos como o uso medicinal.

O desenvolvimento dos antivirais teve grande impulso para combater as doenças infecciosas causadas por vírus na qual a prevenção não tem sido efetiva através do emprego de vacinas (Simoni, 2003).

Trabalhos do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de Sanidade Animal do Instituto Biológico, utilizando principalmente extratos de folhas frescas ou secas de espécies nativas ou exóticas adaptadas que apresentam atividade antiviral testadas in vitro contra doenças infecciosas causadas por herpesvírus de animais, encontraram várias espécies promissoras. Estudos foram realizados em diferentes biomas como o do cerrado, pantanal e mata atlântica onde foi observada atividade antiviral. Espécies de Meliáceas como aGuarea guidonia (L.) Sleumer, mostrou atividade antiviral contra herpesvírus suíno tanto o extrato bruto proveniente de folhas como o de frutos. O efeito antiviral dos extratos de folhas foi durante os estágios iniciais da infecção viral (Simoni, et al, 1996).

Espécie encontrada com potencial inibidor em diferentes extratos foi a de Guettarda angelica Mart.. Os extratos aquosos das folhas e das raízes, com as respectivas frações aquosa, acetato de etila e hexânica; e extrato metanólico, não apresentaram atividade antiviral frente aos herpesvírus de bovino e de suíno. Enquanto que o extrato aquoso das sementes (EAs) apresentou-se ativo contra ambos herpesvírus. Em estudos sobre o mecanismo de ação do extrato EAs verificou-se uma inativação direta para ambos os vírus (virucida) e também nas etapas de adsorção e pós-infecção da replicação viral. O EAs também atuou na fase de pré-infecção somente para o herpesvírus bovino (Barros, et al., 2007).

Em outro projeto iniciado com o apoio do SESC Pantanal e da UFRJ estudou-se diferentes espécies de plantas cujo critério de escolha de seleção das espécies para os testes antivirais foi baseado nos vegetais consumidos pelos veados e cervos do pantanal sendo que algumas delas são tidas como medicinais para o homem e utilizadas em tratamentos infecciosos, inflamatórios e intestinais (Costa et. al., 2006). Dentre as espécies promissoras foram selecionadas Mimosa xanthocentra Mart. e Cecropia pachystachya Trec. para a realização do biomonitoramento da atividade antiviral contra herpesvírus animal (Camargo, et.al., 2007; Simoni, et. al., 2007b). As frações de C. pachystachya de acetato de etila e butanólica foram pouco ativas e a fração aquosa residual apresentou forte atividade antiviral. A partir destas foram fracionadas obtendo-se as frações Aq-SN e AqPpt, sendo que apenas a fração Aq-Ppt se mostrou ativa contra herpesvírus. Estudos químicos de espécies do gênero Cecropia revelam a presença de flavonóides como metabólitos predominantes porém no presente estudo, flavonóides foram detectados apenas nas frações S-Bu e S-Ac. Entre as frações obtidas a partir da Mimosa xanthocentra a fração Aq-Ppt foi a que se mostrou a mais ativa contra herpesvírus animais.

Um dos entraves para o desenvolvimento de produtos naturais reside na falta de disponibilidade de grande quantidade de material vegetal. Como alternativa foi realizado trabalho que pesquisou a atividade antiviral a partir de extratos de plantas micropropagadas contra hespesvírus de suíno produzidas pela empresa Clonagri. Os extratos foram preparados a partir da planta inteira triturada e misturada com uma solução hidroalcoólica a 3% de etanol. Os extratos das seguintes espécies foram testados quanto à citotoxicidade e atividade antiviral: Acrostichum danaeifolium Langsd. & Fisch., Aeollanthus suaveolens Mart. ex Spreng., Arachniodes adiantiformis (G.Forst.) Tindale, Colocasia esculenta Schott., Etlingera eliator (Jack) R. M. Smith, Microlicia sp, Zinziber sp e Arrabidaceae chica (Humb. & Bonpl.) B. Verl.. A maioria dos extratos foram pouco citotóxicos e as espécies Acrostichum suaveolens e Arachniodes adiantiformis foram inibidoras com porcentagem de inibição maior do que 90% (Alvarez et. al., 2008).

No Parque do Itapeti em São Paulo foram coletadas 21 espécies de plantas muitas delas conhecidas por apresentarem propriedades medicinais. Os extratos de plantas preparados foram testados contra herpesvírus de suíno sendo que 29% foram inibidores. Os extratos de Psidium cattleianum Sabine, Uncaria tomentosa DC., Bauhinia blakeana Dunn, Leandra purpurascens Cogn., Tibouchina mutabilis Cogn. e Origanum vulgare L. foram inibidores para o herpesvírus de suíno (Melo, 2005).

Diversas espécies do cerrado também foram estudadas quanto a atividade contra hespesvírus animais sendo que os extratos de Byrsonima intermedia A. Juss., Stryphnodendron adstringens (Mart.) Coville, Lacistema hasslerianum Chodat e Campomanesia xanthocarpa O.Berg. foram inibidores (Simoni, et. al., 2007a). Dentre essas espécies na Byrsonima intermedia verificou-se que os extratos apresentaram atividade virucida tanto para herpesvírus de suíno como para herpesvírus equino.

A distribuição geográfica, bem como época de coleta pode interferir na quantidade e, às vezes, até mesmo a natureza dos constituintes ativos variando durante o ano nas diferentes estações. Estudos anteriores realizados com extratos de Drimys brasiliensis Miers. relatou-se atividade antifúngica, antinociceptiva, antibacteriana e antioxidante. Assim, extratos de Drimys brasiliensis estão sendo estudados quanto à atividade antiviral contra herpesvírus animal coletados em diferentes épocas do ano. Todos os extratos testados foram fortemente inibidores contra o herpesvírus de bovino e apenas os extratos aquosos apresentaram atividade antiviral contra o herpesvírus de equino.

Estas espécies são consideradas promissoras e estudos ainda devem ser conduzidos sobre natureza da atividade inibidora observada contra os herpesvírus de suínos, de bovinos e de equinos antes do emprego nas criações dos animais domésticos.

Assim, as infecções virais constituem tanto um problema na área de saúde humana como animal tornando-se, portanto, importante a busca por inibidores de origem natural que possam controlar a infecção e/ou bloquear a disseminação das doenças visando a melhoria da qualidade da vida.

Por: Isabela Cristina Simoni

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