5.20.2011

“Indignados” tomam ruas e praças da Espanha em protesto inédito — e deixam campanha eleitoral falando sozinha

Protesto Inédito nas Ruas
 Amigos, se em Maio de 1968 na França era “proibido proibir”, na Espanha de 2011 o fenômeno, que se alastra como incêndio em época de seca, tornou na prática proibido ser a favor de “tudo que aí está”, atropelando e deixando em segundo plano as eleições regionais e municipais deste domingo, 22, e as respectivas campanhas eleitorais (de que tratei em post anterior) falando sozinhas.
Centenas de milhares de jovens, convocados e se comunicando pelas redes sociais – as principais convocatórias partem do portal Tomalaplaza (“Tome a praça”), têm ido pacificamente às ruas, permanecido acampados em praças e se manifestado por faixas e cartazes em mais de 50 cidades do país, a começar pela capital, Madri, e seu coração – a Puerta del Sol, a magnífica praça que, significativamente, é o marco zero de todas as grandes rodovias espanholas –, num movimento espontaneamente batizado de Democracia Real Já. Espanhóis no exterior também começaram a se concentrar e protestar diante das embaixadas em 17 cidades estrangeiras.
Contra tudo, inclusive “uma vida cinzenta”
Eles são contra o governo, os bancos, os partidos políticos, os políticos desonestos, os políticos tradicionais, as medidas de austeridade exigidas pela União Europeia e pelas instituições internacionais de crédito, o FMI, a roubalheira, o desemprego, o alto custo das hipotecas… O estudante de cinema Álvaro Alsina, um dos ativistas acampados na Plaza Catalunya, centro de Barcelona, deu um certo toque de maio de 1968 às manifestações em artigo publicado no jornal barcelonês El Periódico em que protesta “contra a idiotização da juventude” e repele a perspectiva de “uma vida cinzenta” para os jovens.
Estudantes, jovens desempregados, aposentados, velhos militantes comunistas e socialistas até então desiludidos, pessoas que perderam suas casas por não conseguirem pagar as hipotecas devido à crise financeira iniciada em 2008 – há de tudo nas massas que protestam. E não se trata, não, dos conhecidos protestos anti-globalização.
São um fenêmeno novo, surgido como se fosse do nada, sem líderes, que tampouco é aparentado com o movimento em países árabes por democracia, porque não reivindicam uma democracia que já existe, mas pretendem, de forma atabalhoada e desorganizada, em maio a reivindicações que nem sempre apontam na mesma direção, aprimorá-la e torná-la mais próxima e das pessoas comuns, e mais efetiva para os cidadãos.
“A pergunta relevante não é porque essa explosão de indignação chega agora, mas por que não chegou antes”, escreveu o antropólogo catalão Carles Feixa, que forjou para o fenômeno a designação de “revolta glocal”, porque junta motivações e métodos globais com outros essencialmente espanhóis.
Os slogans dizem mais do que os teóricos
Mais do que a análise dos teóricos, o que revela o conteúdo do movimento dos “indignados”, dos “revoltados” ou dos “acampados”, como já está sendo chamado, ou dos “protestos 2.0”,em alusão à importância das redes sociais no que vem ocorrendo, são os slogans que aparecem nas faixas exibidas e nos gritos dos manifestantes.
Vejam alguns:
“Não, não, vocês [políticos de todos os partidos] não nos representam”
“Os bancos, vocês salvam, os pobres, vocês roubam”
“Não vote neles”
“Limpemos essa m….”
“Democracia, luta diária”
“Tudo está corrompido e vendido”
“Pela escola pública, casa para todos”
“Abaixo a guerra”
“Abaixo a corrupção”
“Chega de altos salários para os políticos”
“Abaixo o bipartidarismo” [A Espanha tem duas dezenas de partidos, mas apenas dois de caráter nacional e peso suficiente para governar, sozinhos ou em aliança: o Partido Socialista Operário Espanhol, de centro-esquerda, e o Partido Popular, de direita]
“Tudo está podre”
“Casas minúsculas, hipotecas gigantes”
“Digam-nos a verdade”
Algumas mensagens dos jovens pelo Twitter
Para evitar problemas legais pelo fato de o país estar às vésperas de eleições, os “indignados” vêm tomando o cuidado de não citarem, nos cartazes e faixas, nomes de partidos ou de políticos específicos, mas estão atropelando as proibições de realizar manifestações nesse período.
Vejam algumas das mensagens do Twitter selecionadas pelo jornal El Periódico, representativas do que pensa boa parte dos manifestantes
@carmanns
“Não sou culpado pela crise, sou vítima. Não especulei nem desperdicei. Os culpados que paguem.”
@lunademediatard
“Os mesmos que apoiaram Egito, Tunísia e Líbia censuram # acampadasol [refere-se à Puerta del Sol] Vocês não têm vergonha, nós #nãotemosmedo”
@PaulMontalva
“Vivo num país onde se pode acampar para ver Justin Bieber mas não para defender nossos direitos”
Partidos fazem comícios à prova de vaias
Diante de tudo o que ocorre nas ruas e praças, a campanha eleitoral para o pleito de domingo ficou de uma hora para outra em absoluto segundo plano. Tornou-se “ridícula”, segundo ouvi esta madrugada de jornalistas graúdos participantes de uma mesa-redonda na televisão pública TVE que foi até as 4 horas da madrugada.
Eles têm razão. Multidões estão nas ruas, e os políticos, com seus sorrisos profissionais, fazem comícios à prova de vaia em locais fechados, como teatros e centros de convenções, para seus próprios militantes, que agitam bandeiras ao que tudo indica já irrelevantes para centenas de milhares de espanhóis.
O primeiro-ministro socialista José Luís Rodríguez Zapatero, cuja popularidade bate recordes negativos e não se recandidatará na eleição geral do ano que vem, canhestramente tentou pegar carona no movimento: “Peço o voto do progressista crítico [referindo-se obviamente aos manifestantes], porque votanto na esquerda sempre se pode democraticamente fazer exigências [aos eleitos]“. Já os conservadores do PP, de forma inacreditavelmente míope, pretender ver numa revolta dirigida a inúmeras questões apenas um protesto contra o governo socialista capaz de beneficiá-los.
Não sei, não, mas algo me diz que o movimento, inicialmente previsto para terminar no domingo, não apenas vai continuar, como poderá se alastrar Europa afora.
Ah, um último detalhe: não vi até agora uma única faixa, cartaz ou grito – como ocorria antigamente – contra o “imperialismo ianque”.

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